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Sexta-feira, Maio 31, 2002
Algumas vitórias vêm disfarçadas sob a roupagem da derrota. E vice-versa.
Um pensamento alentador pra tomar conta da minha cabeça, antes de dormir...
Talvez eu já tenha falado (ou melhor reclamado) disso antes. Mas já que o assunto é esse, os famigerados pecados capitais, que tal aquela coleção lançada pela Editora Objetiva? Uma belíssima enganação. Colocaram, inicialmente, dois nomes de peso, Veríssimo e Ubaldo Ribeiro que, como não poderia ser diferente, cumpriram magistralmente os papéis que lhes foram delegados. Se você não leu O Clube dos Anjos, do mestre Veríssimo e A Casa dos Budas Ditosos, do Ubaldo Ribeiro, eu recomendo. Mas paremos por aí. Descontada essa dupla, a série de livros é um fracasso: são obras pífias, ordinárias, sonolentas e derivativas. Mas claro que, essas aí, as ruins, vieram apenas depois do lançamento das duas primeiras. Muito propositadamente, eu me atrevo a dizer, porque os incautos continuaram comprando os demais volumes, na esperança de ver repetida a genialidade dos dois primeiros livros, ou, ainda, movidos pela obsessão particular de ter a coleção completa. No meu caso, eu fui duplamente trouxa, porque me levei pelos dois motivos, e enchi-lhes os bolsos de dinheiro.
A mesma editora está lançando uma coleção, também de literatura encomendada, versando sobre os cinco dedos da mão. Saiu o do Mário Prata, o terceiro da série, sobre o mindinho. Eu deveria ser mais cauteloso, mas já estou planejando ir à livraria, ainda esta semana, comprar todos. E, como eu me conheço, vou acabar lendo o do Manoel Carlos sobre o anular. É, o global. Mas, por ora, não vou ser preconceituoso em relação às novelas horrorosas que ele escreve.
Esse teste é interessante. Mas deveria ter uma alternativa que reunisse todos os pecados, não só os capitais, mas todos aqueles outros hierarquicamente inferiores e, também os não catalogados. Seria um resultado mais realista, tanto para mim, quanto para você, quanto para a humanidade inteira!
E descubram o presente que ele me deu. Querido, muito, muito, muito obrigado mesmo! Não só por este maravilhoso design e pelas horas de sono e de paciência que isso se consumiu, mas por ter-me dado a chance de conhecê-lo melhor!
Agora, finalmente, ganhei uma página sem a infernal propaganda deles, e, o melhor, com um template personalizado, bem de acordo comigo! Claro que eu jamais teria feito isso sozinho, porque eu reconheço minha limitação extrema para lidar com essa complexidade de web design. Eu bem me lembro os resultados desastrosos da única e última vez em que me aventurei a tentar alterar esta página. E é isso, não se esqueçam de salvar a página no seu endereço novo; em breve, vou colocar um redirecionamento automático!
E a você de novo... Muitíssimo obrigado... Thank you so much... Merci beaucoup... Domo arigatogozaimashuta!
Disclaimer: desculpem o neologismo, eu sei que estou bem longe de ser outro Guimarães Rosa. Favor substituir "antagonizantes" por "antagônicas". Vai ficar assim mesmo.
Os doutos no assunto afirmam que as crises de identidade são típicas da adolescência e que tendem a ser atenuadas com o decorrer do tempo. Os experts complementam o raciocínio, dizendo que esses conflitos não só podem persistir com o passar dos anos, como de fato persistem para a maciça maioria de nós. Só que, de qualquer forma, são mais intensos nos dourados teen years.
Pois bem. Em vista disso, eu sou claramente, ao menos do ponto de vista emocional, um aborrecente. Por razões que eu ainda não consegui explicar aqui, apesar de já ter passado quase um mês desde o estopim, eu não sei mais quem ou, pior, o que eu sou. Essa dúvida é acentuada por uma babel de vozes antagonizantes entre si, todas imbuídas de boa intenção (tá, eu sei, dessas o inferno está cheio), que enchem os meus ouvidos e que partem (para?) o meu cérebro.
Será que essa preocupação de esmiuçar motivos não se passa de inutilidade? Que é contraproducente dispender energias na tentativa de identificar razões e circunstâncias que me levaram a determinada situação? Isso não seria desnecessariamente doloroso? Então, seria melhor procurar a solução dos seus problemas em outra coisa diferente do passado? Passar uma borracha em tudo e seguir em frente? Mas a resposta para os problemas, ou ao menos parte desta resposta, não estaria justamente nessa análise retroativa? Conhecer o passado não é caminho indispensável para não repetir os mesmos erros no futuro?
Quanto clichê. Mas o que me resta depois dessa tortura mental é mais um raciocínio circular e vicioso que desemboca em mais um dilema. "Não se preocupe em 'entender'. Viver ultrapassa todo entendimento.". Adorada Clarice, você estava certa. Ou melhor, está certa, porque idéias como essa são imortais; o tempo não as esgota, nem as ultrapassa. Fato é que teoria e prática estão irremediavelmente dissociadas.
Estes rabiscos são resultado de uma conversa muito reconfortante. Obrigado, querido!
Acabei de receber um mimo. Ou melhor, a prévia de um presente que ainda está em execução, mas cujos resultados certamente vão agradar. Já agradaram a mim, ao menos! Aguardem!
Esbarrando em algumas páginas pela web, vejo que nossa última Flor está mais inculta do que nunca. Inculta e nada mais, porque toda a sua beleza foi sistematicamente estilhaçada por esses (sic e mais outra onomatopéia que possa fazer as vezes de vômito) "autores". Não hesito em concordar que o português está longe de ser uma língua fácil e que a obediência cega às suas inúmeras regras de concordância, gramática e afins acabam por retirar, na maioria das vezes, a fluidez e a espontaneidade de qualquer escrito. Ninguém precisa sair por aí escrevendo à moda Jânio Quadros e proferir preciosidades como "fi-lo porque qui-lo". Além de ser doentiamente obsessivo, soa mal. Mas, por favor, há certas coisas que estão num nível abaixo do básico e fundamental. E essas coisinhas devem, sim, ser respeitadas, ainda mais quando você pretende deixar que outros vejam o que você escreve. E não me venham com esse papo de que "todo mundo fala assim, então por que eu não posso escrever do jeito que eu falo?". É comprovadíssimo que o nível da linguagem escrita é sempre superior ao da oral. Tá, pode ser gosto, mania ou neurose de minha parte, mas erros grotescos dóem. Machucam os olhos, reviram o estômago, lacrimejam os olhos e aumentam a descrença na salvação do país.
Diferenças entre "há" e "a", o uso apropriado da crase, noções mínimas de regência verbal e, claro, grafar algumas palavras apropriadamente não é pedir demais. Isso tudo me foi ensinado lá nos idos do meu primeiro grau - e vejam que eu estudei num horrendo colegiozinho católico e carola, de bairro, desconhecido, e, portanto, bem distante de ser um representante do ensino de ponta. Ah, eu nem deveria tocar no assunto, mas aberrações do tipo "kirido", "migow", "naum" são execráveis. Vocês não têm mais dois anos de idade. Ao menos, não em teoria e, certamente, não segundo os seus registros de nascimento. Se você faz uso de expressões como essa, certamente tem um desejo irresistível de não sair da infância. Informo, então, que sua doença tem nome: infantilismo. E isso pode demandar algum tratamento psicológico sério. Psiquiátrico, talvez. E, se Deus quiser, com ministração de remédios fortes que tirem você de circulação... Nessas horas, vejo que minha síndrome de Peter Pan, ao menos, não atingiu contornos tão preocupantes. E se eles realmente querem tirar vários blogs do ar, que sejam aqueles que atentem contra a integridade da língua. Ao menos, seria lixo a menos ocupando lugar no espaço.
Essa é pra quebrar a sisudez que reina sempre neste blog. Aí embaixo vão os nomes de duas musiquinhas, bem pop trance, que não saem do meu Winamp e que têm-me ajudado a manter vivas as minhas ilusõesinhas... É, não vivo só de livros clássicos e cigarros! Minhas elucubrações têm fontes um pouco mais, digamos, prozaicas... Ai, ai... Será que algum dia eu vou achar alguém pra quem dedicar minhas besteirinhas? Alguém de carne e osso, sem máscaras idelizadoras colocadas por mim?
De acordo com a agência de notícias Reuters, grande parte dos chamados "blogueiros" vai levar um duro golpe. Evan Williams, fundador e CEO do Blogger, declarou nesta semana que vai cancelar a conta de milhares de usuários de sua ferramenta. O motivo é que o número de blogs inscritos no Blogger superou em muito as expectativas da empresa. O critério para o desligamento ou a manutenção dos blogs será o número de visitas de cada página. "Teremos que medir o acesso a cada um dos blogs e cancelar os que são mais ignorados. Não tivemos escolha, mas nossa atitude não é tão condenável quanto se pode pensar. O sistema de aferição de público cativo já usado há anos no mercado da TV, com pesquisas de audiência. Os melhores programas ficam no ar. Os piores saem", disse Williams. A estimativa é que apenas 10% dos blogs sobrevivam aos cortes.
Especialistas em marketing de companhias da Internet ouvidas pela Reuters confirmaram que já sabiam da medida do Blogger. "Achamos que a iniciativa do Blogger é muito boa. A maioria dos blogs são visitados apenas por um grupinho de amigos do autor da página. Muitos deles só falam bobagens, narrando seu dia-a-dia e frustrações com a vida", revelou Chris Henderson, diretor de marketing da Terra Lycos. "Com essa limpa, vai ficar mais fácil estudarmos possíveis alvos para abrigar banners", completou o publicitário.
Fontes anônimas asseguram que outras companhias do ramo já estão se preparando para adotar as mesmas medidas do Blogger. Entre as empresas está a brasileira Weblogger, que deve fazer um corte ainda mais brusco que seu concorrente americano. Representantes da Weblogger não foram encontrados para dar seu depoimento.
Eu espero honestamente que isso seja mais um hoax malicioso nos mesmos moldes daqueles que anunciavam a quatro ventos que o ICQ ia ser cobrado. Porque, do contrário, vou ter de dobrar as sessões de análise e, para tanto, vou ter de arranjar uma profissão. Provavelmente, a mais antiga do mundo!
E, de fato, não tinha nada de verdadeiro naquilo ali. Eu, precipitado e distraído, não percebi que a "notícia" vinha do Cocadaboa. Pois é, podem rir. Mas, enfim, seria uma boa idéia a ser aplicada nos casos que eu falei lá em cima, não?
"Ele é burro, escreve mal e não sabe-se expressar, então nem vou investir num relacionamento";
"Dormi mal esta noite, estou com olheiras, ele vai-me achar horrível, não vou deixar que ele me veja assim - vamos deixar o date pra semana seguinte";
"Esta é uma semana muito corrida, vamos ver se na sexta ou no sábado a gente muda isso";
"Ah, não, ele tem de ligar primeiro, eu não quero dar o primeiro passo e dar a impressão de que sou um babaca desesperado por um relacionamento";
"Não vou sair com ele - vai que eu me apaixone e não seja retribuído?"
"Correr o risco de entabular qualquer tentativa de relacionamento duradouro pra quê?! Pra ser corneado e humilhado na primeira oportunidade?"
Sou (ou somos?) bons em inventar desculpas, não? Desculpas para justificar porque prefiro-me instalar numa comodidade carola e insatisfatória a alçar vôos perigosos e que possam-me conceder alguma chance de real autocrescimento...
É aí que já me disseram que eu vivo. Minha analista já me chamou, em seu jargão, de egóico; isto é, eu tenho um super-ego muito aguçado, que sempre faz com que minha consciência destrua qualquer projetinho utópico que ameace-se instalar na minha cachola. Mas, ao mesmo tempo, eu vivo um constante embate entre meus instintos e a minha racionalidade: meu recôndito e desmesurado id está sempre a se degladiar com meu super-ego controlador; ou, nas palavras mais acertadas deste meu amigo, meu anjinho e meu diabinho particulares estão sempre em guerra. E, neste cabo de guerra, acabo ficando exausto e não pendendo pra lado algum. Continuo no mesmo lugar, no mesmo corpo que vai, infelizmente, envelhecendo gradual e inexoravelmente, sendo consumido pelos maus hábitos, pelas minhas preocupações.
Mas, como sempre, já me perco. Ordem na casa. Um, dois, três, retomemos o objeto em análise. O que eu estou tentando dizer dizer é que, embora eu saiba que amor perfeito não existe, que nenhum príncipe vai aparecer do nada e que, muito menos, isso vai vir de graça, eu ainda nutro grandes esperanças de um (atenção ao momento piegas e lugar-comum) grande amor. Daqueles romances florentinos, longos e epistolares, entremeados por dificuldades de todo o gênero; daqueles romances que avassalam, que tiram a fome, que não permitem que você faça outra coisa senão viver em função dessa paixão. É, a minha racionalidade cartesiana, construída ao longo dos anos e substancialmente reforçada por exemplos infelizes ao meu redor, está sempre a reprimir esses pensamentos idealistas.
Só que eu sei que a minha bolha cor-de-rosa vai ser impiedosamente estourada assim que eu me aventurar pelo mundo, no exato momento em que eu me atrever a dar a minha cara a tapa. E, por isso, eu, na minha idiotice humana, cuidadosamente crio para mim mesmo situações que impossibilitem qualquer mínima ameaça de laços afetivos. Escolho, para objeto de amor, pessoas que nitidamente jamais serão capazes de me fornecer algo que vá além de uma tênue ilusão de vínculo. Assim, eu fico livre da assustadora experiência de me envolver a fundo e de ter de lidar com meus fantasminhas mais de perto. Nem sempre fui assim, juro; ou, se já fui, piorei consideravelmente a minha habilidade de me enfiar na lama da incompletude, de me ligar às pessoas mais erradas pra mim. Primeiro, veio um homem casado e acho que não preciso explicar a razão pela qual ele não poderia jamais me dar nada além de uma boa foda, do I?. Bem, ao menos, ele era bom de cama e, assim, ainda que pobremente, ou seja, apenas do ponto de vista sexual, tínhamos um certo connecting. Muito tempo depois, veio um amor semiplatônico, mas que me proporcionava, raras vezes, alguns ósculos tímidos e outras experiências bizarrinhas. E mesmo a ligação mais básica de todas, a sexual, já era mais minguada, porém ainda presente. E agora eu só consigo achar interessantes os caras que eu conheço pela Internerd. Não obstante isso, são sempre gringos, habitantes de outras terras longínquas da nossa brasilis.
Eu tento atribuir tamanha falta de sorte aos caprichos imprevisíveis e insondáveis do destino, mas a minha analista e algumas outras pessoas vêm-me mostrando que essas são situações armadas pelo meu próprio inconsciente, temeroso de crescer. E, pronto, mais uma vez, retomamos àquela historinha de Síndrome de Peter Pan, já discutida aqui antes... Dizem que conhecer o problema já significa bom cumprimento do caminho para sua extinção. Será mesmo?! Eu já estou mais-que ciente disso tudo há séculos e o que eu vejo são apenas sensíveis pioras.
"Achei" um HD novo no meu computador: maliciosamente nomeado "E", me foi muitíssimo providencial. Primeiro, porque memória nunca é demais; segundo, porque ele tem muito mais espaço do que o meu atual "D", que já estava quase colocando a língua de fora pra conseguir acomodar tantas músicas e fotos de que eu não me livraria jamais, devido à minha compulsão irrefreável de reter coisas.
Pois bem, feliz da vida, começo a fazer a transferência de todos os meus recuerdos em formas de imagem e som. E eis que, agora há pouco, percebo que eu não transferi as fotos. Eu as deletei sem antes tê-las copiado para o novo HD. E não tenho mais como recuperá-las. Great! Quase dois anos de memórias fotográficas, assim, evaporadas.
Mas não é só isso. Após receber um avisinho por e-mail, vou verificar este blog aqui e vejo que os meus arquivos também foram pro perdido Reino do Beleléu.
Legal: sou uma pessoa praticamente sem lenço nem documento: meu passado foi comido pelo Blogger e as minhas fotinhos foram abduzidas pela minha própria falta de prudência. Não tenho mais gato, não tenho namorado, não tenho mais liberdade...
Apenas um rápido drop, sem maiores explicações, nem aqui, tampouco in persona. Colocando de lado a minha aversão ao maniqueísmo babaca de dividir as pessoas em categorias nítidas e extremas, posso concluir que existem aquelas que são manifestamente sacanas, aproveitadoras, oportunistas e todos os outros adjetivos equivalentes e piores. E que essas pessoas só podem exercer seus defeitos de caráter plenamente graças à existência de outro tipo de seres, estes ingênuos, crédulos, trouxas que estão sempre a seu serviço, prontos para servir de tapetinhos para essas odaliscas (é, as drogas matam). Pois bem, é neste exato papelão incômodo e risível que eu me sinto encaixar.
"Se fodeu baiana, I told you that.".
"É, eu sei. Prometo ler a cartilha com mais atenção e empenho das próximas vezes, tá bom, vida?"
Sou, nos dizeres de Anne Frank, um feixe de contradições. Bela novidade. Pois bem, estava eu pronto para relatar os meus últimos dramas aqui quando me deu uma vontade irresistível de retornar à segurança e ao conforto da minha concha pessoal...
Não vou dizer que tudo está, em homenagem ao título destes maus escritos, um mar de rosas. Aliás, pra quem ainda não sacou, o título do blog é completamente irônico, pois, mesmo que, formalmente, as coisas estejam correndo bem pra mim (o que, sem exageros, há muito tempo, não acontece), eu vou sempre me apegar a algum detalhe indecentemente ínfimo para destruir a aparente perfeição que a minha vida apresenta. Mas, sim, já estou razoavelmente menos pior e, em breve, muito em breve, eu já estarei naquele estado intermediário entre a merda completa e a normalidade e poderei, adequadamente, racionalizar tudo o que se passou.
Por ora, cumpre apenas agradecer. Primeiro, pelos alguns e-mails, mensagens de ICQ e afins recebidos. Mesmo muitos dos autores sendo ilustres desconhecidos, na medida em que nunca tivemos qualquer contato pessoal, valeu demais pela força. Não preciso citar nomes nem enumerar links; os destinatários vão saber-se identificar. Aos outros, estes parceiros completos de vida real, que fizeram, com louvor, jus à máxima de que verdadeiros amigos se conhecem na hora da dor e não das alegrias, outros tantos infinitos agradecimentos.
Ele fixaria em Deus aquele olhar de esmeralda diluída, uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedeceria porque gato não obedece. Às vezes, quando a ordem coincide com a sua vontade, ele atende mas sem a instintiva humildade do cachorro, o gato não é humilde, traz viva a memória da liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo.
Mas espera, já estou me precipitando, eu pensava naquela fábula de infância: é que Deus Nosso Senhor pediu água ao cachorro que lavou lindamente o copo e com sorrisos e mesuras foi levá-lo ao Senhor. Pedido igual foi feito ao gato e o que fez o gato? O fingido escolheu um copo todo rachado, fez pipi dentro e dando gargalhadas entregou o copo nojento na mão divina.
Acreditei na fábula, na infância a gente só acredita. Mais tarde, conhecendo melhor o gato, descobri que ele jamais teria esse comportamento, questão de direito. De caráter. Ele ouviria a ordem e continuaria deitado na almofada, olhando. Quando se cansasse de olhar, recolheria as patas como o chinês antigo recolhia as mãos nas mangas do quimono. E mergulharia no sono sem sonhos, gato sonha menos do que o cachorro que até dormindo se parece com o homem. Outro ponto desagradável: dando gargalhadas? Mas gato não dá garagalhadas, só cachorro. Meus cachorros riam demais abanando o rabo, que é o jeito natural que eles têm de manifestar alegria, chegavam mesmo a rolar de rir, a boca arreganhada até o último dente. O gato apenas sorri no ligeiro movimento de baixar as orelhas e apertar um pouco os olhos, como se os ferisse a luz. Esse o sorriso do gato - ô bicho sutil! Indecifrável. Inatingível.
Nem pior nem melhor do que o cachorro, mas diferente. Fingido? Não, ele nem se dá ao trabalho de fingir. Preguiçoso, isso sim. Caviloso. Essa palavra saiu da moda mas deveria ser reconduzida, não existe melhor definição para a alma do felino. E de certas pessoas que falam pouco e olham. Olham. Cavilosidade sugere cuidado, cave - aquele recôncavo onde o vinho envelhece. Na cave o gato se esconde, ele sabe do perigo. Mas cachorro se expõe, inocente. (... )
Lygia Fagundes Telles
Saio do meu silêncio habitual para dar adeus ao meu caviloso e companheiro Chiquinho, uma coisa linda sobre quatro patas que, me arrancando muitas lágrimas, faleceu inesperadamente hoje pela manhã. E que me deu o privilégio de aprender mais sobre os gatos e que, nos seus curtos dois anos de convívio comigo, me ensinou, também, a desmistificar as maldades injustamente atribuídas aos felinos.
Crianças, é o seguinte: eu não estou afim, pura e simplesmente. Ainda não. Sou extremado em quase tudo o que eu faço na minha vida: ou o silêncio ou a verborragia; ou a alegria ou a tristeza; ou a sociabilidade ou a misantropia. Sempre em suas formas mais radicais. Reconheço que o caminho ideal é a moderação budista, o "meio do caminho" e blablabla. Ocorre que eu realmente não sinto ânimo para relatar o que aconteceu, o que está acontecendo e o que pode futuramente acontecer.
Estou confuso, mais do que eu posso ser por direito. E devo admitir que, nessas horas de dúvidas completas, as etiquetas, os rótulos, as definições pré-fabricadas conferem uma segurança alentadora.
A título de manter a nossa própria sanidade, devemos dar vazão às tensões que se acomodam em nossas mentes e não permitir que esses monstros tomem formas gigantescas contras as quais não podemos lidar.
Sei que eu deveria extravasar em palavras essa mistura explosiva, fétida, incômoda, ruim que borbulha na minha cabeça, que está-me atormentando. Mas, for the time being, não dá. Não dá, não dá, não dá...
Às vezes, palavras alheias têm o poder de ser mais loquazes do que qualquer tentativa nossa de expressão. Pode ser um poema, uma frase, um parágrafo, uma letra de música. É o caso.
Honestly Ok
I just want to feel safe in my own skin, I just want to be happy again I just want to feel deep in my own world But I'm so lonely I don't even want to be with myself anymore On a different day, if I was safe in my own skin, then I wouldn't feel lost and so frightened But this is today and I'm lost in my own skin And I'm so lonely I don't even want to be with myself anymore I just want to feel safe in my own skin, I just want to be happy again.
Mais tarde, later, plus tard eu venho aqui. Obrigado aos amigos de verdade, que têm-me suprido com forças muito mais do que necessárias. A todos os que demonstraram que o gostar não inclui a mera conveniência, que sejam agraciados em dobro. Àqueles que eu pude perceber que só oferecem uma tênue ilusão de companheirismo, meus votos de que uma luz recaia sobre as suas cabeças, provoque uma transformação em seus cérebros rasos e calculistas e lhes proporcione alguma felicidade.
Love be still Love be sweet Don't you dare Change a thing I want to photograph you with my mind To feel how I feel now all the time
CHORUS Say that you'll stay Forever this way Forever and forever That we'll never have to change Don't move Don't breathe Don't change Don't leave And promise me Say you'll stay We'll stay This way
I get afraid Don't think ahead Let's just stay This way in bed Feels so good inside your arms Home is everywhere that you are
CHORUS
Don't move Don't breathe Don't change Don't leave Promise me We'll always be This kind, this sweet This good to me Promise me You'll always be
E as coisas estão muito sérias. Àqueles poucos que lêem o meu blog e que também me conhecem na vida real, obrigado pelo apoio. Vou ser breve, e dar um recado rápido. E, por ora, só posso cair num lugar comum e fazer um grande apelo a todos: digam não às drogas! Afirmo, agora e peremptoriamente: não existe recreational use. Cedo ou tarde, uma situação de risco se concretiza, seja na vida de alguém muito próximo e querido, seja na sua própria.
Quem sabe, mais tarde, bem mais tarde, eu consiga genuinamente perceber algum ponto positivo nessa minha última experiência. Por enquanto, as únicas coisas que reverberam na minha cabeça são os medos que eu, contrariando a providência divina, desenterrei de algum alçapão do meu inconsciente; são as dores que eu disseminei em volta de todos aqueles de quem eu gosto; e, pior, os estragos colossais que eu provoquei a mim mesmo.
MÃE DRAG QUE ESTAIS NO PALCO, SANTIFICADA SEJA SEU BRILHO, VENHA NÓS AO VOSSO FERVO, SEJA FEITA A SUA PERFORMANCE, ASSIM NO PALCO COMO NA PISTA, NOSSAS PLUMAS MÃE DE TODAS, ROGAI POR NÓS FERVIDAS, AGORA E NA HORA DE NOSSO RAIO LASER...
Nada é tão ruim que não possa ser piorado. Após a minha fracassada noite de ontem, em que eu paguei 35 reais por um Valium, em que eu tive uma bad trip tenebrosa, em que eu gastei um dinheiro que não queria e não deveria, mais uma intempérie se abate sobre mim. Fui ao aniversário de uma prima da minha mãe, aquela típica visita familiar que, embora sacal, faz muito sentido para um saudosista irremediável como eu. Me afundei em bolo mousse de chocolate e em reminiscências impagáveis do passado.
Tudo perfeito, ainda mais para, se não apagar, ao menos amenizar os efeitos deletérios da minha noite anterior. Eis que, quando já me preparo para chegar em casa, dou de cara com um monte de cacos de vidro na calçada: o vidro traseiro do meu carro foi simplesmente estilhaçado. O fundo do meu rádio, que ainda sobrevivia após o meu último assalto, foi levado. E, não sei isso é engraçado ou revoltante, ainda surrupiaram o Absinto, meu sapinho inflável, e companheiro de viagens. (1 minuto de silêncio pelo Absinto - e eu estou falando sério).
Bom, vou tentar tomar isso como um sinal dos céus para que eu tome um rumo na minha vida. Ou, em termos menos dramáticos, uma providência do destino para que eu me forçasse a encostar o meu carro e mandar arrumar uma série de defeitos que ele já vinha-me apresentando. Otimismos à parte, alguém pode-me explicar porque Deus, em toda a sua sabedoria infinita, não nos dotou, desde a fábrica, de um botãozinho para desaparecer?