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Sábado, Fevereiro 02, 2002
Ainda sábado, 2 de Fevereiro de 2002 06:08 (horário obsessivamente visto no meu adorável portable). Olha, escrevi muita merda e uma mão invisível de Adam Smith me impulsionou a postar todo o resultado escrito desses meus devaneios. Talvez eu amanhã me arrependa e apague tudo. Je ne seis pas. Pas encore
Sábado, 2 de Fevereiro de 2002 05:02 (horas checadas no meu celular!). Este é um post muito babão! Ah, crianças... Estou totalmente alcoolizado, escrevendo minhas sandices neste computador. Comecei com um jantar inocente no Rockets, continuei com vodkas e mais vodkas em bares perdidos na vastidão dos Jardins. E eis o resultado uma pobre alma encharcada de etil, de nicotina e de restos de perfume (a quem interessar possa meu momento peruesco, Envy by Gucci).
Entrei há pouco na Internet, só pra verificar meus e-mails e, não mais do que repentina e inesperadamente, acho uma mensagem fofa do Smile Amarelo. Mensagem elogiosa ao meu português, à minha suposta boa percepção de mundo e até a este rostinho.Leitores, não parece, mas eu sou sensível. Demais. Por trás do meu pendatismo gramatical e estilístico, debaixo da máscara dos meus bons modos, sob o verniz das minhas risadas trincadas resultantes de uma educação esmerada, oculta-se um rio, do quilate do Nilo, de pura fragilidade. Para os entendidos de Astrologia, nada mais do que a carne vulnerável de um caranguejo envolta por uma sólida carapaça, consubstanciando um resultado bem acabado de um típico nativo de Câncer.
As pessoas ficam especialmente sensíveis quando ébrias, mas meu caso é à parte. Fico emotivo ao extremo, com direito a acessos de choro e de culpa, juras de amor eterno, demonstrações exageradas e histéricas de carência. Ou, então, com direito a uma verborragia irritantemente jorrativa. Nossa, estou muito emocional e incoerente hoje nem me atrevo a rever o que escrevi antes, sob pena de um impiedoso delete. Resolução imediata e irrevogável (hihi, minha verve advocatícia aflorando!): publicar estas merdas desconexas. E sem direito à revisão e a eventuais filtrações de super-ego.
E coloco à disposição de interessados este coraçãozinho, destroçado por amores platônicos e auto-enganos correlatos. A doação será concretizada mediante paga de carinho incondicional, de abraços fortes e de promessas irrestritas de proteção eterna. Quem se habilita?
Uh, vejo que ma petite soeur ainda não está em casa. E antes de qualquer eventual arrependimento, vou colocar isto tudo no ar!
Você deveria ficar feliz com esse resultado. Afinal de contas, você tem as melhores jóias e as melhores roupas da novela inteira. Chifruda e com problemas familiares, você é uma boa pessoa mas pode se tornar vingativa e má! Ainda assim, nunca desce do salto e está sempre chique no úrtimo!
Mera curiosidade: sabiam que a personagem tem esse nome em homenagem à mãe do diretor, o Monjardim?! Que se chamava Maysa?! E que happens to be aquela Maysa, a que melhorou a música consagrada por Jacques Brel e por Edith Piaf?!
Advertência:E eu vou soltar o verbo, agora literalmente, vou xingar a mãe. A minha, no caso. Se quem lê isto aqui tem comichões alérgicos ao deparar com manifestações do gênero e é partidário daquele ditado falacioso de que "mãe é mãe", que pule o que se segue neste post. Ou então, que o leia atentamente para modificar suas crenças.
Quinta-feira, 31 de janeiro de 2002 É, eu continuo às voltas com meu péssimo relacionamento com a adorável genitora, sofrimento que eu venho tentado, tortuosamente, aplacar com as sessões de análise. Ah, esse assunto fulcral e que embasa boa parte das neuroses que me assaltam, esse tema recorrente das minhas sangrias desatadas no divã, essa cantiga que faz com que muito do allegro da minha vida se esvaia e dê lugar a um monótono andante! Problemas com a mãe, todos têm, mas posso garantir, e com conhecimento de causa, que, nesse quesito, eu sou especialmente privilegiado.
Vou resumir a história, para que ninguém aqui fique pensando que eu sou mais um que engrossa o enorme rol de rebeldes sem causa, que ainda vivo naquele dilema adolescente de decepção e inconformismo por perceber que os pais estão longe de ser perfeitos. Já sou grandinho e sei que todos têm suas falhas. Entretanto, como mãe, a minha abusou do direito de ser imperfeita. Mas já me adianto. Vamos aos fatos.
Meus pais se casaram quando minha mãe ficou grávida de mim. Um casamento desde o início fadado ao infortúnio, já que diferenças abissais se colocavam entre os dois. Ele, oriental, trinta anos, estabelecido e formado em faculdade de renome; ela, ocidental, vinda do Nordeste, vinte e um anos ainda incompletos, sem estudos e, até o momento, sem projeção alguma de carreira. Eles se casaram. E ela teve três empregadas, inúmeras peças no guarda-roupa, faculdade paga; teve carta branca para dar festas em casa, para atochar a casa com seus parentes parasitas. E ele teve de se desdobrar para pagar o sem-número de contas que o estilo faustoso de vida que minha mãe tinha adotado exigia.
Nunca criamos vínculos de mãe e filho, ela renunciou a esse direito desde o começo: se recusava a trocar minhas fraldas, a me alimentar; simplesmente delegou todas essas tarefas de mãe à minha avó e às minhas tias. Foi nessa casa que eu me criei e que continuo até agora. Das poucas coisas que me lembro da minha mãe ainda casada com meu pai, a imagem mais forte é dela estendida no sofá com rodelas de batatas ao redor dos olhos, amargando uma ressaca, me proibindo de fazer qualquer tipo de barulho, e berrando ordens às empregadas.
E o casamento prosseguia do mesmo jeito. Até que meu pai decidiu, antevendo resultados a longo prazo, abandonar seu emprego razoavelmente bem remunerado em uma escola conceituada para ingressar na carreira de funcionário público. E, com isso, teve uma substancial redução de salário. Entrementes, a minha mãe começou a galgar uma carreira brilhante no banco. Para quem não se lembra, ser bancário no início dos anos 80 era altamente compensador. Com isso, ela começou a ganhar mais do que o meu pai, não precisava mais dele, pra dizer a verdade. E pediu o divórcio. Desconsiderando os dois filhos pequenos (eu tinha cinco anos; minha irmã, dois), desconsiderando as súplicas da minha avó japonesa para quem uma separação era inconcebível, desconsiderando, enfim, todo o senso que permeia os conceitos de ética e de gratidão.
E saiu de casa, "para viver sua vida", desaparecendo por quase um ano, matando pela raiz qualquer possibilidade de aproximação e construção de afeto com seus filhos, deixando meu pai se enfurnar em contas e em três empregos simultâneos para nos educar dignamente. E tem sido assim ever since. Meu pai e sua família cuidando de nós, em todos os aspectos. Não tive minha mãe como mãe a maternidade que eu recebi (e, graças a Deus, muito bem) veio das minhas tias e da minha avó.Só que, de seis ou sete anos para cá, a situação se inverteu: os bancos deixaram de ser um oásis seguro de emprego. E a carreira em que meu pai tinha investido há tempos atrás começou a dar seus frutos.
Esse assunto não é nada original existem aos borbotões divórcios traumáticos e em que uma parte invariavelmente fode covardemente a outra, resultando nesse drama de filhos pagando as extensas e penosas contas das cagadas de seus pais. Tento, de fato, não dar tanto valor a esse assunto particular da minha vida, permitindo que ele me torture indefinidamente. Tento-me ater ao fato de que a minha família paterna realmente envidou inúmeros esforços no sentido de suprir essa falha que minha mãe deixou. Tento-me relembrar de que existem tantas pessoas mais sofridas do que eu, que vivem traumas horrendos, gente vinda de lares convencionais, com papai, mamãe, seus dois filhos e meio, seu cachorro e sua station wagon na garagem. Também já tentei incutir na minha cabecinha que algumas pessoas não nascem para ter filhos e que devemos aceitar as limitações que essas pessoas apresentam quando acontece algum acidente de percurso. Tanto tempo me manter às cegas para essa relação horrenda com minha mãe que nunca esmiucei o assunto por aqui.
Mas, de vez em quando, apesar de todos os meus esforços em sentido contrário, here comes mommy again. Trazendo de volta todos os meus ressentimentos, toda a minha raiva, todas as minhas cobranças de filho cujo cumprimento o tempo tornou impossível. E lá veio hoje ela de novo, para me dizer que cortou o limite do meu cheque especial, sem aviso prévio; proeza que lhe foi possível já que o ser em questão é gerente do banco do qual eu sou correntista. E o mais adorável: me deixar ciente disso às nove horas da manhã, ainda cobrando de mim um telefonema que minha analista supostamente ficou de lhe retornar - a minha analista a quem o meu pai paga exatos cento e vinte reais por quarenta e cinco minutos de sessão! Quantia assombrosa que, naturalmente, não conta sequer com a contribuição de cuspe da minha mãe.
Cheguei espumando ontem na sessão, já expondo todo o meu costumeiro rosário de ressentimentos: a escolha dela ter ido embora de casa e não ter querido a guarda dos filhos; a subseqüente não participação dela em qualquer coisa de nossas vidas(e aqui inclui-se a monetária); e, agora, a mesquinhez e tacanhez de espírito dela em usar o único e frágil poder que ela atualmente tem sobre a minha vida (ser gerente da porra daquele banco) para tentar-se fazer "mãe" e se isentar de todos os seus remorsos de ausência. Às minhas custas, é claro!
Como ela ousa intervir de uma forma tão acintosa na minha vida, sem ter direito algum a isso? Ela é a gerente do meu banco? Ótimo, mas quem é que põe os reais lá? Quem é que paga todas as minhas contas? E para não me acusarem de ser puramente materialista, quem é que sabe do que acontece na minha vida? Se eu estou doente? Se eu estou fazendo terapia? Se eu chego bêbado de manhã em casa? Meus vizinhos sabiam que eu fumava antes dela, pessoas com quem eu falo a cada duas semanas souberam que eu me matriculei no cursinho antes dela.
Pronto, falei. Falei, agredi e fui repetitivo. Desabafei! Mas eu avisei antes que este post seria mais desagradável do que os demais.
E não é que o determinismo de Taine tem lá seu fundamento?! Estou totalmente à mercê desse meio fumegante. Essa temperatura saheliana tem-me deixado um bagaço, imprestável para realizar as mais mínimas tarefas. Gente, trabalhar sob essas condições deveria ensejar adicional de insalubridade! Não venho postar aqui porque este micro simplesmente me vence com seu calor diabólico, me desestimulando até a ligá-lo. Sem mencionar que meu raciocínio, que, já não é dos melhores, também fica substancialmente prejudicado por esses montões de graus Celsius.
Fato é que, além da preguiça motivada pelo calor, não tenho muito o que contar. Meu amigo gringo foi embora na terça e, computando todas as nossas saídas, fiquei com o saldo positivo de mais um relacionamento estreitado, ainda com o ganho de um bullet de K! Brincadeiras à parte, foi ótimo tê-lo conhecido melhor e de verdade, sem tantas deturpações provocadas pelo álcool, pelas drogas e pela música alta. Teve tudo isso, claro, mas houve também longas conversas telefônicas sóbrias e vespertinas, sessões de compras seguidas por almoços caretas, essas coisinhas que fazem a diferença entre um amigo e um conhecido.
E foi melhor ainda ouvir as muitas experiências de alguém mais velho e, com isso, se lembrar de que o inevitável passar dos anos atinge a todos indiscriminadamente, tornando visivelmente efêmeras e pouco importantes coisas que são teimosamente priorizadas, tais como festas, roupas e status. Claro que todos sabem disso, mas deliberadamente procuramos ocultar esses pensamentos no porão do nosso inconsciente, tratando o cruelmente inexorável fenômeno do envelhecimento como um inimigo distante e improvável...
Fiquei, com isso, mais motivado a pensar mais a longo prazo e a almejar a estabilidade. E, depois de muito ouvir insistentes conselhos do meu pai, me rendi às promessas de segurança de um cargo público. Pode ser fogo de palha, mas decidi-me preparar para um concurso e até me matriculei num cursinho especializado para isso (já falei disso antes). As aulas começam na segunda-feira que vem, o que significa que o meu ócio tem uma data bem próxima para terminar. Na pior das hipóteses, eu vou aprender o que a faculdade não foi capaz de me ensinar nesses quase cinco anos de agonia. Fingers crossed!
Segunda-feira, 28 de janeiro de 2002Alta madrugada! O dia foi e continua quente, bem do jeito que eu odeio, minha pele está um lixo, contrariando a tese daqueles que dizem que o verão é a melhor época do ano e acabo de descobrir que eu tenho apenas três cigarros... Mas who cares? Eu, seguramente, não. Ao menos, não hoje, não agora. Estou curtindo um delicioso e lânguido pós de E, ainda com aquele restinho de sensação de bem-estar que as lindas pilulazinhas combinadas com o K proporcionam.
É, eu não tomo jeito passei mal na quarta e, com isso, eu deveria ter tirado novas férias da vidinha notuna. Mas justamente por não ter tido a melhor das viagens no meu retorno, não pude matar a saudade das drogas do jeito que eu queria. Então teimei e insisti se eu não saísse do ar e aproveitasse plenamente o efeito de tudo, eu não ficaria satisfeito. E que colocação, a de ontem! Saí do ar, me senti altamente fofo, matei saudade daquelas músicas fubás que tocam na Level, revi gente, dancei, flutuei e tive uma rápida sensação de K hole.Todas as pessoas ao meu redor podiam estar-se desentendendo e insistindo em seus joguinhos infantis de futilidade, o mundo podia estar ruindo lá fora, que eu não me importava em absoluto. Por dentro, eu era uma fortaleza inabalável de serotonina, de paz e de auto-confiança. Foi tudo muito efêmero, claro, mas foi tão intenso que me ajudou a fazer as pazes comigo mesmo. A droga tira a censura que nosso super-ego nos impõe e que faz com que demos muito valor a coisas insignificantes; nos liberta, ainda que temporariamente, esse sem-número de amarras que engessam o nosso eu. E o mais importante de tudo é saber guardar essa mágica e rápida epifania e aplicar suas lições na vida cotidiana, guardar as boas recordações da viagem. E não usar isso para se esconder ou fugir dos problemas que a vida nos apresenta, mas lhes dar o devido valor e encará-los com a devida serenidade.
Pronto, já estou conferenciando de novo. O que tenho de dizer é que foi, decididamente, um bom farewell. Agora eu vou-me matricular num cursinho à tarde e as aulas já começam no dia 4. Vou, ainda, ter mais a faculdade à noite, a terapia uma vez por semana durante a manhã e, com isso, não vou mesmo poder sair e me drogar todos os finais de semana. Meu primeiro impulso, como sempre, foi o de me culpar muito e estragar toda a beleza da noite, e já começar a martelar na minha cabeça a preocupação que toma conta da minha família, apreensiva não só pelas drogas, mas também por toda esse pavor de violência que se instalou em todos os lares.
E a paranóia atingiu o pico quando eu cheguei em casa e vi que a minha irmã já tinha voltado da balada dela e, com isso, mais uma vez, eu estaria atuando no papel do sem-juízo da família. E toca o palhaço aqui a correr para o telefone: seis da manhã, eu ligo para o meu amigo, numa mania de perseguição tão grande que eu sussurrava, "com medo de que alguém pudesse ouvir" e fazendo com que a pobre alma do outro lado da linha pedisse para eu repetir cada frase minha. Ridículo. Felizmente, acordando pela manhã (lá pelas onze horas), percebi que tamanho chilique era apenas a famosa maximização da realidade que os colocóns tinham-me proporcionado. E concluí, novamente e com muita veemência, que jogar no lixo tudo o que eu fazia antes como se nada daquilo prestasse era uma outra forma de castração. Que mergulhar na seriedade era tão limitado e pouco saudável quanto levar uma vida integralmente errante. É difícil, é um grande desafio para todos, eu bem sei, mas eu preciso achar o tão almejado caminho do meio, do equilíbrio. Uma tarefa especialmente árdua para este serzinho que, nas palavras de familiares, amigos e analista, é tão compulsivo e ambivalente. Estou finalmente vendo a desejada luzinha no fim do túnel? Let us hope so.