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Quinta-feira, Outubro 31, 2002
HELP!
Olha que coisa boa. Estava eu, tentando incluir alguns links novos, quando, de repente, o BLOGGER me brinda com essa confusão lindíssima de números.
Perdoem-me por não estar respondendo os comentários. Mas é que a porcaria (atendendo a pedidos, vou moderar um pouquinho a minha quantidade de palavras "sujas") do sistema vive fora do ar.
E, quando está disponível, eu confesso que estou morrendo de preguiça.
Mas vocês sabem que eu amo vocês, né?! Apesar de nem sempre mostrar isso direito.
Até teria, mas são coisas que não me dizem respeito. E, embora eu tenha minha boa parcela de maricota tagarela, não vou gastar esse tempo falando da vida alheia.
Será que, hoje, eu consigo assistir a alguns filmes na televisão? (só pode ser por cabo mesmo; porque não é segredo que a aberta consegue ser pior ainda!)...
Desisti da porcaria da televisão. Lá estava eu, prontíssimo para assistir a um filme que parecia interessante. Com o bonitão do Dennis Quaid. Com uma trama de intersecção de tempo real e de tempo imaginário. Anos 60. Aurora Boreal (nunca entendi o que é isso direito, embora ache lindo, misterioso).
Mas, claro, eu tenho de morar nesta cidade horrenda e tempestuosa. E meu bairro tem de estar no meio de um dilúvio. E isso tem de acontecer nos poucos momentos em que eu faço alguma concessão à caixa falante.
Desisti. Da TV. E do dia. Vou dormir. De qualquer forma, já estamos quase na quarta-feira.
Verdade que algumas pessoas - na maioria mulheres e, às vezes, bem-vindas (este já é um assunto para outro momento, porque eu tenho traumas pessoais com fag hags) - tem verdadeiro fascínio pela cultura homossexual masculina, indo ao extremo de uma idolatria parcial e distorcida. Que chega ao estágio de levar ao absoluto os pensamentos planos de que gaysempre se veste melhor, de que gaysempre aproveita a vida mais plenamente, de que gaysempre é mais culto. Enfim, de que gay é o que há e o resto é o resto indesejado e atrasado. Concordo parcialmente. Nos vestimos quase sempre de modo mais apurado, porque é inegável que herdamos a vaidade e a preocupação com a aparência femininas. E, paradoxal e adicionalmente, o jogo do flerte entre dois homens é - de modo geral e não estanque, que se frise isso para todas as afirmativas aqui - mais plástico e mais visual. Pelo próprio volume de testosterona absurdo que está em questão. Mas, neste meio, vi - e continuo vendo - muito show de cafonice, de mau gosto e de insensibilidade com a moda nos guetos aqui de São Paulo. Neste meio, vi - e continuo vendo - pessoas que confundem hedonismo com falta de critério e de auto-estima. E, neste meio, vi - e continuo vendo e é esta a razão que me levou a escrever isto - pessoas incultas e rasas.
Por outro lado, há aqueles que resvalam para o extremo oposto. Tomam como A Verdade o fato de sermos irremediavelmente promíscuos, de sermos indecorosamente aficcionados por sexo, de mantermos relacionamentos frágeis e quebradiços. Enfim, de que somos o resto indesejado e atrasado e de que os outros são o que há. De novo, concordo parcialmente. Há, neste mundinho de homens com homens e de mulheres com mulheres, muita baixaria, muita traição. Numa proporção maior do que no mundo sóbrio e ensolarado dos straights? Agora, até ouso discordar - no fim, é tudo igual. Porque, ao passo que o mundo 'de lá' é marcado, quase sempre, pela retidão e pelo formalismo, o 'de cá é mais de escancaramento. Me explico: não há aquela montanha sólida de papéis e de crianças unindo dois homens ou duas mulheres. Quando muito, o que há em domínio comum é um ou outro cão, uma ou outra plantinha, uma coleçãozinha de discos e por aí afora. É infinitamente mais fácil romper assim - a conclusão óbvia de que ninguém é de ninguém e de que ninguém é obrigado a se escorar na bóia de um relacionamento para não se afogar é, talvez, um pouco mais óbvia por aqui. E mais: não é mais segredo para ninguém (ao menos, assim espero) o sem-número de traições, de divórcios e de humilhações mútuas que contaminam as relações de muitos papais-e-mamães por aí.
O que eu queria dizer, no final, é que a orientação sexual não molda a personalidade de alguém. Não é um entalhe definitivo e uniforme que dá a mesmíssima feição a todos, comose fossem estátuas produzidas em série. Não é um denominador tão comum a ponto de poder incluir todos em um grupo só. Essas generalizações me cansam a pouca beleza e a pouca paciência restantes.
Voltei pra lá hoje. Perdi a conta de quantos chegas mentais e/ou sussurrados eu emiti hoje no meio daquele parlatório todo. Mas eu agüentei as duas aulas de direito comercial e a de direito administrativo, veja só! Ainda bem que hoje é meu rodízio e que eu pude escapar um pouco mais cedo. Sabe, eu, atual e sinceramente, admiro e invejo as pessoas que têm essa disciplina paciente de seguir cronogramas de estudo à risca. Talvez haja nesse sentimento misto umas boas e generosas pitadas de um saudosismo do que se perdeu. Porque eu me lembro muito bem de como eu era absolutamente metódico com as minhas matérias. Meu fichário era sempre completíssimo, eu estudava até o fim para todas as provas, não permitia que a minha média ponderada baixasse dos oito e meio, o que era bastante difícil num colégio que privilegiava absurdamente a área de exatas, nas quais eu sempre fui vergonhosamente deficitário. Enfim, eu já fui um nerd no sentido estrito...
... Hoje em dia, toda essa dedicação passou. Aliás, há muito tempo passou. Desde que eu ingressei na vida adulta da faculdade, que me dava a liberdade de sair das aulas. Ou melhor, que praticamente me empurrava pra fora das salas, uma energia tão forte e tão inevitável. Não tem como eu me martirizar por ter sido relapso na vida acadêmico-universitária: era tudo muito pernóstico, muito sem-vida, muito tudo incompatibilizável com meu espírito de antes. Ou, quem sabe, de agora. Ou, quem sabe, de sempre.
Argh, nem sei porque eu estou falando disso. De novo. É a síndrome dos quinto-anistas. Vamos pensar assim.
Pensamentozinho bobo, idiota e óbvio que me ocorreu agora: tudo o que importa se baseia num fator tríplice. Bom, como sempre, eu não digo qualquer novidade, porque isso tudo já foi dito e comprovado em diversos campos do pensamento: na psicanálise (rá), na literatura, na filosofia, na religião e aí por diante. Exemplos recorrentes atestando a veracidade do dito: a tríade cristão do Pai, do Filho e do Espírito Santo; as pirâmides, perfeitamente equilibradas sobre três; o sustento de qualquer superfície por um tripé e assim vai.
Sabe que, na minha vida, é assim, também? Sempre andei em estilo "Os Três Mosqueteiros". Apesar de sempre estar conversando e comungando com um grande número de seres, no mais das vezes, é assim: eu e mais dois. De novo, formando uma unidade trinada. E isso me ocorreu na minha releitura d'As Meninas. Lorena Vaz Leme, a sonhadora, burguesa e romântica; Ana Clara Conceição, ou Ana Turva, perdida em seus devaneios lisérgico-químicos; Lia de Melo Schultz, ou Lião, a mordaz e guerreira. Bom, as personagens são meio absolutas em suas qualidades e em seus defeitos. Nós, as personas de vida real, acabamos por carregar um pouco de cada uma delas, embora cada faceta sempre predomine. Mesmo assim, não pude deixar de fazer o paralelo (e, please, abstenham-se de dizer que eu sou a Ana Clara! Já fiz a piada trágica antes e ponto!).
Fato é que eu acho que nós, humanos e gregários por natureza, sempre buscamos-nos associar com aqueles que têm o que nos falta e/ou o que buscamos tanto ter. Por isso que meus amigos, os mais próximos, têm natureza tão destoante da minha. Fico pensando se aquela velha máxima popular de "pássaros de plumagem igual voam juntos" realmente é sábia o bastante.
E lá vou eu ao hospital de novo. Meu pai com mal-estar. Nada grave, mas ele é rebelde (nisso, saí a ele) e necessita de forte persuasão e de insistente acompanhamento para fazer essas coisas...
É, acho que estão tentando-me disciplinar a perder meu pavor desses ambientes hospitalares...
Quem sabe, um dia, eu vá ser "igual que nem" a minha irmã: pragmática. Sem medo de sangue, sem pavor de cheiro de remédio e assim por diante.
Cansaço. Olhos que não se fecham. Lágrimas que não vazam pela fenda.
Tudo ainda vai estar tolerável enquanto os meus períodos de massacre durarem apenas dias. Ou semanas. Ou melhor, enquanto eu ainda sentir aquele dispositivo interno de que há um prazo.
Mas... E se um dia esse pressentimento desaparece? Bom, ao menos e por enquanto, eu ainda sinto. Prefiro assim.
Carneiro em chinês: Yang Carneiro em Japonês: Hitsuji ( rritsudji ) Ordem de classificação: Oitavo Signo Correspondente: Câncer Número de Sorte: 2 Metal: Prata Pedra: Esmeralda Cor: Branco e prateado Erva: Rosa - branca Flor: Lírio Perfume: Rosa Planeta regente: Marte Polaridade: Yin Elemento fixo: Fogo Dia propício: Segunda - feira Horas governadas: 13h até 15h Estação do ano ideal: Verão Mês : Janeiro Direção: Sudeste
Yang (positivo): Sensível, imaginativo, receptivo a todas influências exteriores, bondoso e sempre disposto a ajudar os outros, fazendo com que esta pessoa tenha uma capacidade executiva, possui boa memória, trabalhe duro, e saiba gerenciar fundos, sendo paciente e perseverante. Tem disponibilidade para ouvir e atender com a mais completa atenção e muita imaginação .
Yin (negativo): Caprichoso ao extremo, podendo não realizar nada de produtivo e é muito receptor de influências negativas lua, fazendo com que seja uma pessoa possessiva, ciumenta, andando sempre a defensiva.
*** Feira da Liberdade - reminiscências da infância. Cheiro de tempura de camarão com Mupy (que, na época, chamava-se Mumy). Faz tempo que eu não vou, mais de três anos. E, da última vez que fui, achei bem diferente do que era na minha infância...
*** Minikimono - roupas, amuletos, enfeites... Pena que os adornos mais bonitos estejam apenas em exposição e não à venda...
*** P-dacinho do Japão - espaço virtual com algumas curiosidades sobre a cultura nipônica.
I used to be a lunatic from the gracious days I used to feel woebegone and so restless nights My aching heart would bleed for you to see
1-Oh, but now
I don't find myself bouncing home Whistling buttonhole tunes to make me cry
No more I love you's The language is leaving me No more i love you's changes are shifting Outside the words
No one ever speaks about the monsters
I used to have demons in my room at night Desire, despair, desire So many monsters (rpt 1)
2-No more i love you's The language is leaving me No more i love you's The language is leaving me in silence No more i love you's Changes are shifting outside the words
And people are being real crazy And you know what mommy? Everybody was being real crazy And the monsters are crazy. There are monsters outside (rpt 2, 2,...)
Do be do be do do do oh Outside the words
Annie Lennox - No More I Love You's
Esta música é linda. E o clip é ainda mais. Muito teatral. Muito lúdico. Muito bem trabalhado. Aqueles figurantes jogando pétalas de flores, a maquiagem...
Pena que eu não tenha achado as imagens pra colocar aqui.
Alguém que me leia e que também faça uso do fabuloso W.Bloggar, me responda: o problema é comigo ou realmente tá dando pau pra postar pelo programinha miraculoso?
Eu tento fazer com que os outros o façam. Por meio de frases ultrajantes e brilhantes e por meio de mil outros incontáveis artifícios: presentinhos nada louváveis, abraços fisicamente acalorados e por aí vai...
E é só o que eu tento dizer ao espelho, o putinho de sempre. Para mim mesmo.
Apaguei as luzes e aproveito um momento conveniente pra repetir Walt Whitman: "eu contenho multidões.". Numa citação acertadamente lembrada por Carpe Diem. E digo isso tentando não nutrir pretensões de me sentir especialíssimo, uma vez que todo ser que se preze tem esse sentimento de imprecisão da essência dentro de si.
Bom, em nome dessa escusa puída e agastada, eu hoje me machuquei. Procurei por e me fiz usar dos caminhos mais fáceis para tentar atingir uma pequena e indecifrável pérola proibida e misteriosa que se esconde entre um amontoado esfumaçado.
Crianças, desculpem-me. Eu tento foder a mim mesmo, mas, como um furacão, termino por levar todo meu entorno comigo pro meu buraco negro de segredos...
E sabe o pior? Sei que vou passar uns dois ou três dias me sentindo uma lagarta rastejante, mas, neste momento, eu estou adorando este encontro comigo mesmo. Estou idolatrando este momento. Em que tudo se dissolve momentaneamente. E em que estas cortinas de bons modos e de frases apropriadas e estudadas ao longo dos séculos revelam toda a sua faceta nojentamente hipócrita, falsa...
... Ah, amanhã, conversamos. Preciso-me sentir um pouquinho amante de mim mesmo, agora...
Post scritpum: alguém já notou que eu sempre coloco letras de música dando título ao meu "dear kitty"?
Não consigo parar de pensar nisso. E as provas disso não param de vir, aos borbotões.
Noticiários sanguinolentos. Buzinadas descorteses. Fechadas de ônibus inesperadas e cruéis. Comentários maledicentes, Gente fora do ar nas madrugadas, na tentativa de ter um pouco de paz, de buscar aquilo que se perde de dia, talvez para sempre... Parece que as bocas estão sempre buscando tragarem umas as outras!
*** Atendendo a pedidos - ou melhor, vendo alguma justeza neles - resolvi colocar um indicador do meu humor (cacofônico isso, hein?). E redargüindo a protestos em relação à natureza muito depressiva do meu dead aí do lado, eu apenas reproduzo a de sempre Clarice: "a gente morre às vezes.". E ponto;
*** O TK está indócil em seus redirecionamentos. Daqui pra frente, tentem usar http://marderosas.tripod.com.br. Isso, claro, enquanto me for permitido. Porque vários outros também já foram sumariamente expelidos do Tripod...
*** Incluí mais alguns endereços visitáveis, aí no menu esquerdo. Como isto aqui não anda exatamente um primor, sugiro que vocês, poucos leitores, vão-se divertir em outros lugares.
Recebi uma carta. Escrita à mão. Com letra de forma, decidida e reta em seus noventa graus. É incrível essa coisa, a de letras, a de pessoas e a de suas personalidades. A minha letra, agora, é caída pra direita, quase fluida, torrente. Talvez como eu seja. Uma época, eu tentei domá-la, colocá-la em formas exatas. Talvez, como eu tenha sido.
Mas eu estou-me perdendo... Há tempos eu não recebia correspondência em papel, em tinta e com cheiro de gente. E há tempos que eu também não escrevo livremente. Nas aulas não conta, porque, nesses momentos, eu estou apenas sendo um copidesque, reproduzindo o que o ser engravatado ou "entailleurzado" à minha frente está dizendo.
Hoje em dia, eu perdi a prática de escrever à mão. E me arrisco a dizer que eu tenho medo de fazê-lo. Porque, nessas circunstâncias, eu não tenho o direito de arrependimento do autor. Eu não tenho como apagar, como melhorar, como modificar qualquer coisa - qualquer tentativa nesse sentido vai ficar visível e clara nos borrões brancos do corretivo... É como viver, que é rabiscar sem borracha, quem foi mesmo que disse isso?
E eu também adquiri pavor de escrever à mão porque eu tenho o pleno sentimento de que os meus pensamentos ficam barrados pela lentidão dos movimentos dos braços. Até tentei fazer isso, na escuridão do hospital e tudo ficou um lixo. Tentei fazer de novo, no dia seguinte, quando cheguei em casa na madrugada precisando escrever um pouco. Mas estava tudo escuro e eu não podia ligar o computador, que eu tive de apelar pra velha dupla folhas de papel e caneta. De novo, não consegui...
Estranho. Houve um tempo em que eu escrevia cartas com tanta naturalidade. Eram pelo menos cinco por semana, em português e em inglês, endereçadas a diversas partes do mundo e que continham, além da descrição dos meus dias, boa parte dos meus pensamentos.
Enfim, não li a carta, ainda. Estou curioso. Pelo seu conteúdo. E pela minha capacidade de retribuir...
... E por que eu estou falando estas coisas sem sentido?
Sobrevivi ao hospital, a uma noite em claro e a uma leitura de Danielle Steel.
Sobrevivi a uma irritação doméstica, porque largaram a casa vazia pra se divertirem, enquanto eu estava bancando a infirmière (só faltou eu começar a falar na primeira pessoa do plural: "como estamos hoje?", "o que estamos aprontando por aqui?", "estamos com frio, não estamos?").
E, depois, sucumbi a algumas tentações.
E essa onda hai kai do que eu escrevo já está cansando a mim, que sou o único que, aqui, tem licença pra se cansar de alguma coisa.
Gosto da música; e, de fato, ela coincide com meu humor em boa parte do tempo. Mas como eu queria ter sido Not My Idea...:
(...) You thought I was a little girl You thought I was a little mouse You thought you'd take me by surprise Now I'm here burning down your house (...)
Detalhe: o little é pronunciado à moda britânica. Isto é, a mais chique e a mais correta!
*** Cortaram o pêlo da Pipoca. Ou melhor, tiveram de cortar, porque ela estava deixando rastros em forma de chumaço branco pela casa inteira. O veterinário disse que ela está "descamando", porque ela está deixando a "infância" pra trás. Bom, o que importa é que ela está totalmente tosada (é assim mesmo, que se escreve?). Parece um rato de laboratório, branco e pelado, um pouco maior. Eu a amo, ainda assim.
*** São Paulo não tem igual. Eu amo isto aqui, apesar de tudo. Em que outro lugar, ao menos deste país, você pode ter uma diversidade enorme? Em caso prático: saio do consultório de rattan e de vidro, encravado no meio de ruas de nomes parecidos e lotado de prédios comerciais em volta. Pra, logo em seguida, ir a um restaurante chinês exatamente do outro lado da rua. Não desses restaurantes frescos e ocidentalizados. Mas com decoração típica, administração familiar e etc? A mulher que nos atendeu, nativa, troca os érres pelos éles. Simpaticíssima, nos mostrou um livro que explicava como se fazem aqueles legumes todos enfeitados e esculpidos nas mais diversas formas. E, na saída, ainda ganhamos um panfleto evangélico. Eu adoro minha Babel!
*** Hospitais são horrorosos, ninguém gosta deles, eu bem sei. Eu, egocêntrico como sou, ainda acho que, no meu caso, o pavor natural é desmedido. E este lugar é muito deprimente. Literalmente, eu chorei de mal-estar quando cheguei ao meu carro. E acho que vou ter de dormir lá amanhã. Ao menos, a minha mãe está bem. Quer dizer, nem Madre Teresa ficaria confortável num lugar feioso como aquele. Mas ao menos, ela tá comendo Bis. E tá falando. E andando. Isso é bom, não?
*** Estou cansado. Não quis ir pra festinha de cerveja grátis. Por quê? Porque é durante o dia, no meio das ruas mais infectas desta cidade. Porque tem trio elétrico tocando axé. Porque tem muita gente straight, reta e chata, se encharcando de bebida e de droguinhas baratas e de mau gosto. E porque eu não tenho mais paciência com isso. Porque, talvez, eu esteja ficando velho e rabugento.
*** Como dá pra ver, meu humor está abissal. Dormi pouco, tive de ir ao banco às pressas pra enfiar um dinheiro na minha conta antes que meus cheques começassem a ser devolvidos (irresponsável, n'est-ce pas?). De quebra, pisei na lama quando estava entrando no meu carro. Tive de pegar uma mangueira no jardim pra tentar desfazer a melança.
*** Agora, estou aqui, chez moi, fumando e comendo um pouco. E pronto. Chega de querido diário.
Cerveja de graça na faculdade. Muita cerveja. Pouca comida no meu estômago. Companhias adequadas para o crime. Tudo isso em plena quarta-feira! É, o Massivo - aquele das gaiolas e dos beijos a três dos meus dezenove aninhos - agora está modernizado. Tem host nojento na porta segurando um cristal Cambé da vida, cheio de algum champagne do Rio Grande do Sul. Tem política Vila Bundolímpia de fazer fila na porta quando a casa está vazia.
< Desabafo mode on >
Bom, tudo começou a concorrer para o erro: o carro da minha irmã ficou preso naquele maldito e mercenário estacionamento. M. E., muito bondosamente (thank you sooo much!) rodando a cidade pra trazê-la pra cá. Pra ela pegar meu carro e rearranjar seu sistema de caronas. E, claro, teve meu pai me ligando no meio da noite e do barulho me ordenando a volta pra casa. E teve eu, já não tão normal (ou mais dono das minhas faculdades, dependendo do ponto de vista), redargüindo aos argumentos dele de sempre com os meus contra-argumentos de sempre. Sis não pode andar sozinha à noite. Eu não posso chegar em casa porque as outras aqui ficam com o sistema nervoso em frangalhos. Sis podendo fazer o que bem entende, como chegar em casa de suas raves ao meio-dia do dia seguinte, como trazer, literalmente, São Paulo inteira pra minha casa e nunca recebendo qualquer reprimenda. Aquelas histórias de sempre, já muito desgastadas, mas que são sempre esbravejadas em alto e bom som, para que não se perceba a sua mesmice e a sua inutilidade.
Eu já decidi: me fartei de chegar em casa pra vê-lo toujours de mau humor, porque ele anda cheio de complicações na vida dele. Já me fartei de vê-lo se martirizando, de ficar escoando as suas preocupações que, sendo basicamente as mesmas que as minhas, não precisam ser tão insistentemente esmiuçadas nessa repetição odiosa.
Bom. depois de três horas, tudo se resolve. É sempre assim. Do pranto, sobrevêm a calma e o entendimento. Mas isso sempre leva três horas, com todo mundo já esgotado e indo pra cama com o Sol raiando. E eu não quero gastar três horas sempre, porra! Vou pensar nisso depois. Au revoir.
Parabéns a estes que, neste país, são heróis. Cujas vergonhosas condecorações, aparecem ao final do mês, na forma de um mísero coupon que, muitas vezes, mal dá pra fazer a feira.
A meu pai, que exerceu com maestria esta árdua tarefa por mais tempo do que a sua saúde permitia e a todos aqueles outros que conseguiram me ensinar um pouco sobre a vida, verdadeiras e sinceras congratulações!
*** Coisas impublicáveis acontecendo por aqui. Nem da minha vida, diretamente. Minha mãe vai operar mesmo. E eu sinto estar sendo tragado pra um furacão que esteve sempre próximo a mim e do qual eu também sempre mantive distância cautelosa. Um mar fundo no qual eu nem me atrevo a molhar meus pezinhos.
*** Ninguém se deu ao trabalho de me enviar o atestado de number of the beast. Acho que o desavisado era (mais) uma besta, em sentido literal, que entrou aqui procurando por Lolitas...
*** Faltei às aulas hoje. Acordei tarde e totalmente inebriado. Dizem que sonhos só estão autorizados a deixar o nosso secreto e recolhido âmbito interno nas sessões de psicoterapia. Como a proposta disto aqui sempre foi a de ser uma extensão do meu divã na avenida-com-nome-de-pássaro, vou contar o que se passou no meu estado de REM esta noite. Ou melhor, vou tentar recontar aqueles pedaços fragmentandos... Sonhei esta noite que eu estava batendo meu carro novinho em folha. Que eu o peguei pela primeira vez totalmente bêbado e que eu não estava conseguindo-me adaptar às novas marchas. E que, depois, eu recebo a notícia de que eu estava morto há tempos, vivendo numa ilusão paralela bem ao estilo d'Os Outros.
*** Levantei totalmente entontecido, às quatorze horas. Demorei outras duas mais para sentir que eu não estava vivenciando um filme em câmera lenta. Algum especialista em interpretações oníricas pode-me informar o que tudo isso significa?
*** O meu telefone não pára de tocar. Sim, as mesmas short messages. Ao menos, a caixa postal continua lotada e assim vai ficar até quinta-feira. Eu não estou com a mínima disposição pra me "retratar". Aliás, acho que eu nasci sem esse dispositivo que nos impele ao desmanche em desculpas e em justificativas.
Fui jantar com a minha mãe hoje em tradicional pizzaria. No meio daquela multidão toda que emitia aquela barulheira quase contida de famílias quase refinadas, percebo que ela está apavorada. Tem de se submeter a uma cirurgia, delicada e horrorosa, na coluna cervical.
Fiquei direito sem saber o que dizer e sem saber o que dizer. Fiquei sem saber merda alguma mesmo. A cara idiota e embasbacada. As mãos e os olhos que não conseguem fazer qualquer movimento. Catarse. Que se agravou ainda mais quando ela começou a dizer que tínhamos - em caso de qualquer emergência - procurar as malditas apólices e buscar as malditas participações de lucros na loja. As malditas providências.
Onde está a minha tão alardeada intuição canceriana, nestas horas?
Quebrei as últimas lascas de taquara da minha frágil gaiola. Precisei de um pouco de ajuda externa para tanto. M. E., Menina Carol, sua amiga quietinha e honônima da minha sis. E, claro, a santa vodka.
Saí de novo. Não para os programinhas de sempre, que estavam-se resumindo à mornidão das salas escuras de cinema, ao contido dos salões de restaurante e afins. A UltraLounge continua igual. Aquele house comercialíssimo, mas que, ainda, consegue reproduzir um pouco das minhas batidas do coração. Aquela música que, ainda e sempre, me concede os preciosos momentos comigo mesmo. Não é engabelação, mas a pista de dança é um dos meus santuários personalíssimos. Foi nela que eu tive minhas primeiras bebedeiras. Foi nela que eu aprendi a, literalmente, fechar meus olhos e mandar aquele grandessíssimo, necessário e desejado foda-se ao mundo.
Drugs free. Quer dizer, as ilícitas. Algumas pessoas não acreditavam. Acho que eu tenho de dar razão aos mil conselhos que eu sempre ouvi de que eu não precisava daquelas substâncias laboratoriais e cheias de siglas e pseudônimos para sorrir e para aproveitar a música. É que está tudo dando tão certo para mim - que embora eu esteja-me baseando nos aspectos mais banais e materiais para dizer isso - que eu não posso estragar tudo. Não agora.
Crianças, obrigado. Obrigado a muita gente. E àquele alguém invisível.
Lyrics for the invisible, ideal and the-one-who-only-lives-in-our-dreams man...
Cuttin' through the darkest night in my two headlights Trying to keep it clear, but I'm losing it here to the twilight There's a dead end to my left, there's a burning bush to my right You aren't in sight, you aren't in sight
Do you want me, like I want you? Or am I standing still, beneath the darkened sky? Or am I standing still, with the scenery flying by? Or am I standing still, out of the corner of my eye? Was that you passing me by?
Mothers on the stoop, boys in souped-up coupes on this hot summer night Between fight and flight is the blind man's sight and the choice that's right I roll the window down, feel like I'm gonna drown in this strange town Feel broken down, I feel broken down
Do you need me, like I need you? Or am I standing still, beneath the darkened sky? Or am I standing still, with the scenery flying by? Or am I standing still, out of the corner of my eye? Was that you passing me by?
Sweet sorrow is the call tomorrow Sweet sorrow is the call tomorrow
Do you love me, like I love you? Or am I standing still, beneath the darkened sky? Or am I standing still, with the scenery flying by? Or am I standing still, out of the corner of my eye? Was that you passing me by? Are you passing me by? (Passing me by) Do you want me? (Passing me by) Do you need me, like I need you too? And do you want me, like I want you? Are you passing me by?
Jewel - Standing Still
Tudo muito interno. Escondido em entranhas que nada consegue desbravar... Já dedicaram letras, poemas, e escritos - enfim toda a sorte de palavras - a homens reais e, portanto, não merecedores de tanta dedicação?
Uma vez li sobre o mito do Homem Embaixo da Cama... Aquele que adormece no quase-sempre, para só despertar nos sonhos... Sonhos de olhos fechados, entrefechados ou até abertos... Mas, neste último caso, sempre e somente por estímulos artificiais...
Ah, o que se convencionou chamar de lucidez derrete a Verdade. Para o bem da espécie humana. Certos alçapões não podem ser abertos...
"(...) There's a dead end to my left, there's a burning bush to my right (...)"
Jewel
Os dias. Como eles têm sido quentes. Derretendo tudo. As bases fluidas e os perfumes inebriantes que escondem tantas imperfeições. O material mole e sensível de que é feita a nossa razão. O pensamento fica ainda mais embargado, confuso, impreciso. Aqueles calorzinhos que se agasalham na lã grossa e que por ela são calados agora têm passe da Natureza para deixar o receptáculo de frágil carne. Para exigir a liberdade insistentemente negada. Adormece a Madre Superiora. Desperta A Libertina.
Dei vazão ao meu instinto mais primal. Aquele que até hoje só é discutido aos murmúrios; podem berrar, mostrar, fotografar e filmar, vocês não conseguem compreender tudo. Mas eu me engano, de novo: esse instinto aflorou porque assim tinha de ser. Eu tenho essa desculpa. O calor. A escolha que não partiu de mim. Tudo foi muito além das minhas forças. Foi por isso que eu troquei mensagens nesta tela luminosa. Foi por isso que eu falei ao telefone frivolamente. Foi por isso que eu conheci pessoalmente. Foi por isso que eu mal me vi saindo de um restaurante morno pra um quarto oriental e incensado.
Me olhei no espelho mais detidamente. Vi um pequeno brilho espalhando-se sobre mim mesmo. E agora não sei lidar com isso. O bichinho prateado berra e vibra há dois dias. Eu tento silenciá-lo. Modo silencioso. Mas o putinho, este coraçãozinho pulsante, me exibe mensagens, me atira avisos, me adverte. Me cobra...
... Algo precisa ser feito. Sou um infantilóide. Ventríloquo que perdeu o domínio sobre a sua marionete...
Eu já disse que adoro gatos, não é mesmo? Só que eu não sou dado ao radicalismo antagonizante que divide as pessoas entre as que amam gatos e que, por isso, têm a obrigação necessária de desprezar os cães. E vice-versa. Eu acho esse tipo de reducionismo - aliás, como toda simplificação absoluta - idiota. Incompleta. Venero gatos e cães ao mesmo tempo, num sincretismo entre extremos que me facilita o caminho para a Verdade.
Mas nem sempre os felinos estiveram nas minhas graças. Muito pelo contrário. Acreditei, por longuíssimo tempo, naquele pensamento maniqueísta e irretocável de que os gatos são maus. Insidiosos. Arrogantes. Indesejavelmente escorregadios. O Chiquinho - meu primeiro e até agora único gato - veio-me provar o contrário. Altivos? Sim. Só vêm a nós quando interessa; mas não são traiçoeiros nem vis a ponto de se achegarem apenas quando querem comida. Indolentes? Muitíssimo. Dormem o dia inteiro; e, mesmo quando acordados, os olhos estão quase sempre entrefechados. Filtrando a luz e o todo o ao-redor, num processo minucioso de seleção. É, eles são muito seletivos. Querem o bom e o melhor e são fidelíssimos a este propósito de vida.
E eu me senti muito honrado por ter sido o eleito do Chiquinho. Logo eu, o desleixado, tão longe da posição de mãe-pai-formalizados. Eu, que nunca daria e de fato nunca lhe dei comida e nem limpei os seus discretíssimos rastros de sujeira. Mas fui eu. Era a mim, e só a mim, que ele esperava ao pé da escada. Era a mim, e só a mim, que ele recorria, elegantemente, nos seus momentos caridosos de comunhão com os bípedes desajeitados. Era a mim, e só a mim, que ele dirigia seus olhares semidiretos mas certeiros. E era a mim, e só a mim, que ele emitia seus miados, exigentes e carinhosos.
Fui o mais um escolhido para ser iniciado nesta casta única dos que amam os gatos. Um privilégio de poucos e que independe da nossa vontade. Porque são eles, os gatos, que escolhem aqueles pelos pelos quais serão amados. Então, o ingresso neste mundo é unilateral; o convite parte deles, nunca de nós. Uma vez para lá sugado, é para todo o sempre... Ah, eu espero que todos um dia sejam agraciados com essa experiência. O mundo seria muito melhor se todos detivessem uma centelha da imensidão d'O segredo de amar os gatos...
E estou esperando a permissão para ser reconduzido a este restrito universo. Estou esperando que um outro gato, sutilmente como só lhe cumpre, me acene e me sussurre: "venha". Enquanto este momento não chega, me cerco dos ídolos falsos. Há umas três semanas, três espécimes de madeira de Bali repousam sobre os meus mistérios de Clarice Lispector.
Eu estou funcionando de um jeito muito estranho. Há dois dias, eu durmo apenas por três horas. Acordei às 3h e ainda estou acordado. Merda de verão. O pior é que eu passo esse tempo todo improdutivo, sem fazer absolutamente qualquer coisa que preste.
Metas da semana.:
*** Pagar o restante da formatura - antes que eu seja expulso e me forme sem colação de grau e sem baile...
*** Ir ao oftalmologista urgentemente - acho que estou com mais de três graus de miopia...
São coisas tão simples, mas nem isso eu faço. Que horror.
Estou morrendo de calor. O ar do meu carro ainda tá quebrado e eu não tenho tempo / saco de trocá-lo. E eu ainda fui presenteado com uma verdadeira fila- da-pobreza-do-sopão bem no meio da Radial hoje. Por quê? Três acidentes, com muita gente estúpida parando pra olhar e atrapalhando ainda mais o fluxo. Como isso me enerva! A máxima inglesa do don't stare deveria ser urgentemente implantada na nossa cultura.
E hoje ainda teve prova. O barco viking virou sauna turca e eu dei as respostas mais idiotas em uma página e meia. Posso arriscar que esta foi uma das provas mais picaretas que eu fiz nesses quase cinco anos. Ou melhor, nesses quase vinte e quatro, mesmo.
E estou uma bosta por causa desse tempo, como dá pra ver. Acho que as minhas proteínas se desnaturam acima dos trinta graus.
Muita gente já veio dizer que eu não posso e que eu nem devo votar no PT. Porque eu ando arrumadinho demais. Porque eu uso perfume importado. Porque eu moro numa casa relativamente legalzinha. Enfim, porque eu levo um estilo de vida por demais bourjois. Ainda que, ultimamente e como todos, aos trancos e barrancos.
Pois bem. Nem vou entrar no mérito do quão rasa, equivocada e falaciosa é essa linha de pensamento. Até porque eu mesmo já disse que o fato de ter tendências socialistas (no sentido de primar sobretudo pelo social) não implica a necessidade de se vestir feito um adorador de reggae, esmolambento e maconhado. No começo, eu ficava meio perplexo com esses ataques, até que a minha genial irmã me deu a idéia de redargüir a essas besteiras com uma outra: se a Marta burguesíssima e quatrocentona pode envergar seus Madame Chanel, por que eu não usar os meus logotipos? "Sou do PTfashion", é a resposta.
Mas a verdade, naturalmente, nem é bem essa. Reconheço que hoje eu tenho uma vida realmente confortável, embora na Europa, nos E.U.A, no Japão, na Austrália e em todos esses países top class, a minha vida seja considerada bem mediana. Ocorre que toda a minha família, de ambos os lados, veio da mais profunda pobreza.
Meu pai mesmo não se cansa de repetir a dureza que ele sofreu. De viver de aluguel. De ter de renovar periodicamente os seus empréstimos na biblioteca da universidade porque ele, simplesmente, não tinha como comprá-los. De ter de se virar com uma muda de roupas que se reduzia a duas camisas, a uma única calça e dois pares de meias.
Pode parecer chavão, mas ele, como todo o resto da minha família, realmente suou como um mouro pra conseguir este pouco de hoje. E pra quem fica pensando que japonês é nerd inveterado que já nasce com a vida pronta, eu conto que, quando os meus avós moravam no interior do Estado, eles eram constantemente xingados de nazi-fascistas, simplesmente porque o Japão estava alinhado à Alemanha na Segunda Guerra. O meu tio-avô, já residente da capital, nem podia tomar bonde porque ele era simplesmente expulso. Para vender as suas verduras, ele tinha de caminhar de Santo André até a Vila Formosa.
E meu pai foi professor do Estado. Viu, de perto e por exemplo próprio, toda a defasagem da educação como um todo neste país. Viveu com a ditadura oligarquista e empoada carcomendo tudo quanto era direito básico de qualquer um. Ele lutou pelas Diretas Já. Me mostrou sempre - e, depois, eu mesmo me dei conta do que ele me apontava - que PSDB's e afins (coloque muita coisa neste balaio de gatos) apenas manteriam este mesmo sistema injustíssimo e vergonhoso. Apesar de, inicialmente, eu ter sido de certa forma "doutrinado" pelas orientações políticas do meu pai, eu pude, depois, perceber o quão corretas eram as lições dele. E, vejam, eu divirjo muito do meu pai em inúmeros assuntos.
Pra encerrar, eu faço minhas as palavras do Chico Buarque (de quem, aliás, nem gosto tanto assim):
"Sempre fui Lula, desde 1989. É Lula e pronto. Nem quero falar mais para não atrapalhar.". Chico Buarque de Holanda, compositor
E o último aviso, o de sempre: se for pra constestar o conteúdo este post, nem se incomode. Novamente, eu não arredo um único milímetro.
O que eu conheço é uma série de fatos e de adjetivos que foram cuidadosamente escolhidos e que foram impiedosamente dados pelos de cá. Não posso culpá-los. Mas não posso aderir cegamente a uma verdade parcial.
O caminho da auto-redenção, aquela de fazer as pazes consigo mesmo, começa com as tentativas de atar as pontas da vida. Bentinho e tantos outros tentaram fazer isso aos quarenta-ou-mais anos, para depararem com fragmentos desunidos e impossíveis de união.
Eu não vou, eu não quero e eu não posso fazer o mesmo.
Finalmente, li a obra que, há tempos, ocupa firmemente o status cult. O livro que inspirou o assassino de Lennon, o livro que é, simplesmente, o queridinho de uma porção de pessoas razoavelmente respeitadas. Mas, devo confessar: me senti um pouco frustrado. Sem dúvidas, há exemplos, metáforas e idéias belamente tocantes, como a que dá o título do livro. Que, certamente, revolucionaram uma época e foram imprescindíveis para formar uma geração.
Talvez essa decepção deva-se ao fato de eu ter lido numa idade já avançada, o que faz com que eu tenha uma idéia, em bom sentido pejorativa, de que o livro é demasiadamente pueril. Americano demais, como a torta de maçã. E eu não consigo desassociar o livro da música American Pie (a original, do Don McLean). Sei que tem pouco a ver, mas acho que é pelo sentimento melancólico e ianque das duas peças artísticas. E da constância, em ambas, embora em sentidos direrentes, da palavra rye.
À parte dessas reservas, é um livro que deve ser lido. Especialmente aos doze anos. E, se possível, em inglês, porque a tradução está muito medíocre, com erros vergonhosos.
Trocen foi uma corruptela - inventada pela minha irmã e depois amplamente utilizada como linguagem cifrada no meu restrito meio - pra designar o Centro Velho aqui de Sampa. Um lugar que sempre esteve muito próximo de mim - a menos de dez minutos de casa e bem no meio do caminho pros meus pecadilhos. E, ao mesmo tempo que tão próximo, era lugar igualmente inalcançável, proibido e desprezado. Ao menos, assim me doutrinaram e assim me condicionei a acreditar, desde as minhas primeiras incursões na vida noturna queer de São Paulo. "Não é pro seu nível" e outras preciosidades do gênero...
Eu e Solange sempre sentimos muita vontade de conhecer aquelas paragens. Curiosidade mórbida, antropologia torta, o que seja. E ontem resolvemos cumprir aquela promessa distante de que um dia faríamos isso, juntos. Mais um passo no nosso desbravar desta cidade tão grande e que abriga tantas variedades. Eu adoro os meus lugares habituais, mas tenho percebido que, além de não estar pronto pra revisitá-los, é preciso se consientizar, na prática, de que há um mundo fora das minhas muralhas.
Impossível deixar de fazer as comparações óbvias. Por exemplo, lá é tudo muito escuro, em alguns bares mal se podem divisar as silhuetas dos freqüentadores. Os lugares são todos muito mal acabados: móveis simples, sem a assinatura de arquitetos descolados e exclusivos. E não se vêem carros de último tipo descendo e/ou entupindo as ruas, porque os transeuntes desmotorizados são maioria absoluta. E tampouco se vêem logotipos de marcas conhecidas, de talhe perfeito no corpo. Não, não, nada disso. Afinal, o Centro está para os Jardins assim como o México está para os Estados Unidos.
Mas o que eu achei mais interessante de tudo isso é que essas divergências são apenas aparentes. Os denominadores que importam são igualmente comuns a ambos os redutos. O exemplo mais latente é que o desespero de não voltar só pra casa é o mesmo. E isso ocorre, muito provavelmente, de um modo consideravelmente mais sincero no Centro. Lá, as pessoas flertam mais abertamente, olham com mais vagar se o outro lhes interessa.
Orion Club - parênteses necessários
O ponto alto da noite, contudo, não foi nos lugares rainbow. Duas pequenas doses em dois lugares diferentes já nos deixaram atrevidos o bastante pra conhecer um lupanar. Não, esse termo é muito eufemístico: aquilo era um puteiro mesmo. E dos mais fuleiros: pôsteres gigantes e rasgados de mulheres em posições muito francas, e ingresso a sete reais. Orion Club, se não me falha a memória, um lugar que até então eu só conhecia das revistas e dos livros. Um lugar em que eu jamais pensaria em entrar, conforme voz da minha altissonante natureza burguesa.
Ar de cinema decadente, com suas paredes descascadas e com suas mesinhas de quinta categoria. Cadeiras tão puídas e suspeitas que eu juro que espanei a minha umas duas vezes antes de sentar; eu poderia até engravidar!. E o palco, ah o palco: enfeitado por arvorezinhas de papel crepom, uma alusão nefasta a alguma pecinha nada infantil que se encenava lá. Mulheres nuas em pêlo se contorciam ao som das músicas mais tenebrosas (me lembro de uma versão poperô de Time After Time da Cyndi Lauper). E que estavam lá pra servir à meia dúzia de gatos pingados, que enfiavam os dedos e as bocas em tudo quanto é canto íntimo daquelas que nada mais eram que corpo.
Não pude deixar de pensar na mocinha d'A Confissão de Leontina, um dos meus contos preferidos da minha mais-que preferida Lygia Fagundes Telles. Tal como a protagonista do conto, aquelas moças não caíram na vida. Elas já nasceram caídas neste turbilhão, sem direito a qualquer outro tipo de escolha. Certamente, elas não conseguiriam sequer comer só com aquelas dancinhas, já desgradantes per si. O trabalho tinha de prosseguir, se estendendo dos limites daquele tablado. É muito instantâneo e instintivo, pra todos nós, atestarmos a simplicidade e o comodismo embutidos na "vida fácil". Afinal, ninguém aqui nasceu na pobreza, sem dentes e sem leitura.
Denúncias sociais e clichês à parte, preciso fazer outro adendo. Embora muitos dos "clientes" realmente ostentavam seu triste status de não poder recorrer a outros artifícios que não a ida sistemática a clubes como aquele para obter satisfação, havia outros que nos deixaram atônitos. Meninos realmente bonitinhos, que fariam sucesso em qualquer Vila Bundolímpia (ah, minha irmã é ótima em definições). Arrisco dois palpites: ou eles têm algum defeito funcional sério (impotência, disprivilégio proporcional da natureza, mau hálito crônico) ou alguma necessidade estranha de auto-afirmação.
E eu nunca fui tão assediado em toda a minha vida. Nem quando passava pelos michês do Trianon. Levei apertão de nariz, fui fulminado por olhares lascivos. E acabei conversando com uma moça muito insistente. Em dizer o quanto eu era bonito, em propor uma fantasia a trois e em externar a sua indignação quanto ao fato de ela não poder oferecer o que eu quero. Leontina contemporânea, as histórias se repetem...: vinte e dois anos aparentando trinta (e, em termos de carga emocional, realmente, significando milênios), absolutamente desiludida e descrente...
Saí de lá já trôpego e a tempo de encontrar com a criança-hype... E de ter uma boa conversa tranqüilizadora sobre os rumos do meu futuro. Só espero que eu não tenha irritado demais; minha ebriedade me deixa sempre meio psicótico, no sentido de falar e de rir compulsivamente...
Sei que tenho deixado você totalmente de lado. Eu tenho até tido uns repentes de vir aqui, falar e falar, ou melhor, escrever e escrever. Mas me sento à frente deste micro e não consigo. Passo pelos alguns blogs de sempre, fico trocando mensagens nos programinhas adequados. E ponto. Sei lá o que se passa comigo nesses dias...
O fim de semana. Qauntitativamente, foi agitado: muitos programas, poucas horas em casa. Vi dois filmes na sexta, depois de ter fugido das aulas. A Paixão de Jacobina e Jalla! Jalla! foram os escolhidos desta vez. Ruim e bom, respectivamente. Até teria um ímpeto de me furtar de comentários, mas, como esta porcaria ainda é minha, eu vou falar. Jalla! Jalla! é sueco e é despretensioso. A trama é, basicamente, um romancezinho açucarado e cômico à la Costa Oeste ianque. Mesmo assim, mostra um pouco da realidade de natureza multi-étnica que toda a Europa adquiriu. E o ator que interpretou o Mans (será assim, a escrita?) é um nórdico bem interessante, eu diria. Agora, A Paixão de Jacobina é uma merda mesmo. Letícia Spiller é uma atrizeca de um papel só (Babaloooo), que se limita a fazer a mesmíssima cara de nada o filme inteiro. Custo a acreditar que aquele filme realmente tenha sido orçado na cifra astronômica que disseram.
E depois, fui até o Allegro. Aquele lugar está às moscas. Não se deve visitar os lugares onde bons momentos foram vividos, a não ser que se tenha certeza de que o brilho de outrora não foi perdido, aprendemos esta lição. Um DJ limitava-se a trocar discos ao agrado do clube da terceira idade que rondava o lugar, e as duas doses que eu tomei foram mais-que suficientes pra amplificar o estado deprimente do lugar. A ponto daquele baixo-astral todo começar a tomar conta de mim e do meu interlocutor. E toda a Consolation também estava vazia. Pode ser a crise econômica fazendo eco até no meio dos queers, estes que são os últimos a deixar as aparências caírem, não é mesmo?
E, no sábado, fui conhecer o Tostex. Sou atrasado, eu sei que o lugar nem é mais tão hype quanto no começo. Mas prefiro assim. Menos gente, menos pretensão e mais ar pra eu respirar. E a bebida é baratinha! Tão baratinha e tão forte que, dois copos depois, decidi arriscar uma baladinha no tão falado Cambridge. E fui cumprimentar a hostess, porque eu já tinha bebido um pouquinho e porque eu perco meus rígidos limites de boa conduta quando estou neste estado. E eu também tirei fotos (ui, e não é que ficaram boas?). Dançamos músicas francamente trash e que dão razão ao nome da noite. Tudo muito descontraído, eu nem precisei e nem quis-me encharcar de álcool. Mas, ao mesmo tempo, vi, rapidamente, o que eu tenho feito com a minha vida, e o que têm-me feito fazer com ela.
Porra, eu ainda sou jovem, externa e internamente (apesar do amargor todo que eu sempre deixo vazar!). Não vou ter filhos, o tempo vai passar mais rápido pra mim do que praqueles que vão constituir família, porque eu não vou, seguramente, me ver às voltas com um bando de fedelhos e nem com a necessidade gritante e urgente de encher a boca desses rebentos. Não vou ter qualquer outra coisa pra ocupar a minha mente e meu tempo. E eu tenho uma natureza vivaz. Preciso ter, ao meu redor e com razoável freqüência, luzes que piscam, gente pulsando. Preciso desesperadamente do não cotidiano.
Mas claro que a minha necessidade é muito terrena aos mil olhos alheios, incluindo os meus próprios, sempre vigilantes. Então, é claro que eu briguei com o meu pai assim que cheguei em casa. Ou melhor, ele já começou a monologar em voz alta ao telefone, antes. Eu até pensei em armar algum circo de falsidades, em inventar desculpas, em sumir, enfim, em fazer qualquer outra coisa que não retornar pra cá. Mas, depois de uma outra conversa telefônica, vi que não podia fazer isso. Eu tinha de enfrentar, sem me escudar em desculpas de cansaço físico e de ebriedade. Porque eu nem estava tão exausto e porque eu não estava tão bêbado. Porque isso tudo é apenas desculpinha escapista. E porque são essas mentirinhas medrosas que eu mal consigo inventar que fazem com que eu vá ficando preso numa teia nojenta.
Ele quer que eu continue em casa. Em tempo integral; ou melhor, em tempo máximo pra que todo o controle possa ser exercido. Ele quer, ele quer, ele quer. Ele quer tanto que, mesmo que eu pudesse adivinhar suas vontades por um átimo de segundo, essa pajelança seria inútil. Porque, provavelmente, as exigências dele não compatibilizariam com o que eu quero nem o que eu posso oferecer. E porque as idéias dele são de uma inconstância totalmente imprevisível. Ao mesmo tempo em que ele não quer mais que eu saia daqui, ele vem reclamar que eu gasto dinheiro e tempo demais com o "diletantismo" da minha literatura, enquanto eu deveria estar engolindo livros jurídicos.
Ah, como eu dizia há pouco, somos todos grandessíssimas esfinges esfumaçadas por mistérios incompreensíveis. E, antes que nos decifremos, lá estamos todos, nos devorando. Autofagia. Enfim. Desvairios meus. Mais deles...