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Segunda-feira, Setembro 30, 2002
 
Hai-Kai

EXTENUADO! Fotografia de CORBIS - http://www.corbis.com

Não tô tendo saco pra escrever muito. Agora, é porque eu estou cansado. No sentido físico mesmo. Alguém me dá uma mão nova? Direita, porque eu sou destro (morro de inveja de quem é ambidestro!) A esferográfica acabou comigo. Eu também quero palitinhos. Pra ver se eu consigo manter meus olhos abertos.




 
Dear Kitty,

Segunda-feira, já. O final de semana teve acontecimentos. Daqueles que trazem coisas ruins e, ao mesmo tempo, boas. Daqueles que exigem horas de conversas, de pensamentos solitários e da confraternização deles. Eu queria muito poder falar sobre isso agora, porque escrever é um dos melhores jeitos que eu conheço de metodizar a minha loucura (quem disse isso mesmo?)

E eu queria, também, poder responder ao bom feedback que isto aqui tem recebido. Mas eu estou, agora neste exato instante, imprimindo a resposta pra minha prova. E criando coragem pra ir-me aprontar. É, eu tenho de voltar a freqüentar as aulas. Ao menos, paliativamente e por enquanto. E eu estou com um chifre nascendo: uma espinha horrorosa na testa. Aproveitando o latinório porco que eu estava usando há pouco, só repito...: Alea jacta est.




Domingo, Setembro 29, 2002
 
Já venho, tá?
Amanhã.
Ou depois.
Ou, quem sabe, ainda hoje. Mais tarde.



Sexta-feira, Setembro 27, 2002
 
Dear Kitty,

Não adianta fingir. Não adianta ficar falando de literatura e escarrando as minhas opiniões que são as minhas únicas verdades absolutas e irrecorríveis. Qualquer psicoterapeuta de merda (bom, nem precisa tanto, qualquer um que entenda o mínimo de natureza humana), sabe que essas minhas explanações conferencionistas são nada mais do que um desfocar de objetos. Falo do tempo, falo dos livros, falo do que eu acho sobre os mais diversos assuntos, falo do meu cotidiano em fatos e em algumas fotos. Falo da superfície, mas não da essência. O eu mesmo continua encerrado dentro da casca dura, inatingível, ínfimo e obscuro. Uma noz amarga e dura de mastigar.

Ih, já estou vendo que estou abrindo um confessionário de reclamações chatas e inconsistentes. Mas é que não tá tudo bem. Eu tenho faltado demais às aulas, faz mais de uma semana que eu não vou lá. Esse ciclo vicioso de ausências e de ignoradas solenes tomou especial início há exatamente uma semana, quando eu fiz gazeta com a desculpa de ir cortar o cabelo. Engatilhei um cinema logo em seguida. E, depois, nesta semana, nem sessões escapistas fora do meu quarto eu tenho feito. Fico dormindo, fico neste computador, fico fumando. Como estou agora, aqui, estático, tentando-me entender. E perdendo a primeira aula, apesar de ter acordado cedo, de estar agora com a roupa semitrocada e com a toilette semifeita. Semi. O quase.

Já faz uns oito dias que eu não apareço no cursinho. Fui perdendo o ânimo, e talvez ganhando alguma coragem de assumir pra mim mesmo que aquilo não é pra mim. Mas se eu largar aquelas aulas preparatórias pra concurso público de uma vez, vou-me sentir o lixo dos lixos. Porque está todo mundo, formalmente, fazendo qualquer atividade profissional além da acadêmica: seus estágios, seus preparos pra virar advogado, etc, etc, etc...

Mas, a toda hora, eu fico-me torturando com os pensamentos pequeno-burgueses do que eu vou fazer quando este curso terminar: no exame em que eu tenho de passar e em como eu vou brincar de viver depois disso. Odeio incógnitas. Quer dizer, nem tanto, a dúvida é um dos alimentos da alma. Mas, agora, estou odiando. Posso? E também odeio-me sentir muito fraco, sabe? A fraqueza tem o seu charme, pra quem a vê de fora. Aquele desespero de vislumbrar e de aventar mil possibilidades como um caminho de descobertas e blablabla...

Mas, porra, eu tenho feito isso há tempos; e, garanto, só tenho ganhado, literalmente, mais rugas com isso. E eu não estou vendo qualquer saída sensata agora. Meus amigos, aqueles que também compartilham a mesma vida acadêmico-jurídica que a minha, estão, também, todos compartilhando das mesmas incertezas. Estão muito ocupados em tentar resolver a si próprios. E seus conselhos me soam mais como uma tentativa desesperada de me arrastar junto com eles pras suas escolhas inseguras e feitas às escuras, com um tatear de paredes molengas e movediças. Ou mesmo quando as suas decisões estão líquidas e certas, sinto que elas servem muito mais a eles do que a mim.

E eu não sei esperar. E eu odeio, também (verbo do dia: odiar de não tolerar e de ser impaciente e imaturo) esperar. Não agüento mais os conselhos de que este momento da vida é assim mesmo. Que depois, tudo se ajeita! Rá-rá-rá. Pois bem. Acabei de ter uma tese mirabolante, mas desoladora: acho que o que acontece é o mesmo que ocorre com um copinho d'água, cheio de impurezas. Os coliformes fecais ficam lá, minúsculos e aos montes, boiando e turvando a vista. A gente pára de se agitar e os grânulos tormentosos então vão lá, se acomodar no fundo de nós mesmos (a concordância tá toda errada, mas dane-se).

As malditas partículas desaparecem só aparentemente, porque elas continuam lá no fundo. E, pior, vão aumentando. Apesar de terem sido deliberadamente escondidas, vão formando um depósito, vão-se acumulando de uma tal forma até chegar um momento em que só exista uma enorme e única merda dentro de você. Não adianta ficar quietinho e repousante, porque há um processo inevitável, em que vão caindo mais coisas pra dentro: esta chuva pode amainar, mas é incessante. E eu não quero, ou melhor, tenho medo de esperar os meus cinqüenta anos pra ver que eu só fui ajeitando e que o meu carpete já está cheio de cinzas e de caquinhos. Tão espesso e tão irregular que eu nem posso mais andar sobre ele. Nem respirar. Não posso esperar tanto, porque aí eu vou estar de todo envelhecido e de todo sem forças. E porque eu não vou conseguir lidar com a podridão do meu cadáver ocultado. Mais pesado e mais inchado pela decomposição.

Eu achava que, quando as pessoas diziam estar-se sentindo sozinhas, isso era mera retórica dramática. Mas não é, não. Os clichês estão aí pra validar os sentimentos piegas de sempre. E eu estou-me sentindo sozinho. Eu comigo mesmo. Com esse amontoadão de coisas não trabalhadas e em estado bruto, pedindo lapidação. Exigindo o carinho e o trato negligenciados. Eu queria-me virar inteiro, despejar tudo. Deixar novas águas virem. Que elas sejam igualmente sujas, que a sua sujeira seja igualzinha em essência à que me maculava antes. Eu só preciso de um esvaziamento. De um corpo e de uma vida, novinhos.

E eu sou um covarde. Por querer isso. E por sequer conseguir fazer isso.




 
Momento Leitura!


+

Mistérios, Lygia Fagundes Telles

+



Todos mais-que recomendados e que me fizeram a alegria nesta semana...



 
Momento Google!

O depositário oficial e fiel, especialmente dedicado às procuras absurdas que acometem todos os possuidores de blogs, de páginas e de todos os outros blerghs na rede: Momento Google.




Quinta-feira, Setembro 26, 2002
 
Tropicaliente...

Quando não temos muito o que falar, o tempo torna-se o assunto. Eu até teria o que falar, porque eu sou uma pessoa extremamente insatisfeita e reclamona; mas, não hoje. Então, é disso que eu vou brincar agora: let us talk about the weather. Bom, estou concluindo que eu sou mais tropical do que eu pensava. Eu prefiro inverno a calor, porque eu acho que, no frio, pessoas ficam mais bonitas, que ninguém fica suando e nem outras bizarrices do gênero. Além do mais, eu detesto sol, maresia, piscina e outros benefícios diretamente trazidos pelo verão. Eu até estou trabalhando nessa questão, tentando fazer as pazes com o Sol, que simboliza a Vida. Mas isso fica pra outra hora.

O que interessa dizer é que, basta a temperatura cair dos quinze graus (positivos, claro), que a duração do meu sono, sempre absurda de alta, triplica. Isso piora se essa queda de temperatura é brusca e/ou inesperada. E, junto com isso, vem aquela a preguiça que se materializa na síndrome dos "mais cinco minutos". Essa doença (que, aliás, eu acabei de inventar) é aquele maldito pensamento, que nos acomete na hora de acordar, que às vezes se externa em murmúrios e que consiste em dizer "ah, mais alguns minutinhos!". E lá sei vão socos no despertador, no botãozinho de soneca ou qualquer outra coisa equivalente. E lá se vai mais uma hora de atraso. E lá vem a sensação de não produtividade.

Nessas horas, acho que não posso morar em Londres nem em qualquer outra localidade que ultrapasse os trópicos (seja de Câncer, seja de Capricórnio). Se bem que, normalmente, existe calefação nesses lugares, não?




Quarta-feira, Setembro 25, 2002
 
Minhas opiniões. Que não aceitam, especialmente aqui, qualquer tipo de revide.

Existe algum novo escritor genuinamente bom, e abaixo da linha da senilidade, nesta presente e besta era? Ontem, eu comecei e terminei O Efeito Urano, escrito pela normal-global Fernanda Young. O que eu vou dizer daqui pra frente talvez vá desgostar muitos modernos de plantão e vá, também, destruir muitos de seus castelinhos de cartas. Então, se você adora a moçoila tatuada e, em especial, esta obra dela, nem prossiga a leitura. Porque eu não retiro uma única vírgula do que eu escrevo daqui pra frente. E porque eu, tampouco, vou-me dar ao trabalho de enfileirar as minhas preciosas convicções, construídas com habilidade, na intenção de convencer quem quer que seja da sua veracidade.

Eu gosto muito de ler, como vocês já devem ter percebido. E procuro sempre afastar as moscas indesejáveis da intransigência sem fundamento da minha cachola. Em plano literário, isso se reflete muito em minha postura de execrar aquela superiordade burra da máxima do "não li e não gostei.". Minha prateleira tem alguns grandes clássicos e tem, também, muitas obras de natureza francamente despretensiosa e de entretenimento. A título de exemplo: já li uns quatro livros do Paulo Coelho e detestei. E me emocionei muitíssimo com As Brumas de Avalon, embora eu saiba que Marion Zimmer Bradley esteja longe de ganhar um Pullitzer ou qualquer outro prêmio semelhante.

Quanto ao livrinho de Fernanda Young, convenhamos, não há qualquer aspecto proveitoso a ser retirado: nem de trama, nem de idéias, nem de estilo. A história é uma reedição, muito mal requentada, da série de peripécias de Isadora Wing, anti-heroína com vontades feministas-libertadoras e alter-ego de Erica Jong. Mulher de psicanalista, classe média alta, resolve ter caso com outra mulher. Só que os livros da ex-Mistress Jong (née White) foram escritos há umas boas três décadas, com o desfavor de ter como pano de fundo o risível movimento feminista ianque. E, mesmo assim, não sendo obras de peso e sendo datados, são infinitamente superiores ao da Senhora Jovem: são melhor escritos e ainda representaram alguma inovação a seu tempo.

E, se alguém mais enfronhado no métier editorial estiver-me lendo, eu gostaria de uma explicação: ainda existem revisores de texto? Eles são tão mal pagos assim? Porque eu encontrei erros crassos, tanto de natureza ortográfica quanto gramatical, aos montes no livro. O que me levou a crer que ou os revisores sejam desatentos e/ou despreparados ou que eles constituem um gasto tão desnecessário, que nem são contratados. E, por favor, não me venham com aquela desculpinha de fluidez de discurso oral na linguagem escrita, que esses erros são propositais e reproduzem apenas o jeito que falamos e que pensamos.

Por exemplo, até onde eu saiba, a ênclise não é largamente utilizada no português falado no Brasil. Niguém aqui fica falando "diga-me, vou-me, enxerga-te" e por aí afora. Então por que a moça insiste em usar o fenômeno do pronome-após-o-verbo mesmo nos casos em que a norma culta, em rara associação com a forma popular, diz o contrário? Pura pretensão, claro. E, de uma vez por todas, dona Fernanda Young, é elucubração. Procure nos dicionários que, no seu certamente bem aparelhado apartamento, enfeitam as estantes.

A fórmula é essa: escreva sobre sexo. E não de forma velada, porque a sutileza é arte dos pedantes e não dos artistas. Use algumas palavras agressivas e de baixo-calão, intercaladas com algumas pitadas de intelectualidade (para não parecer tão careta, faça, também, referências a ícones da modernidade, como o Portishead). Misture de tudo um pouco, mas sempre de maneira superficial. Cacareje bastante, pra que os desavisados e os desinformados não percebam seus deslizes. E, para não ser tão injusto, devo admitir a pertinência do temário com a escritora. Um dedo "pai-de-todos", that's all she deserves.




Terça-feira, Setembro 24, 2002
 
VERY BAD MOOD!



Segunda-feira, Setembro 23, 2002
 
Dear Kitty,

Arremedo de Persona, do Cesar Giobbi. É este ar de colunismo social e de futilidade que vai dar o tom de hoje. Bom, o final de semana foi mais conturbado do que os que eu tenho tido ultimamente. E, incrivelmente, não foi por conta das minhas confusões mentais e etc, mas porque eu saí bastante, fiquei pouco em casa e reacendi um pouco a minha vida social. Sinto falta da minha vida libertina e eu tento-me contentar com essas pitadinhas de liberdade.

No sábado, fui encontrar Thiago criança-hype (você sempre vai ser mencionado aqui desta forma!) no Mestiço e eu adorei ter revivido a viagem dele e com ele. Desta vez, não só pelo telefone e pelos relatos com que eu tenho sido brindado (aliás, muito bem escritos; please, prometa que você não vai mais desperdiçar esse talento só na redação de agravos, de embargos e desses instrumentos empedradores). Vi o Thiaguinho ao vivo, com um semblante ótimo e com um dourado mediterrâneo. E vi as fotos, muito bem tiradas, que me fizeram reforçar a promessa de que eu ainda tenho de ir pra Espanha algum dia. E também vi o marido belga ad hoc, lindinho e fofíssimo, que ele arranjou por lá. Viagem escândalo, nas palavras dele. E mais-que merecida, sem dúvidas. Só espero que eu não tenha dado muito vexame, porque eu queimei o garçom durante a nossa conversa (mistura das doses de Jameson e do azar da criatura ter colocado a mão bem no caminho do cinzeiro). E eu ganhei, ainda, um CD maravilhoso. Vamos colar um adesivo virtual aqui na minha agendinha também virtual...:


DJ Mista Helsloot - In Trance We Trust 007

Misja Helsloot é um DJ holandês, especializadíssimo em trance e do qual, infelizmente, eu ainda não tinha ouvido falar. Não bastasse a seqüência maravilhosa do CD, o cara é muito lindo mesmo! As fotos do site oficial dão uma pequena amostra disso, mas a que eu tenho dentro do meu encarte é, simplesmente, astonishing... E esta vai ser a minha trilha sonora por alguns tempos...

Depois, me deu um impulso e fui ao Terramadre visitar a Kerstin, que trabalha lá há tempos. Já a conheço há outros tempos (desde o comecinho de 1999, pra ser exato) e a gente tem-se cruzado muito esporadicamente. Nos abraçamos bastante, ela disse que eu estou parecendo mais sério e mais centrado. Bom, além do fato de eu ter parado de fazer pecadilhos, essa impressão pode ter sido passada por conta do visual Gastby (palavras de Thiago) que eu tinha adotado no dia. Mais presentinhos: ganhei uma dose de vodka, já aumentando meu estado de torpor. E ganhei ainda mais um telefonema. E shame on me, porque, além da ligação estar um lixo, a minha voz devia estar mais enrolada do que uma naja se preparando pro bote.

Cheguei em casa ainda meio "etéreo", pude avaliar as minhas primeiras musiquinhas e pude, também, dar mais sinais de sinceridade etílica no computador. Pobres das almas vivas que estavam conectadas naquele momento e tiveram de esperar pacientemente pra que eu escrevesse uma mensagem, porque parecia que aquelas letrinhas iam saindo todas erradas, sorrido da minha falta de coordenação e obrigando o backspace a trabalhar mais do que escravo em época de colheita.

No domingo, fui à despedida do Yuri, tomei mais dois copinhos de vodka, conversei bastante com muitas pessoas interessantes, que ficaram ainda mais interessantes naquela hora. Tive uns pensamentozinhos filosóficos acerca da minha condição humana and so on, mas estou com preguiça de desenvolvê-los agora. Então com certeza eles vão-se perder aqui na minha memória. Voltei pra casa, só um pouco entontecido, fiquei pouco na rede e já com sono. Não quero mais brincar de Heleninha Roitmann por um tempo e espero poder manter essa promessa...

E hoje? Bom, hoje eu fui fazer uma provinha na faculdade, parece que foi tudo bem. E passei o endereço disto aqui pra um amigo meu. Espero que ele não ria demais das besteiras que eu escrevo aqui. Ai, diário querido, eu sei que eu nos últimos dias tenho sido extremamente sem-sal e que eu devo até estar espantando uma série de leitores em potencial com toda esta lenga-lenga de primeira-pessoa-no-pretérito.

Mas, por ora, a única coisa que me apetece, ou melhor, sobre o que eu tenho conseguido escrever é essa mesmo: eu fiz, eu fui, eu comi, eu vi... Verbos simples, que só pedem um objeto mais simples ainda. Sem tempos pra elucubrações.




Domingo, Setembro 22, 2002
 
Closed 'til tomorrow. Imagem cortesia de Corbis - www.corbis.com

Tá frio demais. Eu estou com preguiça. Estou totalmente cambaleante. E vivendo um pouco fora daqui. Amanhã eu volto. Mas, por ora, eu preciso deixar alguns recados dirigidos àqueles que me lêem...:

*** Thiago, criança-hype, você é tudo mesmo. Adorei ter vivido a viagem com você e estou aguardando os passos seguintes. E o presente é divino. Good vibes. Sempre!

*** Carol, menina lenda, obrigado por ter-me ligado ontem, pela lembrança;

*** Smile Amarelo, foi muito bom ter "revisto" você, ainda mais num estado de "franqueza" maior, de ambas as partes. Pelo amor dos céus, não suma mais;

*** Criança lusitana com nome de (arc?)anjo, eu adorei as musiquinhas bonitinhas recomendadas...




Sábado, Setembro 21, 2002
 
Quem imita quem?

Já ouvi dizer que a arte imita a vida. Ou que a vida imita a arte. Ou que, na verdade, o que ocorre é uma mistura temperada das duas correntes. Agora, temos uma terceira variável para acalorar a discussão. E que, não obstante a sua presença, pode ou não (dependendo, de novo, do entendimento adotado), ser embutida no conceito de arte: a Internet. Exemplo prático: posso resumir todo o meu dia de ontem em links. Vejamos no meu discurso querido diário de praxe...:

Acordei tarde, não fui pra , comme d'habitude. Decidi ir cortar o meu cabelo no mesmo lugar de sempre. Depois, resolvi ir ao Gay Caneca. Depois de comprar cigarros, fui ver o tão falado filme que estreiou ontem. A melhor crítica foi a da Veja. Se eu tivesse lido a dita cuja antes, eu não teria tido a surpresa que eu tive. É que eu sou bobinho, e pensava que ia ver uma historinha de extraterrestres, abduções e paranormalidades. Nada disso. O enredo prima pelos velhos tormentos da rendição do ser humano pela sua fé, das relações familiares and so on. E ponto.

Passeando pelos corredores, entrei numa livraria e comprei este livro e este outro aqui. Os comentários, teço depois, se assim desejar. Comi num lugar sem link, mas isso só porque, provável e certamente, não me lembro do nome dele. E depois tomei um top sundae da rede mundial. Não dos computadores. Mas da comida calórica e engordurada mesmo.

Tudo tem a chancela da Internet.





Sexta-feira, Setembro 20, 2002
 
FECHADO.



Quinta-feira, Setembro 19, 2002
 
Choque de modernidades

Ri muito com isto aqui. Eu precisava um pouco disso.




Quarta-feira, Setembro 18, 2002
 
Grosseria, bata as suas asas de morcego. E VOE DAQUI!

Eu nem ia postar hoje, porque estou acordado há muito tempo para o meu nobre gosto (quase quatorze horas, já!). Ocorre que a minha campanha recém-lançada, como tudo que reluz e é da preciosidade do ouro, já encontra seus opositores. O que dizer de um professor ridículo que vivia a mandar seus assistentes pra ministrar aulas, ex-vice de um prefeito sabidamente salafrário (se ele não for honesto, não votem mais no outro, lembram-se disso?) e que, on the top of everything, vasculha o banco da dados da faculdade para enviar aos alunos um spam de sua campanha eleitoral?

Já dizia Eduardo Logullo, no prefácio de Na Sala Com Danuza: orangotango de black-tie. Mastodonte miserável. E nem adianta vir com aquela finesse aparente de lencinhos combinando com gravata e de perfumes franceses por cima, que isso fede à latrina rural e sem esgoto do mesmíssimo jeito.




 
Dear Kitty,

Está superclaro, o dia está brilhando mesmo. Acho que a primavera-que-é-verão-porque-neste-país-não-existe-meia-estação está aí. Vou lá.




Terça-feira, Setembro 17, 2002
 
Mensagens subliminares - destino, só quero mais algumas dicas, ok?,

*** Yuri, que trabalhou comigo na época em que eu dava aulas de inglês - é verdade, eu já fiz isso, por quase um ano e torrei todo o dinheiro que eu ganhei lá em todo o tipo de futilidade - me ligou hoje. Vai para Londrina. Em definitivo (quer dizer, nem tanto). Casado (isso, é menos ainda em definitivo). Seria esta mais uma mensagem subliminar?

*** Thiaguinho criança-hype voltou ontem de Ibiza, cheio de novidades (adorei você ter-me ligado, caso ainda leia isto aqui!). E o cartão, maravilhoso e com uma mensagem fofissima, chegou hoje. Estou sem scanner neste micro, então os leitores vão dançar e não vão poder aproveitar comigo aquelas imagens do Céu. E antes que venham-me me dizer que o Nordeste brasileiro é até mais bonito, eu só respondo que aqui ainda tem uma pobreza praticamente inerradicável. E não tem boates para quarenta mil pessoas. Nem trance tocado pelo Tiësto e afins. Conclusão que interessa, ou melhor, perturbação que fica: seria esta mais uma mensagem subliminar - part II?




 
Dear Kitty,

Hoje a aula na faculdade foi no Salão Nobre da faculdade. O estilo é portentoso: muitos nomes importantes da História gravados nas paredes ou esculpidos em alguns outros bustos. O pé-direito é altíssimo, as cortinas são de veludo vermelho, há entalhes primorosos em estilo barroco. É um lugar que, se ainda inspira certo respeito de madre superiora do colégio ginasial até mesmo em mim, que já estou em vias de ser expulso daquela escolinha, deve causar verdadeiro espanto nos que vivem integralmente em caixas de sapato modernas, assépticas e claras.

Essa rigidez permanece intacta, apesar dos alguns tacos que se soltam do chão, apesar das cadeiras com estofado puído e apesar da cor já meio desbotada do rubro, quase rosa. Enfim, apesar de todo o descaso que se tem com o patrimônio público. Do qual, aliás, eu mesmo já fui destruidor várias vezes; em particular uma memorável, ao estar rabiscando ainda mais as tábuas antiqüíssimas e escangalhadas que usamos como apoio para anotar as aulas, incidente por conta do qual que tive a minha atenção chamada no microfone por (mais) uma professora de idade indefinida.

A construção inteira do prédio tem a austeridade de um monastério, os grandes olhos observadores e oniscientes de um Poderoso sempre à espreita. Podem vir os passantes com as suas roupas modernas, com os seus cabelos espetados e com os seus pedaços metálicos estacados em várias partes do corpo (do que eu sou uma mistura quase amena); podem vir os computadores de conexão rápida, os móveis modernos, os novos livros em que o ph só é utilizado para palavras estrangeiras. Pode vir o que for, aquele lugar não muda e não vai mudar, ele resiste mais do que a última Flor do Láscio.

Como eu cheguei mais cedo e os ávidos por mais um certificado de seminário para colocar no currículo ainda não tinham chegado, pude ver o vasto anfiteatro praticamente in natura: as luzes fracas (fiquei imaginando o cheiro que as lâmpadas verdes a gás soltavam) e o silêncio formal de uma grande peça que ainda vai-se abrir. No corredor que sai de lá, uma fileira de quadros de falecidos que pareciam-me bisbilhotar, a falange de anjos do outro Deus, para que nada lhe escape.

Não pude deixar de pensar de novo no paralelo entre um convento e aquela faculdade. Quantas pessoas não foram mandadas à força para aquele lugar? Pela imposição dos seus pais, pelos seus próprios medos, por todas aquelas coisas que empurram e que não são feitas do que se tem de melhor, mas daquilo de que não se pode fugir?

Claro, os corpos não ficaram aprisionados naquelas paredes de pedras escuras e grossas. Não se definha de tristeza naquele espaço como as virgens definhavam cerradas nas celas dos conventos. A graduação vem um dia. E todos os que quiserem, e que também puderem e conseguirem, vão dar as costas àquele minicastelo, sem precisar-lhe devolver qualquer olhar.

Mas aquelas paredes são mágicas, o grande Deus que lá vive e governa é sutil, ardiloso e sobretudo, cheio de Poder. E aquele indefinido e invisível que se chama alma fica irremediavelmente impregnado por aquele Tanatos soturno. Insidiosamente, é como se assassina a vitima sem que ela perceba. Me lembro de quando ouvi o velhinho de sapatos de bico fino e envernizados dizendo que "tudo o que importa tem a chancela do direito.". Não sei se a afirmação procede, mas tudo o que é tocado por aquele direito, leva a sua marca. Para alguns poucos sensíveis, como eu já fui mais um dia, essa tatuagem de gado dói no início e faz chorar. Literalmente, como eu fiz, que chorei feito bezerro levando a brasa das iniciais do dono que me comprou. Mas o tempo nos acostuma a tudo, até mesmo à dor.

Eu deixei boa parte de mim lá dentro; afinal, cinco anos, para nós, não é pouco tempo. Deixei uma parcela luminosa e cheia de frescor. E tenho a desagradável sensação de que, o que foi-me dado em retribuição nesta troca simbiótica não era bem o que eu queria. Nem o que eu merecia.




Segunda-feira, Setembro 16, 2002
 
Giovanna...

O assunto está meio datado - afinal, uma semana nesta era pós-Aquário tem o peso de uma década. Também já foi amplamente discutido, com os argumentos nem sempre muito originais, tampouco lógicos. É, estou falando sobre as fotos tiradas e publicadas da tão falada, tão tradicional e tão disputada festa à fantasia da também, por motivos aparentemente diferentes, tão falada, tão tradicional e tão disputada Fundação Getúlio Vargas. Ou, mais singelamente, GV.

A repercussão já foi feita, o pavio já queimou e já está em vias de apagar. Os programas sensacionalistas já trucidaram os envolvidos, já se falou em processos judiciais e todo o ser que eu conheço já viu e reviu as cenas nas suas caixas de entrada e/ou nas páginas de vida curta que pipocaram. Claro que, nestas épocas pós-modernas, esses acontecimentos tão rápidos evaporam com a mesma agressão certeira com que bombardearam inicialmente as nossas mentes curtas e voluntariosas.

Minha primeira reação, como a de quase todos, foi a de um misto instantâneo de ultraje e de riso. E do bom sadismo que se dirige àqueles tolinhos aprendizes da vida; sadismo que se exerce prazerosamente como a satisfação em retribuir o escárnio do qual eu já fui vítima um dia e como o alívio de não ser eu o infeliz exposto naquele sem-número de posições contorcionistas.

Mas o porquê de tanta polêmica, de tanto incômodo, de tanto alvoroço? Eu até poderia falar na trasmutação dos conceitos e dos limites da intimidade, da privacidade e dos demais e sinônimos conexos. Mas eu tenho certeza de que os juristas de plantão já estão preparando as suas teses, todas iguais e todas insuficientes para uma resposta satisfatória. Desta vez, tentando não me antecipar, pensei um pouco comigo mesmo e com os comentários que eu ouvi e que eu li em diversos lugares.

E o primeiro pensamento questionador e óbvio que me veio foi o do tratamento de tabu que ainda é devotado ao sexo. No afã de desmistificar esse assunto que foi-se tornando cada vez mais proibido, todas as que-não-deveriam-mais-ser-vergonhas foram colocadas para fora e em todas as combinações aleatórias e numéricas imagináveis.

E eu me pergunto: pra quê? Mamães e papais não abrem a boca sobre o assunto e, quando os mais "ousados e liberais" o fazem, é de uma maneira ainda mais nojentamente hipócrita do que a se fazia no passado. Com aquela permissividade idiota e limitada que se expressa em preciosidades como "libertinagem é diferente de liberdade tá, filhinha?", conselhos régios que só significam repressões tais como "dê, mas só na segunda ou na terceira vez e só se ele já for o seu namorado".

Em que desembocamos? Em pessoas engatilhando um "relacionamento" atrás do outro, que duram semanas e, quando muito, meses. Trocando de parceiros como se troca de escovas de dente e não como se troca de calcinhas, porque, assim, não se está sendo promíscuo. Porque, assim, se é livre e não libertino e a sua consciência vai ter paz e, talvez, você nem vá precisar correr pro divã e nem usar drogas.

Mas, claro, sempre tem a corneação, ou, pior, tem o descompromisso para descaracterizar qualquer tipo de traição. Alguns, querendo chocar e chamar a atenção negada na meninice esbravejam em alto e bom som as suas bravatas entre quatro paredes, ou nenhuma. Mas tem, e como tem, felações em drive-ins obscuros, penetrações em escritórios apagados no fim da tarde, rapidinhas em banheiros de repartição. Todo mundo fazendo isso; isso se pode fazer, a revolução sexual já é passado superado e internalizado.

Mas se alguém souber que a menina criada à pão-de-ló e a mensalidades escolares de três dígitos faz isso, este serzinho vai cair no papo barato da projeção freudiana e se ver na messalina que deve ser o depósito de culpas e de ridicularização. Ah, sim, e tem os casos trágicos e sempre presentes de inveja e de recalque: ou daquela pseudo-santarrona que tem modos virtuosos e mente rodrigueana (ah, o equilíbrio!) ou daquele que não merece outro adjetivo senão o vulgar "come-ninguém".

E, coroando com tiras de alumínio tosco este bolo imenso de merda, vem o mal da tagarelice provinciana. Maricotas, cajazeiras e donas-fifi, adjetivos femininos mas que não escolhem o sexo dos seus detentores, com os cotovelos firmes e apoiados sobre as janelas de inbox, de telefones e de qualquer outro apetrecho patrulhador do jardim do lado. Estou com vergonha de mim mesmo. E de todo mundo.





 
Dear Kitty,

Eu estou muito chateado porque eu perdi meu isqueiro. Com a capinha prateada que sempre o guardava e que meu pai tinha-me dado de presente. Eu sei que eu não deveria-me apegar aos bens materiais, que materialismo denota avareza de mente e de caráter, e todos os etecéteras. Mas quem disse que eu quero ganhar o próximo Prêmio Nobel? Eu quero, neste momento, meu isqueiro de volta com a capa belíssima que o acomodava, de preferência. E, mais de preferência ainda, uma belíssima viagem pela Europa, no George V e similares, com passe livre em todas as Armanis, Pradas e afins.

Claro que o meu incidente ocorreu no maior buraco engolidor de objetos da terra. Aquele prédio monstruoso, feio e encardido que ocupa mais um espaço daquele um dia nobre Centro Velho da cidade. Foi lá que eu também perdi a minha outra carteira, o que me rendeu grandes idas-e-vindas a delegacias e a Poupatempos de periferia. Sem contar, claro, o ódio de ver um cheque de oitocentos reais preenchido com tanta desfaçatez que a minha assinatura e o meu CPF constavam lá, sorridentes e zombeteiros, como cumpre aos falsos de cara lavada. Na certa, foi algum dos muitos exus fumeiros que ocupam aquelas ruínas mal-assombradas que abduziu o meu agora ex-isqueiro, tão bonitinho.

E acho que ninguém me lê mais. Ou melhor, devem ler apenas porque me têm nos Favoritos do Explorer e acabam passando por aqui e só fazendo leitura dinâmica. Nada do que eu escrevo gera mais um único comentário.

Que decadência. Sem lenço, sem isqueiro e sem comentários. Ao menos, ainda tenho os documentos.




 
Tirando eu mesmo, alguém ainda lê isto a sério?



 
How sweet!!!





Que Saltimbanco você é?

Isso já deve ser velho, mas eu gostei do meu resultado de "felino caviloso".




 
Dear Kitty,

Já estou acordado há mais de uma hora. Esta cidade me irrita com toda essa inconstância de clima: o dia está horroroso, parece que alguém usou um aspirador e sugou todas as cores. Não duvido que, à tarde, vá estar fazendo um calor daqueles sahelianos e que nem um par de óculos bem escuros ajudem. Por essas e por outras, eu acho que, pelo menos pra cá, este papo de coleção primavera/verão e outono/inverno deveria ser esquecido. Nós temos todas as estações do ano no mesmíssimo dia.

Dormi mal esta noite. Eu e minha irmã iniciamos uma discussão meio desagradável com o meu pai, mas não quero falar disso agora. Isso já se tornou rotina rotineira. Eu sei que todos temos mil problemas familiares e eu sei mais ainda que aqui é o meu espaço e eu poderia falar disso quantas e quantas vezes eu quisesse. Sem me dar o trabalho de trocar adjetivos ou ordem dos fatos. Mas não. Eu realmente, hoje, não quero falar sobre isso.

Ontem eu fui ao cinema de novo. Apertei os cintos, esperei a luz ser apagada (na verdade, nem isso, porque a sala já estava em vias de ser escurecida quando eu entrei) e tive minha trip. O filme é bonitinho, chama-se Houve Uma Vez Dois Verões. É, outro nacional. Mas bem diferente das últimas produções urbanas e melancólicas que o Brasil tem feito. É despretensioso, com sotaque forte gaúcho. Talvez a nossa indústria cinematogáfica também tenha salvação. Uma pena ver que, como sempre, até a grandessíssima porcaria do Austin Powers consegue ter mais espectadores.

Estou sem idéias, hoje. E sem carro também. Preciso ligar mais tarde para a minha amiga. Para dizer que, muito provavelmente, não vou poder ir hoje até . Como não vou há uns bons dias. Vou ligar, porque me lembrei de que eu tinha de gravar uns CD's de doutrina pra ela.

Eu também comecei a escrever a minha primeira "historinha". É uma veleidade de quase caminho de conto, o que quer dizer quase nada mesmo. Vou fazer como todos os outros escritores sérios e deixar a idéia amadurecendo como um fruto numa gaveta para depois reestruturá-la e melhorá-la. Embora eu tenha-me debruçado sobre o Word por umas boas duas horas, saiu pouquíssima coisa. E eu estou longe de estar satisfeito com o que eu escrevi. É tudo derivativo, pernóstico e óbvio demais. Isso nem seria problema se essa falta de originalidade, de fluência e de mistério não estivessem tão evidentes. Enfim, como você é meu diário público, vou publicar e terminar isto com o que, por enquanto, é o primeiro parágrafo. Esta semente tosca do que ainda está muito verde e cru.

"A parede frontal é espessa e envidraçada. Grande muralha que guarnece um feudo mágico de odores e de sensações. Uma sinestesia boa e engarrafada. Lá fora, entrevi, há pouco, a água lisa e imunda que escorre pelos bueiros de uma cidade castigada pelos pecados. Aqui dentro, vejo o vinho e outras beberagens etéreas tremeluzindo e se aconchegando como pérolas raras e rebeldes na concha dos recipientes. Copos e taças tão finos e tão quebradiços que o líquido quase se mistura, exigente, ao ambiente. (...)".




Domingo, Setembro 15, 2002
 
Um Outono...

Calebe Lee é um libriano nascido em mil novecentos e oitenta e um. Tudo tem de ser bem escorrido e muito bem escolhido para falar dele. As palavras saem das suas mãos como uma aranha constrói, hábil e displiscentemente, uma teia bem-acabada, enredante e sem necessidade de retoques. É um exemplo, raro e desejado, de alguém que realmente sabe escrever, porque conseguiu combinar o dom nato com a disciplina da boa leitura. Sem precisar apelar para um visual chocante de tatuagens e de palavras gratuitamente agressivas e vulgares. Sem precisar recorrer a qualquer tipo de subterfúgio ilusório e que desvia a atenção para o que realmente importa: a escrita.

Se eu pudesse, eu seria mecenas dele e de outros pouquíssimos escassos como ele.

Visitem.




Sábado, Setembro 14, 2002
 
Dear Kitty,

É sábado à noite. Ou melhor, é madrugada de sábado para domingo, aquele horário pecaminoso e luxuriento. E eu estou aqui, fumando na frente deste computador, com meus livros para ler, depois de ter ingerido muitas calorias: pizza, refrigerante, torta holandesa. Um punhado de amigos meus está queimando neurônios e neuroses em algum canto obscuro da cidade. Meu pai e minha irmã também foram buscar a redenção e o alívio em outras paragens. O templo erigido aqui em casa não lhes é suficiente em tempo integral, apesar de eu ser sempre exortado a pedir proteção e iluminação aos meus antepassados e estacados naqueles ideogramas.

Que diferença, hein? Ultimamente, eu tenho pensado muito em como a minha vida era há exato um ano. E, às vezes, em como ela será daqui a outros. Pelo andar das coisas, daqui a pouco vou estar bordando monogramas meus em toalhas. Feito uma donzela ávida por um casamento que não virá jamais. Pensando bem, eu já faço isso. Poetisa doméstica. Fumante doméstica. Morta doméstica.





 
Todas As Histórias do Analista de Bagé, L. F. Veríssimo

Ganhei. Nem deu tempo pra eu comprar! Isso é que é gentileza ao cubo!

Thanks, sweetie!




 
Excertos...

Cadernos de Literatura Brasileira - LYGIA FAGUNDES TELLES

CADERNOS: Além de Ciranda de pedra outros textos seus abordam o problema do homossexualismo feminino. Como a sra. tem recebido as conquistas dos homossexuais? A sra. apóia, por exemplo, a legalização da união entre homossexuais?

Lygia Fagundes Telles: Eu recebo esses avanços com muita alegria. O amor tem que ter uma liberdade absoluta! Nada pode interferir nessa liberdade. A vida é muito provisória. As pessoas precisam ter espaço para a felicidade. Eu também sou favorável ao casamento entre homossexuais.

CADERNOS: E a sra. está de acordo também que eles tenham autorização para adotar crianças?

Lygia Fagundes Telles: Sim, desde que não haja um empenho na educação desta criança no sentido de fazê-la também optar pelo homossexualismo. A futura escolha deve ser dela. A condição, portanto, para adotar crianças seria essa: liberdade.




 
Dear Kitty,

Ontem eu faltei de novo às minhas aulas vespertinas. Eu deveria estar-me sentindo muito mal por isso. Ao menos, é o que aponta o meu histórico pessoal e pregresso dos tempos em que eu era (mais) um nerd inveterado. Dos tempos em que eu me debulhava em lágrimas quando me vinha uma nota abaixo dos limites estratosféricos que eu me impunha. Bom, na verdade e naturalmente, eu não me sinto satisfeito com essa negligência toda, mas, por outro lado, não caio no desespero total de perder o sono por causa dela. Eu tenho dormido estranhamente, mas por outros motivos.

Acho que estou guardando todo o desespero que eu deveria estar sentindo agora para que ele me devaste de uma vez, num futuro aí qualquer. É a minha natureza avassaladora de sempre e que sempre se faz presente. Esta natureza que não gosta de nuances e que detesta o cinzento e o morno das zonas lindeiras. Para não me dar conta das inúmeras incertezas - ainda não suficientemente agigantadas ao molde do meu gosto - eu, literalmente, fujo. Procuro templos de refúgio, que, à parte da minha condição de citadino e de contemporâneo, pouco diferem das catedrais góticas e lúgubres a que as beatas recorriam num passado. São quase iguais em substância, meus confessionários e as igrejas delas, porque os dois têm a mesma função de acalentar, de ser uma bóia em que se segurar para que não se afunde no mar de bosta.

Então, eu saí correndo ontem das aulas. Fui ao cinema à tarde, sozinho. Eu gosto desta cidade, apesar de todas as pedras e de todos os impropérios que lhe atiram, especial e incompreensivelmente aqueles que extraem, de forma indecentemente sistemática, o melhor sumo dela. E eu também gosto do Espaço Unibanco, com seus cafés bonitinhos em que se pode fumar (a americanização acéfala não nos penetrou de todo!), com as suas lojinhas bonitinhas de livros e de badulaques. Gosto de lá, apesar dos seres pretensiosos que grudam no lugar feito o limo parasita que gruda no rochedo. Dando seguimento à minha fase cinéfila e nacionalista (não ufanista, pelo amor de Deus!), vi O Príncipe. Melhor do que eu esperava, mas não tão bom quanto poderia ser. Além de ter a chata da Bruna Lombardi, a atuação é muito forçada (eu não pronuncio os érres finais do verbo quando eu estou falando; nem eu, nem você, nem qualquer pessoa que efetivamente fala esta língua). Mas a fotografia é bonita e há ótimas tiradas contra esta "intelectualidade" descolada e propagandista que pulula pela cidade, ou melhor, pelo país inteiro. Talvez, pelo planeta todo.

De qualquer forma, eu não sou exímio crítico de cinema; se eu tivesse de viver disso, nem de fome eu morreria. Consigo apenas exprimir as três graduações básicas: bom, médio e ruim. Às vezes, consigo ainda colocar um "muito" antecipando e dando uma levíssima ênfase a qualquer um desses meus conceitos. Comprei um livro chamado Contos Indianos, principalmente porque ele estava custando meros cinco sous na loja simpática de lá, apesar de a moça descoladinha e intelectualizada do caixa não saber quem era Sylvia Plath.

Depois, fomos (uma pessoa de terno e ensopada apareceu pra me acompanhar!) ao Gay Caneca para ver Retratos De Uma Obsessão. Antes, eu não resisti ao stand do Instituto Moreira Salles e comprei a edição do Cadernos de Literatura com ninguém menos do que quem? Claro, Lygia Fagundes Telles. Esta foi uma das melhores aquisições que eu fiz nestes últimos tempos, é só o que eu posso dizer.

Tomamos alguns chopps na Casa do Padeiro e eu voltei para casa. Já cansado e já não precisando mais fugir de tudo.




Sexta-feira, Setembro 13, 2002
 
Testes - estou com medo de mim mesmo!

Daddy
Which Jewel song are you most like? Find out!





 
Dear Kitty,

Sou um errante. Meus avôs e demais antepassados migraram das mais diversas partes do mundo para a terra brasilis. E eu, na minha forma torta, os imito: vou de computador a computador, de uma reconfiguração de Outlook Express a outra. Estou, agora, no micro do meu pai, criei uma conta de usuário pra mim e transferi, pra esta torre (mais baixinha do que a outra), boa parte da minha vida: os endereços favoritos, os endereços dos amigos, a identidade no ICQ e assim por diante. Que cigania virtual.

Houve outras mudanças na psicanálise. Bom, a terapeuta é, também, a mesma. A santa é a mesma, só que o santuário é outro. Ainda tem rattan, mas há quadros novos, há muito vidro. O tom texturizado e intimista do amarelo deu lugar a um cirúrgico branco. Cirúrgico, bem adequado para dissecar as entranhas não visíveis das cabeças alheias. Espero que, com todas essas mudanças, o que mais importa não mude; ou seja, conta a pagar no fim de cada mês permaneça a mesma.

A sessão está-se prestando ao não muito querido papel de paliativo. Atualmente, nos meus quarenta e cinco minutos semanais, tem predominado a função anestésica de impedir que eu me exploda em caquinhos. Mas, por ora, tem de ser assim. Acabei de me decretar em estado de sítio emocional. Que venha a suspensão.





Terça-feira, Setembro 10, 2002
 
Dear Kitty,

Fui a um dos meus calabouços hoje à tarde. Assisti duas das quatro aulas; na última, eu não teria como estar presente, por força do rodízio - ou melhor, por força da multa que me esfaquearia os bolsos caso eu infringisse a lei. A outra aula perdida, teve o seu tempo melhor aproveitado numa conversa, com uma outra prisioneira da masmorra (ou melhor, torre, já que o lugar fica no terceiro andar), que me ajudou muitíssimo a aclarar mais minhas idéias e a delinear um passo que, talvez, eu tome. Ainda é tudo hipotético, como eu disse. Este ano tem de terminar logo. Essa seqüência de formatura, de colação, de baile, de exame da OAB e de todos esses eventos atribulados (mas muito ocos e que pouco me dizem) apenas me emperram ainda mais as idéias já por natureza desordenadas.

Terças são estranhas: as aulas são especialmente insuportáveis e, como eu tenho de sair mais cedo por causa do rodízio, fico com um hiato de quase três horas de marasmo no cinza daquela faculdade. Nesse marasmo, resolvi fazer uma petite folie e comprei três livros, cuja leitura eu já queria fazer há tempos. Comecei As Meninas e, como já era de se esperar, é maravilhoso, já tenho certeza de que vou amar. Eu preciso conhecê-la um dia, embora eu nem possa prever qual seria a minha reação. É daquelas escritoras idolatradas, como vocês já puderam perceber...

Na saída da livraria, me sentindo mais leve (e com os bolsos mais leves ainda - por que livros são tão caros aqui, ainda?), fui ao templo das muitas calorias e da pouca saúde. Interessante esse contraste entre o luxo e lixo que a vida e um arremedo de megalópole nos oferecem; e mais interessante ainda é trilhar este caminhozinho em átimos de segundos. Enfim, mais devaneios meus. O que ocorreu na saída do junkie food é o que interessa... Foi uma das coisas mais inesperadas: Leo...

... Mil novecentos e noventa e oito. Calouro na faculdade. Me ambientando àquele cenário decadente de burguesia e de vida adulta; ou melhor, encetando as minhas primeiríssimas tentativas, quase todas frustradas, nesse sentido... Me tornando um adicto do mundo virtual. Ah, que tempos de descoberta, de saídas, ainda que tímidas, do meu claustro de medos. A inocência dos romances epistolares, longos e florentinos. Agora, não são mais as cartas, carimbadas e seladas com o brasão de iniciais, que transportam as emoções de remetentes a destinatários. São os impessoais e velozes e-mails, ainda com aquele mesmo poder das suas antecessoras em papel: fazem esperar, geram epectativas e maus entendidos.

Protagonizei esse romance arrastado por alguns meses. Que veio com o desfecho de uma tarde de setembro: meu primeiro beijo, minha primeira concretização carnal de tudo. Não, minto: foi o primeiro passo desse todo que envolve muitas outras coisas. A memorável iniciação num ritual não tão glorioso e místico. Aliás, não só meus primeiros tudos, mas nossos primeiros tudos: ambos com dezenove anos, ambos com medo de cruzar a derradeira linha que tatua uma marca, em definitivo. Mas a minha vocação era mais latente e mais definida. Ele ainda levaria tempos para se render ao chamado inexorável. Esse desnível de dúvidas - que, desta vez, ineditamente, eu não tinha, mas ele as colecionava aos montes - terminou por murchar o que mal nasceu. Nascituro natimorto.

Estranho ter reencontrado o meu primeiro depois de tanto tempo. Uma outra vez, tínhamos-nos cruzado num cabaré aí da vida, mas as luzes intermitentes, a escuridão e outros aditivos distorceram e apagaram tudo. Desta vez, foi diferente: pude rever como ele era alto, meu Deus, eu não me lembrava! E como o seu perfil remete ao dos imperadores romanos, cunhados em moeda: o nariz adunco, proeminente, altivo. Sabe aqueles momentos minúsculos e incontáveis e que, tamanhas a sua pequenez e a sua fugacidade, não podem ser aprisionados em qualquer sistema de contagem de tempo? Pois é, este reencontro foi um deles. Ou melhor, aquele (não este, porque já se foi) quase reencontro. Foi quase, porque me faltou a iniciativa para torná-lo um encontro. Um encontro exige duas ou mais partes, não? Como eu devo chamar o que aconteceu? Um monoencontro?

Mas, agora, ele já se foi, este momentozinho. Agora, ele só serve pra que eu o escreva aqui, pois só assim dá pra (re?)vivê-lo. É bom viver o momento bem rapidinho pra depois sentir saudade dele, escrevê-lo, contá-lo, relembrá-lo e esmagá-lo. Mastigar e deglutir as memórias como se rumina uma flor, na raiva de não tê-la aproveitado integralmente, por medo de perdê-la para a efemeridade.

No fim, tudo se perde. Menos as lembranças, que engradam só o que nos interessa...





 
That I Would Be Good

That I would be good even if I did nothing
That I would be good even if I got the thumbs down
That I would be good if I got and stayed sick
That I would be good even if I gained ten pounds

That I would be fine even if I went bankrupt
That I would be good if I lost my hair and my youth
That I would be great if I was no longer queen
That I would be grand if I was not all knowing

That I would be loved even when I numb myself
That I would be good even when I am overwhelmed
That I would be loved even when I was fuming
That I would be good even if I was clingy

That I would be good even if I lost sanity
That I would be good whether with or without you


Alanis Morissette



 
Dear Kitty,

Same old me again today, já dizia aquela musiquinha do trio TLC. Estou, definitivamente, mudando a "linha editorial" disto aqui. Tudo bonitinho e entre aspas, porque até parece que o que eu escrevo aqui tem qualquer potencial para ser publicado (se bem que vendo uma série de coisas impressas e difundidas por aí, até penso o contrário...). Enfim, eu tenho, nitidamente nos últimos dias, me centrado na análise confessional em público. Já tentei brincar de tecer os meus dias com um pouquinho de fios quebradiços e fininhos de lirismo. Também já busquei expor, defender e justificar, com alguma pouca ferocidade, os meus pontos de vista e os meus gostos. No momento, o meu olhar se volta à concha fechada, quente e sufocante do egocentrismo. E é assim que vai ser por um tempo. Afinal de contas, ninguém paga um único miserável e liso penny pelos meus pensamentos e, aqui, eu ainda posso transitar entre o que bem me aprouver e/ou (sou viciado nesta conjunção dupla) pelos mundos em que eu consigo passear.

É, eu sou frívolo. Sofro, dentre tantas outras coisas, do mesmíssimo e triste mal da Luisinha d'O Primo Basílio. Meu olhar se fixa, por poucos instantes embora intensamente, em algum ponto da imensidão que me cerca para que, em seguida, o objeto fique desfocado. E para que, então, eu possa dirigir as minhas atenções a qualquer outra coisa que me apareça na frente.

O frio persiste em São Paulo. O céu tem aquela coloração triste, plúmbea e inexpressiva e parece que este feudo de concreto está todo imerso na preguiça. Esta cidade boceja, mesmo neste semi-interior em que eu vivo (aqui tem pássaros e aqui tem árvores, que disparate!), está muito cedo e eu já acordei. O cursinho e a faculdade continuam sendo um desafio de mártir para mim. Joana d'Arc contemporânea e paulistana. França é América Latina. Os cavalos luzidios são os carros fumegantes com a pintura castigada pela poluição. O clero inimigo e repressor, os professores com aquela voz de tenorinhos constipados (obrigado, Ubaldo Ribeiro).

Ontem, perdi as duas primeiras aulas, e as duas que restavam foram assistidas penosamente. O abrir-e-fechar de constituições federais, de leis esparsas ou então codificadas e de todas aquelas letrinhas juntadas em artigos, em caput, em parágrafos, em incisos e em alíneas. Ah, como isso me enfastia.

Não sei a que eu posso creditar tamanho desânimo. As possibilidades são inúmeras, concorrentes e acumuláveis e, pior, todas sem qualquer outra solução que não o odioso "sentar e esperar". Posso estar sofrendo da síndrome de desespero que acomete, numa irmandade indesejada, todos os quinto-anistas. Posso estar, simplesmente, estar-me recusando a crescer. Posso também estar sob a influência talvez nefasta do resultado do famigerado teste vocacional (sirvo para as ciências jurídicas, mas não tão perfeitamente como me encaixaria em outras profissões)...

Estou-me dividindo entre dois mundos, um deles ainda apenas hipotético. Fico aqui na minha Paulicéia, comprando o risco de vencer ou de ser vencido pelos meus padres opositores? Ou eu deixo tudo para trás, os meus armários sólidos, o meu cavalo de batalha, para, também, correr o mesmo risco? Mas, em ambas as possibilidades, não vou poder fazer como a bíblica filha de Ló e olhar para trás, sob pena de me tornar uma estátua de sal, petrificada na amargura do não feito.

Ah, como sempre, duas forças reclamantes tentam-me comprar com seus murmúrios cifrados. E, como sempre - mas se tudo der certo, apenas por enquanto - eu só posso fazer o quase de sempre: sentar e esperar. Mas, também e principalmente, pensar.




Domingo, Setembro 08, 2002
 
Dear Kitty,

Que domingo frio é este, a poucos dias da abertura oficial da primavera? A natureza realmente está-nos castigando pelos inúmeros estragos que os nobres homens vêm sistematicamente fazendo no planeta!

Nesta tarde congelante, eu fui à casa da minha mãe - coisa que eu fiz pela última vez no próprio Dia das Mães. Comemos picanha com arroz gaijin (aquele diferente do que tem sempre aqui em casa, grudento e sem qualquer sal, mas o único que eu suporto todos os dias) e outros acompanhamentos.

Foi um dia bem de domingo mesmo, moroso, arrastado, cuja chatice típica é maximizada por essa temperatura baixíssima. Às vezes, eu fico pensando se realmente eu conseguiria morar perto de algum pólo; acho que é muitíssimo bem fundamentada aquela associação científica entre os invernos rigorosos e a depressão (todos os suicídios na Escandinávia). Dependemos de Sol, de luz natural. Inclusive, na simbologia psicanalítica (junguiana ou whatever), o astro-rei simboliza a vida... Enfim, não estou com humor pra digressões; aliás, acho que nunca fui muito bom nisso...

O mais interessante de hoje foi ter desenterrado fotos antigas - quando meus pais se separaram, ele oficialmente ficou com os filhos (formalmente, mesmo, porque eu sempre morei com a minha avó e tios) e ela, com os registros fotográficos. Não pude deixar de perceber, na minha mãe, uma certa tristeza de arrependimento e/ou de remorso (há uma diferença técnica entre eles; Solange, comente e explique), dois dos piores sentimentos que qualquer ser humano pode sentir.

Acho que eu tenho parado de rivalizar e de antagonizar tanto com ela. Eu fico imaginando como foi, para ela, estar na minha idade com dois filhos nas costas, casada com um workaholic inveterado e ladeada por uma família tipica e, a ela, estranhamente oriental, com algumas boas pitadas de inexplicável judaísmo (aquele papo de idiche mamma, superprotetora, ciumenta e assim por diante). Deve ter sido difícil, imagino.

Ao mesmo tempo em que eu me sinto penalizado e tomado por ondas de compreensão, é difícil não levar em consideração todos os contra-argumentos exaustivamente apresentados, reapresentados e repetidos pela minha família de cá. Ainda mais vivendo sob a saraivada incessante dessas verdades catequizadoras, literalmente, vinte-e-quatro-horas-ao-dia, trezentos-e-sessenta-e-cinco-dias-ao-ano. Não há espírito crítico que resista a tamanha doutrinação...

... Sentimento deste domingo: melancolia.





 
Patricia Kaas

Entrer dans la lumière
Comme un insecte fou
Respirer la poussière
Vous venir à genoux
Redécouvrir ma voix
En être encore capable
Devenir quelque fois
Un rêve insaisissable
Toucher des musiciens
Sourire à des visages
A 4 heures du matin
N'être plus qu'une image
Etre là de passage sans avoir rendez-vous
Avoir tous les courages
De me donner à vous
Et vous laisser venir
Comme un amant magique
Et vous ensevelir
Sous mon cri de musique



Sábado, Setembro 07, 2002
 
(Presque) blanche comme la neige...

Pipoca - 21/07/2002




 
Dear Kitty,

O Mestiço estava ótimo. Contrariando todas as minhas experiências anteriores, eu fui britanicamente pontual desta vez. Tão pouco brasilianamente pontual que eu e Solange chegamos lá e ainda não tinha uma única viva alma do nosso grupo. Pedimos a dificílima mesa para nove pessoas, na acirradamente disputada ala de fumantes, o que nos rendeu umas boas duas horas de espera.

Boas horas mesmo, em que eu conversei muitas banalidades, fiz um passeiozinho pela política brasileira, falei da minha paixão pela Lygia Fagundes Telles. E matei saudade, aquela coisa que só nós, falantes do português, podemos matar. Matei a saudade de pessoas e de parte da intensa vida social que eu tinha antes e que me faz muita falta. Vi pessoas que eu não via há tempos (nem todas agradáveis, mas nevermind). Também e alcolizei um pouco (três doses ao todo) e fiquei muito tonto - perdi o rebolado com isso, fazia uns bons quatro meses que eu não bebia decentemente, ou seja, o quanto eu queria. Foi bom, sim. Daquelas coisas boas, que não dá pra descrever e sobre as quais não dá para ficar falando com exatidão.

Como sempre, eu fiquei meio triste na hora de voltar para casa. E, sim, eu tenho de validar as palavras da sábia maga do templo de rattan: eu adorava (ainda adoro, conhvenhamos) me desvelar em mil programas longos fora de chez moi porque a idéia de ficar aqui dentro simplesmente era torturante pra mim. O curso odiado, a casa de hábitos rígidos e frugais, tudo esmagando e contrastando com a minha natureza, tudo isso precisava da famosa válvula de escape, de uma compensação qualquer que, pelo menos momentaneamente, me fizesse esquecer do amontoado de insatisfações que me deram e que, pior, eu me dei.

As coisas aqui não andam bem. Tive um exemplo mais-que emblemático das relações doentias que nos regem quando a minha irmã saiu na quinta-feira, chegou aqui em casa já de manhã com um moleque da faculdade com quem ela estava ficando. Minhas tias, como não podia deixar de ser, ficaram todas alvoroçadas, que displante, que absurdo, que conduta inadequada... A maior cefaléia mental pra cima de mim, ouvindo lamúrias, reclamações e frustrações alheias. Não contentes em me infernizar, ou melhor, vendo que eu não ia tomar partido delas nem de quem quer que fosse (primeira lição da terapia já sendo enraizada: primeiro eu, depois eu, depois eu de novo e, por fim, sempre eu), elas foram acordar o meu pai e o clima de discórdia ficou enlameando a casa o dia inteiro. As faces delas triunfantes por terem estragado a noite da menina (os prazeres devem sempre vir com ascética moderação; quem foge a esta regra, sofre reprimendas imediatas, se não de Buda, dos seus mais zelosos guardadores).

Isso tudo me irrita e, ao mesmo tempo, me atrai. Muitas vezes, eu me vejo enrolado na trama de uma viúva negra, figura que se biparte tanto neles (ma famille), como em mim mesmo. Esses dias, fiquei olhando todos os confortos que, por ora, só esta casa pode-me oferecer e dos quais, neste momento, eu não me vejo capaz de abrir mão. Ontem me disseram que eu mudei, que eu estou mais centrado, que eu não pulo mais. É, o ecstasy e todas as outras substâncias químicas não estão aqui, mas, em essência, eu continuo o mesmo: covarde. Permaneço e prossigo preso a este sem-número de penduricalhos físicos...

E meu ICQ pifou. Ou melhor, a minha irmã pifou a criatura. Como o dela não estava mais entrando em canto algum deste computador, ela "desfez" o login dela no Windows XP, se instalou aqui na minha conta. O UIN dela continuava sem funcionar aqui, então ela instalou a porcaria do ICQ Lite, versão mais simples, cuja maior desvantagem em relação à completa é a impossibilidade de mudar o modo de mensagem, que só fica naquele horroroso IRC mode.

E agora este sábado tá uma chatice de frio. A casa tá bem vazia, Pipoca está dormindo aqui do meu lado. Em uma única palavra: boredom.




Sexta-feira, Setembro 06, 2002
 
Dear Kitty,

Acabo de desistir de um post iniciado às 8h da manhã. Eu estava sem dormir há umas boas dezesseis horas, uma série de incidentes domésticos e desagradáveis havia ocorrido, e alguns fatos novos aconteceram para embaralhar ainda mais a desordem de sempre da minha cabeça. Oh, que novidade, eu estou confuso.

Então, o que todos nós, pobres humanos, fazemos quando estamos sem rumo? Mergulhamos numa infinidade de atividades corriqueiras e terrenas, para não nos dar conta de que estamos no meio de um tiroteio, cegos e no escuro. E, no meu caso particular, complemento o escapismo me ocupando de dormir em todo o tempo que me resta. Durmo pesadamente, sem sonhos, sem hora para acordar. E foi o que eu fiz hoje, depois de passar a noite inteira lendo.

Reli um livro que eu encontrei perdido na estante do meu quarto; já estava ficando desesperado por ter lido tudo que tinha aqui. Devorei até revistas de automóveis. Quanto a jornais, eu não gosto de ler. Aliás, eu detesto jornais: pelo cheiro, pela mau escrita, pela natureza sempre tendenciosa, e, sobretudo, porque eles não me acrescentam qualquer coisa além de um monte de fatos que espelham uma mesma realidade triste. O mesmo vale para os telejornais.

Enfim, eu estava aqui quando reencontrei Feliz Ano Velho (não disponível no Submarino), do Marcelo Rubens Paiva. A história já é bem conhecida de todos: a narrativa autobiográfica feita pelo filho do lendário Rubens Paiva, que sumiu nos porões da vergonhosa ditadura militar e que, não obstante essa desgraça, sofre um acidente que o deixa tetraplégico. É uma história, como diz a contracapa (ao menos, na minha edição, já bem judiada e velhinha), que tem tudo para cair na "pieguice do lugar comum", mas que, por alguma coisa inexplicável, consegue deixar a categoria dos chavões.

Tudo bem, o livro está um pouco datado, foi escrito há mais de vinte anos, contém algumas gírias que nem se usam mais e etc, etc, etc... Mas o que mais me chamou a atenção foi um fenômeno que eu já tinha percebido antes: releituras sempre trazem uma visão nova. Ó, que revelador! Mas eu realmente me identifiquei com o livro, muito mais desta vez. Não apenas pelas aspirações políticas parecidas, mas pela descrição da UTI (lugar pavoroso em que, por uma desgraça do destino, também já estive) e assim por diante...

Hoje também fui renovar a minha carteira de motorista, que já tinha vencido desde o meu aniversário. Não, eu não sou louco de andar com ela vencida; isso não é crime de trânsito, eles não apreendem o seu carro nem infligem qualquer castiguinho medonho do gênero. Nas palavras técnicas exaustivamente repetidas pelo meu grandioso professor de (aliás, o melhor professor, sem dúvidas), é "mera irregularidade administrativa". Enfim, pra alguma coisa esse debruçar sobre a lex tinha de servir.

Durante o exame médico, vi o quanto eu estava ceguíssimo; meu olho direito virtualmente não existe mais. De todas as placas que o ser senil na minha frente me mostrou, só consegui ler o que estava escrito em uma. Aliás, velhinho lá me extorquiu trinta e cinco reais pra cinco minutos de trabalho tosco - se bobear, a criatura consegue ganhar mais reais/hora do que os meus professores pareceristas.

Enfim, cheguei em casa, dormi, dormi, dormi... Quer dizer, nem tanto: fui-me deitar ao meio-dia fervilhando em dúvidas e me levantei já há umas duas horas. Agora, eu tenho um jantar de recepção ao meu amigo recém-chegado da falida Buenos Aires. Então, eu tenho com o que me ocupar por mais um tempo...

E, retirando parte do que eu disse antes, isto aqui está descambando pra um verdadeiro diário de adolescente. Alguém tem adesivos (ou, no caso do mundinho virtual, gifs) da Hello Kitty pra me mandar? :D




Quinta-feira, Setembro 05, 2002
 
""Modo" de vista...

A vida cibernética é outra quando vista numa tela maior e plana. Eu amo a minha Sony Triniton 17"!





 
O Jogo do Contente (com as devidas mitigações)...


Estou adotando um Pollyanna way of life. Me explico: a cada dia, em vez de me prender nas mil coisas que sempre me aborrecem, vou tentar valorizar aquelas fagulhas vibrantes que, de quando em quando, espocam nos nossos dias. Naturalmente, ainda me resta um mínimo de sanidade; então, nada de brincar de jogo do contente em tempo integral e, muito menos, nada de me tornar um ser babão e acéfalo. Por enquanto, este não é um blog agendinha-de-adolescente; ao menos, não ao ponto de eu torná-lo literalmente rosa, cheio de imagens animadas de florzinhas, bichinhos e afins, e/ou repleto de mensagens animadoras. Afinal de contas, como eu disse e repito, eu ainda não extirpei, de todo, a minha racionalidade.

Mas, quanto a estes pequenos instantes mágicos, creiam-me, eles acontecem. Ao menos, eles têm acontecido para mim todos os dias, dando força à minha campanha de gentilezas. Dentre as múltiplas combinações possíveis de amanheceres perfeitos (ou no meu caso atual, meros "abrires de olhos", porque eu me levantei às dezesseis sim!), uma delas se concretizou hoje, para mim: despertei com uma caixa de Sedex sobre a escrivaninha. Dentro dela, uma outra caixa de Neuhaus (os meus preferidos!), com uma cartinha muito simpática, escrita com uma letra também muito bonitinha.

Delicatesse é a palavra de ordem. Eu (e o mundo inteiro, com certeza) apreciamos e agradecemos o seu belo gesto, querida. Obrigado mesmo pelo presente, pela atenção, pela gentileza e pelo desjejum mais gostoso que eu poderia conceber.

Bom, está frio lá fora, eu tenho terapia em breve, enfim, está tudo aí, na mesma triste estática de sempre. Mas, desta vez, vou sair daqui com um gostinho, literalmente, especial...




Quarta-feira, Setembro 04, 2002
 
Amanhã eu não vou às aulas. De novo. A desculpa é uma gripe que vem-se instalando há uns dias, mas, na verdade, é a falta de saco mesmo.

É dia de feira, eu tenho de tirar o carro, gastar dinheiros com o estacionamento e andar no meio daquelas barracas ensurdecedoras, além de dar passinhos por um chão todo emporcalhado. E, mais importante, eu não estou nem um pouco afim.

E atire a primeira pedra quem não faria o mesmo no meu lugar.




 
Ainda sobre a delicadeza...

Ainda subsistem muitos bichos soltos por aí dando mostras inequívocas de que estão, para todo o sempre, destinados aos confins de um estado primata. Passeando um pouco pela rede, eu vejo absurdos ininomináveis, que até seriam cômicos se a sua tragicidade não fosse tão desoladora. Se estes duelos tivessem alguma relevância, mas o que há de sobra são um bando dos mais autênticos ostrogodos se estapeando por mixarias. Uma corja de famintos quase literalmente se mordendo por pedaços ínfimos da carcaça da carne mais podre. Ai, esta foto é minha, este leiáute é meu, esta idéia fui eu quem tive antes! Como se esses objetos tivessem condão o bastante para demonstrar qualquer traço de genialidade. E, vejam, estou apenas falando da rede, que em boa instância e, tal qual a arte, apenas imita a vida. Ah, crianças, apenas vai o singelo conselho: abram bem os olhos e respirem. Há todo um mundo aí fora. Se querem brigar, que o façam por uma coisa que realmente valha a pena. Se bem que, no fundo e pensando melhor, quase nada vale uma boa briga, mas, mesmo assim, não vamos avacalhar (ainda) mais a ordem das coisas, certo?

Por outro feliz lado, eu vejo que a minha campanha recém-lançada surte seus efeitos. Ontem, esses resultados vieram na forma de dois gentilíssimos e-mails. O primeiro, do Thiago, que está, invejável e merecidamente, se esbalando em Ibiza e já me presenteou com o primeiro de muitos outros relatos que ainda estão por vir. Sucessos mil para você (embora você não esteja-me lendo agora!). A segunda mensagem veio de um dos candidatos a orador da turma, que teve a decência e a finesse de anexar o seu discurso. E mais: ainda mandou cada mensagem individualmente, endereçando a mesma, em separado, a cada um da sala. Embora esta seja, também, uma tática político-diplomática, foi de uma delicadeza que nenhum dos outros candidatos teve. E o menino é um dos poucos hábeis malabaristas que conseguiram passar os cinco anos sem despertar qualquer inimizade naquela selva africana que, eufemisticamente, atende pelo nome de "sala". E isto, convenhamos, é uma proeza do tamanho de uma viagem a Plutão, que o bonifica ainda mais para poder falar "em nome de todos".

Ah, a fineza é como oxigênio: cada dia mais escassa, mas ainda encontradiça em raros e privilegiados seres. Aprendamos (ou tentemos aprender) com eles.




 
Dormi das 2h às 17h. Quinze horas de sono, com o gato preto enrodilhado aos meus pés; depois, ele se contorceu no arco formado pela minha barriga (eu durmo em posição fetal, quer-me analisar?). Adeus, aulas, adeus luz do dia.

Que merda.




Terça-feira, Setembro 03, 2002
 
Be gentle. Be nice. Please! Thank you very much!

Me perdendo no meio dos orangotangos no trânsito, no cursinho e em todos os outros lugares; deparando com as incontáveis manifestações soltas por aí, inconformadas e/ou epifânicas, o pensamento que me vem, já repetindo Azolan e parafraseando Danuza Leão é...:


Gentileza já!

Segure a porta do elevador. Dê passagem para o pedestre. Peça licença. Peça por favor. Não arrote. Não tombe. Enxergue e se enxergue. Sorria. Perfume-se. Arrume-se. Dê bastante: distribua bons, dias, boas tardes, boas noites, boas sortes, boas intenções, boas energias! Dê o que quiser e o que puder, é muito melhor do que receber.

E seja autêntico. Mas conte pequenas mentiras pra prevenir hecatombes a todo e a qualquer instante (e leia As Mentiras Que Os Homens Contam).

Leia muito. Escute mais ainda. Aprenda mais e mais ainda. Bastante nunca é o bastante.

O mundo inteiro agradece. Muitíssimo obrigado.




Segunda-feira, Setembro 02, 2002
 
O que não é de todos.

http://www.cidadededeus.com.br

Isto é contundente. É perfuro-cortante, e choca de forma anestésica. Ainda não consegui decodificar tudo o aquilo que eu vi, ouvi, senti e (re?)aprendi. Talvez nunca consiga; pra isso, acho que eu teria de nascer de novo, naquele outro meio que ocupa um lado oposto ao meu.

Tudo bem, era exatamente esta a proposta: deixar perpetrado, em cada espectador, aquele sentimento incômodo de inquietude. Aquela cidade é, ironicamente, de Deus, mas não de todos. Eu, e você também que está me lendo, jamais teremos contato com aquela realidade. Da mesma forma que os que habitam lá desconhecem o de cá.

Não posso deixar de cair naquele pensamento comum: estamos todos (eles e nós) fisicamente tão próximos, mas em todos e tantos os outros aspectos, tão distantes, que os meios de comunicação não dão conta de suplantar esse abismo. E novamente, já me fincando um pouco na vala do sensacionalismo, são dimensões paralelas e tão separadas - os pontos de contato entre elas são mínimos, imperfeitos e desaparecem rapidamente.

O que você vai ver no filme são apenas pequenas mostras, obviamente distorcidas (não importa em que grau), de toda aquela criminalidade que nos ronda. Do submundo que nos vem na forma dos jornais impressos e televisionados, dos assaltos que eventualmente sofremos em qualquer farol, das incursões caridosas e efêmeras que fazemos nas favelas. Mas estes são retratos estáticos e amostrais; a realidade, em si, é fluida e não se resolve nessas captações.

Então, é claro que haverá os vícios dos "palavrões entoados" (como diz sempre alguém que certamente está-me lendo) que inevitavelmente contaminam todo o cinema nacional. E também haverá o clima artificial e Projac, que sempre joga um pouquinho de verniz naquilo que é irremediavelmente encardido. Mas não se deve considerar isso para ver o filme, que é indiscutivelmente bom. Posso dizer, eu que sou extremamente rabugento, que, desta vez, o alarido que se fez em volta tem boa validação.

Eu acho que ver Cidade de Deus é um dever tão ou até mais cívico do que o voto. Minto: são dois deveres complementares. O difícil, ah o sempre difícil, é pensar em como resolver todas aquelas mazelas bem conhecidas. E não deixar que essas memórias não sejam apagadas. Pelos nossos dias, tão comuns e tão absorventes. Pelas nossas consciências, tão cristãs e tão altruístas, que velam pelo outro lado, com olhar espichado e acossado pelo medo de despencar desfiladeiro abaixo e de se enegrecer pelo feio...

Difícil, não é mesmo?




 
Blow the candles out and make a wish...

Fernandinha,

Hoje é o seu dia!

Já nos conhecemos há tanto tempo. E não nos vemos há tanto outro tempo. Você e eu. Cada um do seu lado. Cada um à sua maneira. Cada um a seu próprio e a seu único tempo. Cada um mudou bastante, não é?

E eu achava que aquelas histórias - sobre o gostar que permanece, sobre a amizade que desconhece tempos, espaços e outras barreiras - eram pieguices inventadas por algum otimista carola e chatonildo de plantão.

Eu, mais uma vez, me enganei. E nós dois estamos aí, num raro exemplo que contraria as grossas estatísticas de efemeridade e de fragilidade daqueles tendões que ligam duas pessoas! Graças a Deus (que, em casos como este, mostra que ainda está por aí, cuidando dos seus)!

Muitas felicidades, minha querida Big Loira!




Domingo, Setembro 01, 2002
 
Desopilem o fígado já...

Energy 52 - Cafe Del Mar (Mario V Remix) - sem vocais, muitos crescentes e muitos descentes. Vai bem com volume muito alto e outros acompanhamentos necessários.

Peguem diretamente daqui.




 
O Tédio...

Meus dias têm-se passado de forma tão igual e tão insossa... Acabo de me dar conta disso ao tentar-me lembrar, sem sucesso, em que dia eu tinha visto (mais) um filme na televisão. Assim como, quando me esforço, não consigo-me recordar em que dia recebi um telefonema de sicrano ou de beltrano, nem em que dia ou onde eu li tal negócio.

Mais do que lapsos de memória, acho que essa inacessabilidade aos arquivos da minha memória reflete, precipuamente, o desinteresse, o desencanto, e todos outros "des" que denotam, que prefixam e que impregnam de vazio tudo o que me rege.

Trevas.




 
Voltei.

Meu micro realmente morreu - ele vai embora amanhã e, dele, só fico com o HD cheio de MP3's. Aquele computador realmente me saturou - passei o ano inteiro sobressaltado com os repentes dele. Ultimamente, eu ficava agradecidíssimo quando eu conseguia terminar um trabalho e descarregar todos os meus e-mails já tinha-se tornado uma verdadeira proeza. E é isso. Estou tentando-me acostumar a este outro aqui que, embora mais potente, tenha um monitor minúsculo e não tenha umazinha MP3 sequer.

C'est la vie...