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Acho que tenho escrito pouco. Ou melhor, tenho escrito com pouca freqüência. Isso porque os dias continuam daquele jeito, cheios de ocupações e de programas que me arranjam e que eu me arranjo, e assim eu vou desativando - ou freando só um pouco e temporariamente? - as engrenagens que movem aquela oficina demoníaca que habita a cabeça de todo mundo. A minha vida pós-Natal continua assim - muitas saídas e muito pouco tempo em casa. E poucas horas de sono, também.
Estou virando habitué do Hertz. Na sexta-feira, resolvi-me dar uma chance e decidi conhecer uma pessoa aí que já constava da minha ista da florzinha. E foi... Foi não sei o quê. Ele é bem bonitinho, os olhos azuis de um claro que se vê pouco. Mas o beijo não encaixou - eu só me via pensando, já um pouco diáfano pelo álcool, em como eu era um menino mau por não me esforçar. Não me esforçar, oras! Eu que vivo dizendo e pregando para os meus amigos, ávidos e desesperados por um relacionamento, que nós bastamos por nós mesmos, que os amores vão como as ondas e que ficamos, no fim, só nós, os rochedos. Eu, então, pensando dessa forma, me desculpando por desgostar? Pensando como uma mulherzinha submissa e que precisa, sistematicamente, agradar aos outros?
E passou. Não precisei gostar, não gostei mesmo e fim. Ponto. Ao menos, por enquanto. Graças a Deus, não estou em uma fase carente - ou melhor, talvez eu esteja mas eu ainda consiga mascarar bem - e, então, pude dizer adeus e não, sem qualquer tipo de remorso ou de cobrança. Finalmente.
E no sábado, ontem, fomos eu, menina Carol (que agora não tem mais link publicável) e o Senhor Carpe Diem tomar um sorvete na Fredissimo (grafia correta, I hope e sem link porque não estou com paciência de "googlar").
E depois M.E. voltou do RS com as baterias e o estoque etílico recarregados. E fomos ao Hertz e à Ultra. Bebidas, bebidas, bebidas que não me caíram tão bem porque eu tinha-me esquecido da máxima de que não se bebe de estômago vazio. E Gayleria. E casa.
Feliz Natal pra você também, minha companheira de mais de um ano! Eu andei bem ausente daqui, não é mesmo? Talvez porque eu tenha apenas... vivido. Um pouco mecanicamente, quem sabe, mas novamente quem sabe eu esteja apenas repetindo o vício de ver defeitos em tudo... A única certeza é o nada. Bom, o que eu tenho feito é passar pela seqüência dos dias, eles que têm sido tão felizes! Sim, eles têm sido felizes. E eu tenho passado por esses dias do único jeito que eu concebo - reagindo com felicidade, com euforia, apenas sentindo. Mas eu também tenho constatado e descoberto, provavelmente mais do que antes. Acho que deixei um pouco do amargor e do espírito crítico - esses que estavam vindo em demasia - de lado. Minha ausência - ou quase-ausência, que só não foi completa por causa dos meus escritos minimalistas - pode ter fundo no medo. O medo de falar da felicidade, porque assim eu acredito que ela pode evaporar, sair correndo, arredia como ela sempre foi pra mim e para todos, como diz aquela musiquinha tão melancólica que eu não sei cantar agora. Ah, sei lá!
O que eu sei é que eu queria poder contar dos meus últimos dias, em que aconteceram tantas coisas - os ritos de passagem e formais que eu antes considerava cafonas e desnecessários, esses ritos dos quais eu acho exatamente o contrário agora - mas acho que tudo que eu dizer não vai ser o tudo, entende? Não, não precisa entender, só preciso escrever um pouco. Sem corrigir, sem olhar as vírgulas, sem ter a tentação de cortá-las e de trocá-las pelos definitivos pontinhos. Só quero ir deixando as palavras escorrendo, do jeito que a abelha faz mel, não é? Ah, talvez eu só precise digerir mais tudo o que se passou. Mas, de qualquer maneira, vou tentar recontar o que tem acontecido comigo. Talvez, para entender melhor - escrever ainda é o meu modo mais barato e mais eficaz de me colocar alguma ordem, de me ter. E, com certeza, para poder segurar um pouco de tudo o que tem acontecido, capturar. E claro, com tudo isso, reabrir o meu espírito "querido diário", que andava um pouco em baixa...
Na sexta-feira, dia vinte de dezembro, teve a colação de grau. Do que me lembro? Foram tantas coisas, tantas mesmo, eu queria ter um gravador ou um caderninho à mão, assim eu de vez atestaria minha sandice obsessiva e assim eu também conseguiria capturar mais das coisas. Porque o melhor de um momento é o depois. As relembranças, não é? Minha Clarice, talvez, disse um dia que ela gostava de viver um momento só pra ter saudade dele depois.
Pois bem, do que me lembro agora, da minha colação de grau? Me lembro de ter passado seis horas no carro, porque eu tive de ir ao "ensaio" na parte da manhã. Me lembro, também, do meu péssimo humor, agravado pelo calor. De um almoço no America do Shopping Morumbi - os preços têm subido tanto, não é? Das brigas com a minha mãe, que com a sua neurose com a pontualidade, estava-me levando (ainda mais) à loucura.
Mas o que ficou mais de tudo isso foram as outras coisas, as que eu categorizei como piegas por tanto tempo. O garoto do meu ano lutando contra "aquela doença", a que dá nome a meu signo de que as minhas tias ainda falam em voz baixa e com os olhos enviesados, "aquela doença". Que lhe tirou os cabelos, que lhe tirou o contorno trabalhado da academia, que lhe tirou o viço. Mas que não lhe tirou a determinação. Os discursos. Tantos. Aprendi que não sou bacharel em direito, eu sou bacharel na "arte da convivência humana". Que agora eu faço parte de uma categoria de pessoas que sabem o que não podem e o que devem fazer.
Óbvio? Com certeza. Mas verdadeiro. Por mais que eu tenha detestado o curso, por mais que eu não tenha me identificado com as cadeiras de toda a sorte de direitos, eu aprendi, de fato, a conviver com os outros. Mas, pensando melhor, acho que esse domínio da "arte da convivência" veio principalmente por eu ter tido, pela primeiríssima vez, contato com a tão dita divesidade. Deixei um colégio uniforme em seus olhos puxados e em suas provas iguais e em suas atribuições de notas criteriosas (só citando três exemplos) para entrar no grande prédio antigo em que consenso era palavra de longe. Tantas gentes. Gente vinda do interior, gente Tradição Família e Propriedade, gente endinheirada e empolada em seus quatro ou mais sobrenomes. Bom, mas a diversidade era apenas aparente - da minha rebelião inicial, eu fui vendo que, no fundo, nem somos tão diferentes assim. A loucura e a fome de alma nos nivela. E, um pouco, aprendi a conviver com a diferença - ou, talvez, de saber o que eu não quero e não posso ser. Pela exclusão do critério residual, estou dando os primeiros passos para mim mesmo.
Sim, hoje eu quero devanear bastante, só ir batendo nestas mesmas teclas de sempre, abusando das vírgulas e de mim mesmo. Só quero isso. Só preciso disso. Então, teve outras coisas, como as milhares de fotos que eu tirei com todo mundo, como os confetes que vinham dentro do canudo falso e bonito que ainda não é meu diploma de verdade, esses confetes que eu joguei bastante no cabelo dos outros, subindo nas cadeiras e desobedecendo às moças aparvalhadas da organização...
E também ganhei meus presentes simbolizando a minha nova fase. O novo carro, prateado e de senhor, e mais avolumado e nada esportivo. E mais adequado à minha nova condição, talvez? E, cabalisticamente (sim, eu tenho uma implicância seríssima com os números, o meu carro anterior tinha um monte de quatros na placa, o número do azar, da morte), a placa terminando em 9803. Noventa e oito, meu ingresso na faculdade. Zero três, dois mil e três, o ano em que eu saí de lá.
E também veio a caneta "de doutor", o estojo grande como que guardando um grande tesouro, nós, brasileiros, somos um dos maiores consumidores do logotipo do Monte Branco, sabia? Mas hoje eu não quero fazer divagações sociológicas, nunca fui bom nisso, aliás. Então, é melhor que eu me prometa nunca fazer esse tipo de observação. E, claro, veio o dinheiro, ou oriehnid, que é pra dar mais sorte (ah, As Meninas!), no envelope branco e aberto, porque as notas têm de vir abertas e o envelope não pode ser colado, é assim que deve ser para as festividades. Nas ocasiões fúnebres, as notas vêm dobradas e o envelope vem fechado, colado. Perdi a conta de quantas vezes a minha tia ia às missas de tantos-anos-de-morte-de-alguém e ela colava o envelope com arroz cozido à moda japonesa (por muitos tempos, na panela de ferro mesmo, porque ainda não tínhamos aquele disco voador branco e que liga na tomada e que serve para deixar o arroz grudento e quentinho o dia inteiro). E ela escrevia o nosso ideograma, o mesmo kanji tão bonito que a minha irmã tatuou nas costas, lá no verso do envelope que também tem de ser branco, sempre.
E depois, no dia vinte e um (múltiplo de sete, estou tendo sorte com os números, até joguei na MegaSena esses dias), eu também tive a mesa vinte e um para mim. E teve o baile de gala, a última ocasião em que eu veria todos, e, no final, não os vi como sempre os vi antes, eu os vi no mesmo fraque que o meu e as vi em vestidos e em maquiagem que lhe davam nova aparência e nova personalidade. E eu antes fui ao supermercado com o meu pai, comprar as garrafas fermentadas e destiladas, porque era o meu dia e eu o ouvi dizendo que eu estava terminando uma fase na minha vida e que eu estava mudando, equilibrando os meus ruminares na minha concha doméstica com as minhas saídas noturnas e que eu deveria sempre buscar isso, o equilíbrio, como a minha avó, sempre em paz, buscou. E como só ela conseguu.
E o baile foi tão rápido, as muitas fotos, os muitos copos, os muitos abraços. E a pista de dança que eu nem vi. O trio elétrico, parecendo um trem, que eu só vi entrando de relance e em que eu prestei atenção só pelos urros e pelas palmas que ficaram mais altos. Depois, café no hotel cinco estrelas, preço exorbitante a que eu fiz jus consumindo muitas panquecas, ovos e tiras fininhas e sequinhas de bacon. Mais after-hour n'A Lôca, todos cambaleando e muito suados dentro das roupas de pingüim. E, no fim deste dia, a minha casa.
E veio o Natal. O meu Natal, do ano passado, tinha sido tão traumático, tendo desembocado naquele meu pequeno escândalo, que eu fui para a ceia na casa da minha mãe com muitas reservas. Fui com medo, mesmo. Com pavor do "já visto" e do "já sentido". E fiquei melancólico ao entrar no apartamento e encontrá-la só, o copo de cerveja numa mão, o cigarro na outra e o olhar perdido e vago no meio da Maria Bethânia que tocava naquela sala. E conversamos bem e civilizadamente, sem trocar farpas, meu copo sendo reabastecido pelo vinho branco. E, depois, me vi enlouquecido no meio de batidas eletrônicas. E só me vi em casa às onze da manhã. Para acordar de novo só já quase à noite.
E assim tem sido minha vida. Cheia dos pequenos e grandes acontecimentos e que não me fazem parar em casa, praticamente.
Um Feliz Natal. Sim, porque isso é possível, às vezes!
Dear Kitty wishes you nothing but a... MERRY CHRISTMAS!!!
Feliz Natal. Diretamente da Kitty!!!
Este ano, não vou seguir a minha tradição de ficar falando mal dessas festividades. Estou quebrando a minha regra interna da rabugice - talvez, eu esteja pactuando com a tão dita comodidade da alma.
O que acontece é que eu ando fora do ar. Em todos os sentidos.
" (...) E no Domingo eu vou sentir ou o maior alívio, ou o maior vazio do mundo."
Assim ele concluiu um de seus posts. O que posso fazer, além de lhe surrupiar as palavras e, pior, sem licença?
O que posso fazer, se estou, agora, vivendo a mesmíssima situação? Hoje eu também tenho a última festa. Depois, verei muito pouco - ou nada mesmo - todos aqueles que compartilharam o mesmo ambiente físico comigo por cinco anos.
A colação de ontem foi mais emocionante do que eu pensava e eu tive de conter o meu choro muitas vezes. O nó na garganta não vinha do fecho apertado da beca, que estava até larga demais (de que adianta o menor tamanho se eu sou menor do que o menor tamanho?). Mas vinha da própria expressão nó na garganta. O suplício de horas no trânsito (seis ao todo, no dia inteiro), para chegar ao Credicard Hall lotado, flores no palco, a beca tão quente, que ficava mais sufocante sob as luzes fortes, as pessoas partindo de todos os jeitos, alguns discursos emocionantes e muitas fotos. Aquele caledoscópio das coisas comuns e que precisam fazer parte da vida de todos. Sim, estou em kitsch mode - talvez sempre tenha estado, sabe-se lá. Por isso, faço a paráfrase do Roberto Carlos e apenas digo: são tantas emoções.
Tantas, que nem estou dando conta de ter tempo de vir aqui e escrever, este que tem sido meu refúgio. Acho que emoções demais atrapalham a criação literária, ou melhor, emoções demais atrapalham qualquer tipo de manifestação, seja ela artística ou não.
Ontem teve a beca quente, hoje tem o smoking alugado, cafona e igualmente quente, de várias camadas de faixas e casacas e de todos aqueles tecidos. As valsas. Mais fotos. Devolução da vestimenta, restituição de cheque caucionado. Tudo tão rápido, tão rápido... Os borrões que eu já disse antes. E, amanhã, será o domingo.
Pois vamos esperar este domingo. Vamos esperar - melhor, eu vou esperar - o alívio ou o vazio, ou o misto híbrido e confuso dos dois. Esperar até que toda essa confusão de extremos passe. Para que eu fique "bem" de novo e para que eu possa voltar para cá. Ou que ela, a confusão, nunca passe e eu mude e talvez nunca mais escreva, e conclua que foi tudo um arroubo de juventude, um lapso, uma mania que se queimou rápida e intensamente como o fogo da palha, quem sabe? Eu não sei.
Por ora, tudo o que eu posso ofercer são apenas (mais) banalidades e (mais) incertezas.
Ah! Vá a sua estante, pegue um livro. Ou, no seu próprio navegador, mude de endereço. Enfim, faça qualquer coisa outra, mas troque de canal. Corro o risco de estar sob efeito triplicado do espírito natalino.
Volta, finalmente, meu querido Sexo Doce e Techno, em nova roupagem e em novo espírito. Sai, temporariamente, o polêmico cry baby cry, para merecidas férias. E saem, apenas formalmente, Coca com gelo e limão e O espelho da minha alma.... O "apenas formalmente" fica para aguçar a curiosidade dos stalkers - os perseguidores que deveriam sair em busca da própria rendição em vez do patrulhamento inconsistente da vida alheia.
E, finalizando, mais dois endereços em Outros Mares - Pulso Único e Portal Literal, ambos já mencionados anteriormente aqui.
E as festividades continuam. Nesse ritmo, só vou voltar a mim mesmo já no ano de dois mil e três! De terça a sábado, sem escalas, estou lotado de compromissos. Acho que não vou a todos. Não, definitivamente, não vou a todos. Alternativamente, vou escolher ou o culto ecumênico ou a missa na igreja tradicionalíssima. Ou um ou outro, porque eu realmente não tenho tanta paciência para esse festival de discursos. E porque, sobretudo, eu acho que preces e agradecimentos de natureza religiosa - embora sempre bem-vindos e necessários - podem ser feitos no recato do meu lar. Sem interferências de milhares de pessoas juntas e acotoveladas, que só se lembram do Deus nessas horas grandiosas. Não que eu seja religioso no sentido praticante, mas eu ainda prefiro que muitas coisas venham sem enfeites, limadas dos excessos.
Hoje foi dia de receber chapéu coimbrão vermelho (cadê o Lobo Mau?), no Salão Nobre. Nada do que eu escrevo ou do que eu digo está conseguindo descrever as coisas direito. Catatonia é a palavra de ordem. Me lembrei de uma frase, a mais banal e a mais marcante: "sucesso sempre", as palavras vindas da boca de um dos poucos bom velhinhos professores (porque eu aprendi que velhice, muitas vezes, não representa a suavização, mas a exarcebação dos vícios de personalidade). Acho que é o bastante para se guardar, a síntese da essência de tudo.
E, me repetindo, está tudo passando tão rápido, como num borrão. Parece que o meu trenzinho descarrilhou tanto e eu só consigo reter muito pouco do outro tanto que está passando. E esses fragmentos que ficam retidos logo vão sendo encobertos pela invenção. Então, vou aproveitar este momento em que a memória não se contaminou tanto pela invenção e dizer que houve, em certo momento, aplausos acalorados e merecidos para a menina salvadora que deixava todas as suas anotações de aula disponíveis no xerox do porão da faculdade. E que eu ouvi, já no corredor cheio das pessoas que estavam saindo, um "se eu me formei, tudo é possível". O desespero é coletivo.
E também registro que, agora e oficialmente, eu sou doutor. Sim, doutor, eu não preciso ter doutorado, porque, como bem me ensinou Speculum, os bacharéis em direito recebem o título de doutor. A fonte, ainda segundo o Senhor Espelho, é o decreto 34 de 1834. Qualquer incorreção deve ser informada e creditada a ele (e lá vou eu me eximindo e já pondo em prática o que eu aprendi tacitamente na faculdade...)...
E a Pipoca? Que cresceu bastante, mas só de comprimento do corpo, porque o gênio está a cada dia mais indomável. Sim, ela é muito carinhosa, mas é agitada demais. Depois de tantas outras peripécias - como ter comido neon e como ter roído o pé das cadeiras, do que ela desistiu só depois de minha tia ter passado pimenta na madeira) - agora foi a vez das canetas. As esferográficas que foram devidamente deglutidas pelos caninos brancos da canina branca e agora comprida. A pata está com uma mancha azul-roxa da tinta, como se embebida em violeta de Genciana, o remedinho que uma das minhas muitas tias passava nos meus machucados, porque ardia menos e porque a cor era mais alegre.
Teve restaurante japonês tradicional da Liberdade com meus pais, com minha irmã e com seu agregado. Isso, depois da cerimônia que eu contei lá em cima (eu disse, linearidade não está existindo aqui, hoje). E as relações familiares podem ser sufocantes, especialmente quando seus pais já são divorciados desde priscas eras e não perdem a oportunidade de trocarem farpas, ainda que ou especialmente à mesa. E ainda que ou especialmente em "comemoração" à formatura do seu filho. E mais estranho é perceber como eu apenas percebo isso. Constato de longe, sem sentir dor de estômago ou de cabeça.
E depois veio a pizzaria, já eu com minha mãe e seus amigos. Incluindo uma amiga que estudou no mesmíssimo lugar do que eu e de tantos outros ilustres do passado. E, de novo, a constatação que eu já tinha tido antes, na porta do Salão Nobre: sou ex-aluno, já e só podendo, agora me dirigir à pequena seção dos ex-alunos.
E de novo: já sou doutor e estou (ainda) absorvendo isso.
Só porque eu não posto fotos minhas em poses retocadíssimas, só porque eu não falo abertamente de sexo, só porque... Ah, por causa de tudo aquilo.
E porque eu sou um chato aqui, reconheço. Já reclamaram que eu escrevo de um jeito difícil e rocambolesco. Que eu sou kitsch. No que eu não mudo, sinto muito. Na verdade, sinto nada. Já tenho de me moldar demais às expectativas alheias fora deste espaço.
Aquela melancolia de final de ano - aquela mais uma das tantas coisas que acometem indiscriminadamente todo o mundo - começou a tomar conta de mim. Este ano, ela demorou um pouco mais pra se anunciar, mas está vindo com o diferencial fortalecedor de eu estar-me divorciando de tudo o que foi presente, certo e líquido. Ou sólido, como o prédio antigo a que eu ia todos os dias, o prédio firme, fincado em chão firmíssimo. Estou deixando a faculdade que tanto me desnorteou e estou-me dando o direito, mais-que devido, de ser cafona. Todo mundo pode ser Madalena Arrependida. E eu posso-me arrepender do que eu digo aqui e mudar de idéia depois. Eu posso, todo mundo pode.
O coquetel? Foi melhor do que eu esperava. O bar estava bem aberto mesmo, com ampla oferta de bebidas. Abertas, também e até mais, estavam as pessoas. Os abraços. As conversas. Talvez, pela tão dita hipocrisia de final de ano (que, de tão dita, já está tão banalizada), mas acho que, principalmente, pela união do desespero-comunhão. Do medo desesperado de estar perdendo o referencial confortável do status de estudante. Vida profissional, salário, bônus, família, carros, férias, tudo aquilo tão burguês e tão rechaçado nos manifestos políticos dos estudantes, está agora se mostrando como o caminho inevitável.
Realmente, está aberta a temporada de fim de ano. Das emoções. Ainda faltam o culto ecumênico, a colação (as duas, na verdade), e desfecho do baile. Preciso de uma caixa de lenços e de um par de óculos bem escuros.
O meu amigo, o do namoro, exagerou um pouco nas doses de uísque-etiqueta-vermelha e acabou passando mal. E voltei pra casa, tentando achar a primeira marcha num carro que eu não conheço, ouvindo Adriana Calcanhoto e, provavelmente, tendo ganhado várias multas (os velocímetros dos carros deviam ser padronizados).
E meu lixinho, pretinho e até então incólume, recebeu, às sete da manhã, dejetos da boca alheia.
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Dia quinze e dia primeiro de todo mês. Hoje foi dia quinze. O dia de acender senko, o incenso verde e fininho, no meu butsudan, o templo sincrético de budista e de culto aos antepassados. O cheiro defumado misturado ao das flores tomou significado especial e diferente depois do falecimento da minha avó. Melhor: tomou o significado certo, que eu antes desconhecia.
Ainda sinto falta da minha avó. Ainda? Me enganei. Ainda está errado. Porque todo o tempo é pouco para sentir saudade.
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Fui ver O Filho da Noiva. Percam o preconceito com os argentinos, estes nossos rivais em tantas coisas. Deixem as questões futebolísticas e políticas de lado, porque, nas artes, não há rivalidade, não há confrontos, mas há adição, complementaridade. O filme é, simplesmente, lindíssimo, daqueles poucos que levam ao choro e à risada desenfreados.
Está aberta a temporada das festividades de fim de ano que, como todos sabem, eu adoro (acho que faltaram umas aspas para reforçar o tom irônico da afirmativa!)... Para começar, bem ou mal, um coquetel. Coquetel, do inglês cocktail e que, textualmente, significa rabo-de-galo. Alguém pode-me explicar o porquê disso? Digo, do nome? Soa um tanto quanto erótico. Subliminarmente erótico. Me lembro de já ter lido isso, falo da origem da palavra, há algum tempo, mas, como quase sempre, me esqueci.
Então, tem o rabo-de-galo daqui a pouco. Coquetel de formandos para formandos, com o intermédio da Dorana-eu-tenho-medo-de-você-Forte-Real. Direito a um convidado. Escolhi o meu amigo que namora há tempos e que me preteriu por algum tempo por conta do relacionamento e que, agora e aos poucos, tem reaparecido na minha vida. Minha irmã, que eu pretendia convidar, foi mais esperta, já garantiu o seu ingresso numa outra festa, com muito barro e fora aqui de São Paulo. Quermesses modernas, essas são as raves. Pessoas e pessoas migrando em miríade pelas estradinhas quebradas, para estarem fisicamente umas com as outras e, espiritualmente, ensimesmadas no próprio e particular mundo de suas caixas cranianas alteradas.
Traje? Esporte fino. O do coquetel, claro. Mais um open-bar que espero que seja aberto mesmo.
Ainda existem as boates pra depois. Outras quermesses.
"Naquela casa já teve: gatinhos, cachorrinhos, coelhinhos, passarinhos, galinhas com pintinhos, Ivan - o frango e bicho-papão. Isso vem de um tempo remoto, quando eu pequena compreendia a morte como UM DILEMA. Não sabia se me afligia mais a idéia de acabar ou de passar a eternidade acabada de tanto tocar harpa para o Deus, que nesse tempo usava sandálias douradas de amarrar e era muito pouco afetuoso. Depois dei pra duvidar do Deus, sua existência. Depois, voltei pra trás e quis ver seu rosto, eu que só tinha visto as sandálias. Era lindo e é claro que eu me apaixonei. Mas foi aí que ele se feriu, porque o olhar assim direto de uma mulher dói mais do que queimadura com azeite fervendo. E de lá pra cá venho cumprindo intermináveis provas impostas por Ela, para que eu possa de novo encontrá-lo em plenitude e com humildade. (Deus não é amor? Pois então: eu sou Psiquê.)"
Uma pequena e suficiente mostra do talento de Patrícia. Que já brindou leitores aqui. Fiquei desolado quando o espaço dela terminou. Passeando esses dias por aí, descobri que ela presenteia os olhos e as almas alheios diretamente na caixa postal. Um modo personalizado e carinhoso. Se quiser receber Os desvarios de Patrícia, basta, simplesmente, escrever para a escritora.
Pobre espaço abandonado, relegado ao último plano .As ervas daninhas já começam a crescer, sorrateiras . As pessoas não têm mais vindo tanto aqui. Também pudera, o descaso é visão insuportável - e descaso é o que não tem faltado por aqui, já que eu não escrevo nem respondo aos comentários.
A pequena homenagem anterior, feita na pena alheia e sempre certa da Lygia Fagundes Telles, foi publicada com certo atraso. A intenção era a de publicar o texto no dia exato dos vinte e cinco anos da morte de Clarice Lispector, que se completaram no dia nove de dezembro. Ou no dia do próprio aniversário de nascimento da escritora, no dia dez de dezembro. Escorpiana, o que ela mesma dizia ser o signo do Mal, na vida e na morte. O texto, lindíssimo, do qual eu já tinha falado antes, é tudo o que eu posso falar a respeito. Porque não escrevo bem desse jeito (sem elogios em sentido contrário, por favor, eu sei o meu lugar). E porque o texto-crônica-conto faz o elo entre as minhas duas escritoras absolutamente favoritas.
Copiei este Onde estivestes de noite (alusão-resposta ao conto, praticamente honônimo, da própria Clarice e que, como tudo dela, deve ser lido) diretamente do meu próprio exemplar de Durante aquele estranho chá. Reconheço que essa minha cópia contraria todas as regras de direito autoral, mas creio não haver grande mal nessa reprodução não autorizada. Primeiro, porque isto aqui não é um grande veículo de comunicação. Segundo, porque eu não estou colocando toda a obra à disposição. E, terceiro e último (tríades), porque os livros já são tão pouco lidos - talvez por serem tão caros, talvez por serem tão intimidadores em seu volume de páginas e em suas capas rígidas - que eu acho importante, ainda que no meu pouco espaço, estimular a leitura do que eu considero valer a pena.
Acabei de assistir, na TV Cultura, ao especial sobre a Clarice Lispector, produzido em comemoração aos vinte e cinco anos da morte ou aos oitenta e dois de nascimento dessa Grande Escritora (as Grandes Coisas precisam da reverência das maiúsculas).O documentário, infelizmente, vi pela metade; felizmente (talvez?), eu o consegui ver, graças ao seu telefonema (isso, você que está lendo vai saber!) atencioso - os presentes recebidos nem sempre vêm embrulhados em papel vistoso, nem sempre são sentidos pelo toque do tato. No começo da metade que eu pude ver, me irritei um pouco pelo tom muito viril do apresentador (Gastão?). Clarice clama por uma anima, a parcela feminina, aguçada. A segunda metade ou o um-quarto que restava foi contundente. Eu nunca havia visto qualquer imagem em movimento da escritora; tampouco, a tinha ouvido falar, exceto em pequenos trechos de voz que eu garimpei nas minhas buscas pela rede. E, então, vi, ouvi e senti mais um pouco do que me faltava. E pude validar, com isto que faltava, todo o magnetismo agrimisterioso da escritora cujos escritos, posso dizer sem exagero, salvaram minha vida.
Meu itinerário no mundo de Clarice foi uma verdadeira via crucis que não cessou até agora e que nunca vai ter fim. Do único jeito que se pode ser com tudo aquilo que se torna inegavelmente importante em nossas vidas. O primeiro contato veio ainda na infância, num conto que estava no meu livrinho de português do primário. A história de Lisete, a macaquinha que passou fugazmente na vida da dona-de-casa e de seus filhos, já me deu um dos primeiros prenúncios das lições da vida, que trazem em si a coexistência, nunca pacífica, daqueles extremos de amor e de ódio e de todos os outros opostos que constróem uma mesma realidade. O texto de linguagem simples e de significados complexos tocou a minha alma, que, sendo de criança, entendeu o que não precisa ser entendido, mas apenas sentido em empatia. Sim, são clichês. Meus clichês.
Ficaram esquecidos, o texto e a escritora, para serem relembrados já na adolescência. Nas aulas de literatura que ensinaram o existencialismo, a realidade adivinhada, a busca embrenhada e intuitiva de dizer o indizível. E veio a primeira obra, para mim e para ela, o pedregoso Perto do Coração Selvagem, de palavras corriqueiras e sem enfeites, mas de que a minha intuição já agastada não conseguiu dar cabo. Fechei o livro caixa-de-pandora, eu não estava pronto para retornar àquele estado bruto e primal das coisas. Educação regredida, se não perdida.
E veio Laços de Família, mais ameno, os ensinamentos mais diluídos nos contos menores. E vieram os primeiros passos engatinhados. Mas eu precisava viver mais dores, meu comodismo de alma não me permitia sentir a empatia necessária. Ainda, não estava pronto. E veio a dor necessária. Veio tão forte no meio este ano, a dor que me lançou no alçapão do zero de tudo, que me trouxe a angústia exigindo que eu digerisse tudo. A fome-sede tinha finalmente chegado e o alimento-água que sempre estava ali pôde ser bebido e comido. O desfile das Anas e das tantas outras anônimas que têm o direito-dever de descobrir. Vi que eu também.
Li e pude compreender. O subitamente entendi que eu estive procurando por tanto tempo começou a despertar. Não, não. Não estava subitamente entendendo, mas, súbita e finalmente, sentindo aquilo que eu antes acusava, tão maldosa e impensadamente, de depressão. Que é VIDA.
Acordei no meio do grito, gritei? Com os olhos ainda flutuando na vaga zona do sono, levantei a cabeça do travesseiro e quis saber onde estava. E que asas eram aquelas, meu Deus! Essas asas que se debateram assim tão próximas que o meu grito foi num tom de pergunta, Quem é?...
Abri a boca e respirei, tinha que me localizar, espera um pouco, espera: estava sentada na cama de um hotel e a cidade era Marília. Cheguei ontem, sim, Marília.
Tudo escuro. Mas não tinha um relógio ali na cabeceira? Pronto, olhei e os ponteiros fosforescentes me pareceram tranqüilos, cinco horas da madrugada. E antes de me perguntar, o que estou fazendo aqui? Veio a resposta assim com naturalidade, você foi convidada para participar de um curso de Literatura na Faculdade de Letras, dezembro de 1977, lembrou agora?
Voltei-me para a janela com as frestas das venezianas ligeiramente invadidas por uma tímida luminosidade. Por um vão menos estreito podia entrever o céu roxo. E as asas? perguntei recuando um pouco, pois não acordei com essas asas? Pronto, elas já voltavam arfantes no vôo circular em redor da minha cabeça. Protegi a cabeça com as mãos, calma, calma, não podia ser um morcego que o vôo dos morcegos era manso, aveludado e essa era um vôo de asas assustadas, seria um pombo?
Ainda imóvel, entreabri os olhos e espiei. Foi quando o pequeno ser alado, assim do tamanho da mão de uma criança, como que escapou dos movimentos circulares e fugiu espavorido para o teto. Então acendi o abajur. A verdade é que eu estava tão assustada com o pássaro que entrara Deus sabe por onde e agora alcançara o teto abrindo o espaço em volteios mais largos. Levantei-me em silêncio e fui abrir as venezianas. O céu ia emergindo do roxo profundo para o azul. Olhei mais demoradamente a meia-lua transparente. As estrelas pálidas. Voltei para a cama.
Puxei o cobertor até o pescoço e ali fiquei sentada, quieta, olhando a andorinha, era uma andorinha e ainda voando. Voando. Meu medo agora era que nesse vôo assim encegada não atinasse com a janela. Na infância eu tinha convivido tanto com os passarinhos, os da gaiola e esses transviados que entravam de repente dentro de casa e ficavam coando assim mesmo como que encegados até tombarem esbaforidos, o bico sangrando, as asas exaustas abertas feito braços, e a saída?...
Vamos, pode descer, eu disse em voz baixa. Olha aí, a janela está aberta, você pode sair, repeti e me encostei no espaldar da cama. E a andorinha quase colada ao teto, voando. Voando. Esperei. O que mais podia fazer senão esperar? Qualquer intervenção seria falta, disso eu sabia bem. Tinha apenas que ficar ali imóvel, respirando em silêncio porque até meu sopro podia assustá-la.
Voltei o olhar para o pequeno relógio Mas o que significa isso? Uma andorinha assim solta na noite, voando despassarada no meio da noite, de onde tinha vindo e para onde ia? Ainda estava escuro quando ela entrou e começou a voar coroando a minha cabeça com seus vôos obsessivos. Que continuavam agora no teto numa ronda tão angustiada. E com tantos quartos disponíveis nessa cidade, por que teria o escolhido o quarto do hotel desta forasteira?
Inesperadamente ela conseguiu escapar da ronda em círculos e foi pousar no globo do lustre. E ali ficou descansando num descanso inseguro porque as patinhas trementes escorregavam no vidro leitoso do globo, teve que apoiar o bico arfante num dos elos da corrente de bronze por onde passava o fio elétrico.
Vamos, minha querida, desça daí, pedi em voz baixa. A janela está aberta, repeti e fiz um movimento com a cabeça na direção da janela. Para meu espanto, ela obedeceu mas ao invés de sair, pousou na trave de madeira dos pés da minha cama. Pousou e ficou assim de frente, me encarando, as asas um pouco descoladas do corpo e o bico entreaberto, arfante. Ainda assim me pareceu mais tranqüila. Os olhinhos redondos fixos em mim. A plumagem azul-noite tão luzidia e lisa, se eu me inclinasse e escorregasse um pouco poderia tocar na minha visitante. Andorinha, andorinha, eu disse baixinho, você é livre. Não quer sair?
Aos poucos foi ficando mais calma, as asas coladas ao corpo. Continuava equilibrada no espaldar de madeira roliça, mudando de posição num movimento de balanço ao passar de uma patinha para a outra. E os olhos fixos em mim. Mas esta é hora de andorinha ficar assim solta? Por onde você andou, hein?
Ela não respondeu mas inclinou a cabeça para o ombro e, sorriu, aquele era o seu jeito de sorrir. Apaguei o abajur. Quem sabe na penumbra ela atinasse com a madrugada que ia se abrindo lá fora? Com a mão do pensamento consegui alcançá-la e delicadamente fiz com que voltasse para a janela. Adeus! eu disse. Então ela abriu as asas e saiu num vôo alto. Firme. Antes de desaparecer na névoa ainda traçou alguns hieróglifos no céu.
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Véspera dessa viagem, para Marília. E a voz tão comovida de Leo Gilson Ribeiro, a Clarice Lispector está mal, muito mal. Desliguei o telefone e fiquei lembrando da viagem que fizemos juntas para a Colômbia, um congresso de escritores, tudo meio confuso, em que ano foi isso? Ah, não interessa a data, estávamos tão contentes, isso é o que importa, contentes e livres na universidade da cálida Cáli. Combinamos de ir no mesmo avião que decolou sereno mas na metade da viagem começou a subir e a descer, meio desgovernado. Comecei a tremer, na realidade, odeio avião mas por que será que estou sempre metida em algum deles? Para disfarçar, abri um jornal, afetando indiferença, ó! a literatura, o teatro. Clarice estava na cadeira ao lado, aquela cadeira que comparo à cadeira do dentista, cômoda, higiênica e detestável. Então ela apertou meu braço e riu. Fiquei tranqüila porque a minha cartomante já avisou, não vou morrer em nenhum desastre! E o tranqüila e o desastre com aqueles rrr a mais na pronúncia russa que eu achava bastante charmosa, desastrrre!
Desatei a rir do argumento. A carrrtomante, Clarice?... E nesse justo instante as nuvens se abriram numa debandada e o avião pairou sereníssimo assima de todas as coisas, Eh! Colômbia.
La nueva narrativa latino-americana. No hotel, os congressistas já tinham começado suas discussões na grande sala. Mas essa gente fala demais! queixou-se a Clarice na tarde do dia seguinte, quando então combinamos de fugir para fazer algumas compras. Na rua das lojas fomos perseguidas por moleques que com ar secreto nos ofereciam aquelas coisas que os brasileiros apreciam... Corri com um deles que insistiu demais. Já somos loucas pela própria natureza, eu disse. Não precisamos disso! Clarice riu e com o vozeirão nasalado perguntou onde ficavam as jóias, queríamos ver as esmeraldas. Esmeraldas!
Quando chegamos ao hotel, lá estavam todos reunidos naqueles encontros que não acabavam mais. Mas esses escrrritores deviam estar em suas casas escrrrevendo! - resmungou a Clarice enquanto disfarçadamente nos encaminhamos para o bar um pocuo adiante da sala das ponencias; a nossa intervenção estava marcada para o dia segunte. Quando eu devia começar dizendo que literatura no tiene sexo, como los angeles. Alguma novidade nisso? Nenhuma novidade. Então a solução mesmo era comemorar com champanhe (ela pediu champanhe) e vinho tinto (pedi vinho) a ausência de novidades. Já tinham nos avisado que o salmão colombiano era ótimo, pedimos então salmão com pão preto, ah, era bom o encontro das escritoras e amigas que moravam longe, ela, no Rio e eu em São Paulo. Tanto apetite e tanto assunto em comum, os amigos. A dificuldade do ofício e que era melhor esquecer no momento, a conversa devia ser amena, que os problemas, dezenas de problemas! estavam sendo discutidos na sala logo ali adiante. No refúgio do bar, apenas duas guapas brasileñas com pesetas na carteira e com muito assunto. Clarice queria a minha opinião, afinal quem era mais indiscreto depois da traição, o homem ou a mulher?
Lembrei que nos antigamentes (assim falava tia Laura) a mulher era um verdadeiro sepulcro, niguém ficava sabendo de nada. Século XIX, início do século XX, Silencio em la noche, diz o tango argentino. Ainda o silêncio porque segundo Machado de Assis, o encanto da trama era o mistério. Na minha primeira leitura (é claro, Dom Casmurro), confessei ter achado Capitu uma inocente e o marido, esse sim, um chato neurótico. Mas na segunda leitura mudou tudo, a dissimulada, a manipuladora era ela. Ele era a vítima. Clarice pediu cigarros, eram bons os cigarros colombianos? Franziu a boca e confessou que sempre duvidou da moça, Mulher é o diabo! exclamou e desatei a rir, a coincidência: era exatamente essa a frase daquele engolidor de gilete do meu conto O moço do saxofone. Acho que agora elas já estão exagerando, não? Os homens verdes de medo e elas as primeiras a alardear, Pulei a cerca!... Mulher é o diabo!
Quando saímos, os congressistas já deixavam a sala de reuniões. "Olha só como eles estão fatigados e tristes!", ela cochichou. E pediu que eu ficasse séria, tínhamos de fazer de conta que também estávamos lá no fundo da sala. Ofereceu-me depressa uma pastilha de hortelã e enfiou outra na boca, o hálito. Entregamos os nossos pacotes de compras a uma camareira que passava e ela recomendou muito que ela não trocasse os pacotes das corbatas, na caixa vermelha estavam as corbatas que ela comprara, a camareira entendeu bem?
As recomendações de Clarice. No último bilhete que me escreveu, naquela letra desgarrada, pediu: Desanuvie essa testa e compre um vestido branco!
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Um momento, agora eu estava em Marília e tinha que me apressar, o depoimento seria dentro de uma hora, ah, essas demoradas lembranças.
Quando entrei no saguão da Faculdade, uma jovem veio ao meu encontro. O olhar estava assustado e a voz me pareceu trêmula. A senhora ouviu? Saiu agora mesmo no noticiário do rádio, a Clarice Lispector morreu essa noite!
Fiquei um momento muda. Abracei a mocinha. Eu já sabia, disse antes de entrar na sala. Eu já sabia.
Estou azedo, estou anti-social, estou à flor da pele. Se a intenção for a de se aproximar com comentários dúbios e que podem despertar o meu já latente espírito de revide irado, step back. E o que eu entendo por essa intenção? Honestamente, neste presente, posso englobar quase tudo.
Então, generalizando mais o meu conceito do que pode me causar provocação, e evitando, anteriormente, qualquer patada posterior, advirto: step back.
Sofrer por antecedência é um atentado à sensatez, esta que, diga-se de passagem, nunca foi um dos meus maiores precidados. Então, dane-se: vou elucubrar sobre o incerto, sobre o que eu não posso afirmar categoricamente, como toda a humanidade faz e sempre fez. A prova foi um desastre completo. Muitas questões erradas, muitas questões que admitiam duas respostas igualmente plausíveis e que, ao que parece e confirmando a regência de Lady Murphy na minha vida, escolhi justamente a errada.
E eu estou ainda sem dormir, desde muito tempo, e é dispensável dizer que meu corpo e minha mente se ressentem. Estou, literalmente, um zumbi. Um zumbi molhado, que tomou chuva à cata de algum táxi maldito no meio daquele nada, que, pra minha surpresa, fica bem pertinho da minha casa (bom, eu moro no quase nada, também). Minha língua está dobrando e o backspace, a setinha infame que aponta à esquerda (retrocesso?), é a tecla que meus dedos estão apertando com mais freqüência - isso, claro, quando eles não erram o alvo. Minha língua, meus dedos, todos falhando: estou, literalmente, incomunicável.
Preciso dormir. E já fiz uma promessa com M.E.: caso tudo dê certo, ou seja, caso passemos, os dois, na OAB e de primeira, nós vamos, ambos, circular, pelo período de duas semanas, com aqueles adesivos lindíssimos grudados nos vidros de nossos carros. Aqueles adesivos com dizeres mais lindíssimos ainda como "Sem advogado não se faz justiça", "Consulte um advogado, você tem direitos." Pérolas, ainda bem que não gosto muito delas, acho um adorno meio senil...
Promessas-feitas-a-entes-misteriosos-pra-que-as-coisas-dêem-certo precisam ter um elemento de humilhação, de sofrimento e de dor. E se expôr ao ridículo de passear com essas porcarias no carro impinge o mesmo sofrimento de ridicularização - se não maior - de subir de joelhos as escadarias escalavradas do Cristo Redentor.
Faça como a Carol (agora, de URL nova e secreta) e como o Fumal fizeram: wish me luck. Ela ontem à noite, me ligou numa atitude muito linda (obrigadíssimos, querida!) e ele me deixou um comentário encorajador aqui (obrigadíssimos a você, também!)...
Passei a noite acordado, porque eu já tinha desregulado todos os meus relógios internos e externos da semana inteira mesmo e precisava expiar a minha culpa de desleixo - apesar dos inúmeros e justificáveis imbróglios que a Força Maior me enviou nesta semana. Fiz sete provinhas - as primeiras, com apavorantes quarenta e oito. Nas últimas, cheguei a bater a marca dos "quase sessenta".
Só preciso de quarenta e seis e espero que a minha debilidade, ou melhor, que as minhas debilidades, não permitam que eu passe a vergonha de obter uma pontuação mais baixa do que a mínima.
Vou indo. Preciso tomar banho. Preciso acender meus incensos, coisas que, como quase todos os outros fiéis, só faço nos meus momentos de muito desespero ou de obrigação religiosa mesmo. E, enfim, ir à guerra. Ou melhor, a mais uma batalha da grande guerra que é o dia-a-dia. Ao menos, há o consolo de que há outras batalhas, muito piores e muito mais exigentes, não é mesmo? Nestas horas, tenho de brincar de Jogo do Contente, porque, do contrário, a frágil sanidade voa e se desmonta num único sopro.
Beijos e bonne chance a todos os outros bacharéis em ciências jurídicas como eu!
Since we are in hell, let us kiss, embrace and dance with the devil... Shall we?
Pequeno inventário de reclamações:
*** Eu tenho a prova maldita no domingo, às oito horas da manhã, numa faculdade que fica na divisa da Conchinchina com a Terra del Fuego. Pra mim, tudo o que exige o uso das marginais em São Paulo é ponto obscuro e cego - mais fácil me mandar pegar a estrada pro Rio de Janeiro. A pé!
*** Não tenho estudado para essa porcaria porque passei minhas últimas três tardes esquentando a orelha em telefonemas e derretendo a minha por-natureza-quase-inexistente paciência embalado ao som de uma musiquinha infame do Kenny G (que, aliás, eu já tive a proeza de tocar no piano um dia);
*** A concessionária, além de querer-me entregar o carro setenta e dois dias após a compra do veículo, quer-me cobrar exatos três mil e quinhentos reais além do valor contratado. Ebós de quimbanda despacháveis em nome da Izzo Motors, aos cuidados de Maria do Carmo, são de ótima ajuda. Eu mesmo, pessoalmente, encheria a primeira encruzilhada que meus olhos encontrassem de mimos como velas vermelhas, galinha, farofa e alfazema pra Pomba Gira. Pena que eu seja budista, supersticioso e medroso;
*** Estou passando pela situação desagradabilíssima de constituir advogados. Pendengas judiciais são ruins. À esta época do ano, piores ainda.
Pequeno inventário de desejos natalinos:
*** Uma decisão judicial, favorável (a mim, claro!), transitada em julgado e prolatada ontem;
*** Ilustre vendedora no olho da rua;
*** Passar na OAB;
*** Um coquetel de Dormonil, Lexotan e Prozac;
*** Teletransporte. Qualquer outra galáxia que não a Via-Láctea.
Papai Noel e Papai do Céu, eu não quero um namorado lindo, fiel, gentil e tarado. Eu quero paz. Não na Terra; a minha bastaria, por ora.
Querido diário de novo. Quero brincar de repetir minhas litanias reclamonas. Estou com a garganta arranhando. De novo de novo. A fumaça e tantas outras substâncias nocivas que eu deixo passar por este meu canal direto de digestão do mundo, meu canal de digestão que uma hora se ressente dos maus tratos abusivos. Os reprimidos que não sabem esbravejar sofrem da garganta; os covardes, sofrem do estômago. Sofro dos dois, por via das dúvidas. E constantemente.
Tenho essa porcaria de prova pra fazer semana que vem, pra qual não estudei porcaria alguma. Tenho tantas outras coisas para resolver e fico aqui impassível. Fico o dia inteiro neste computador, procurando jogos inúteis para passar um tempo que, em tese, eu não tenho disponível. Trocando amenidades pela florzinha mágica e piscante. Ou, então, passeando pelos cômodos desta casa, que está meio vazia nesses últimos dias, duas das minhas tias (isso ficou muito cacofônico, mas dane-se) foram à praia. Fico vagando pelo andar de baixo totalmente vazio, comendo besteiras (bom, isso, eu tenho de aproveitar, já que, por ora, eu não tenho a mínima tendência pra ganhar quilos a mais, muito pelo contrário)...
Internamente, me vem aquele aviso desesperado que se resume em "eu preciso cuidar de mim"... As if! Me desanima tanto pensar e ter uma certeza intuitiva de que, quando eu começar a "cuidar de mim", ou seja, quando eu puser em ação o cumprimento dos itens das minhas listinhas de afazeres, eu vou achar mais e mais metas a cumprir, mais buracos pra preencher, mais níqueis a ser postos no banco e no corpo, numa progressão infinita que não cala a insatisfação. Vencer na vida - num conceito errôneo e que eu aprendi a ter como certo e do qual eu não consigo me desvencilhar - é dar conta de cumprir objetivos claros e definidos, materialmente palpáveis e visíveis. Evoluir da Zoomp pra Zegna, dos cem pros trezentos metros quadrados... Uma maquiagem superficial da substituição do nada por coisa alguma, que se disfarça por um mecanismo de avidez repetida. Cansativo pensar e falar nisso, chega.
Ontem eu fui ao Piola da Alameda Lorena, recomemorar o aniversário da minha grande amiga de faculdade, da minha melhor amiga adquirida já em ambiente e em tempos universitários. Houve outra comemoração no dia anterior, no Tostex, por conta da incompatibilidade de horários de certos convivas, que não poderiam estar presentes na comemoração oficial. Esse primeiro dia teve um desfecho muito ruim, já em número reduzido de pessoas (graças a Deus!) na Ultralounge, com pausa no Hertz, com uma queda de pressão inesperada, com vômitos (ah, certas coisas não podem ser objeto de eufemismos!), com conversas entristecidas no carro com a pobre criatura de M.E...
Minha amiga H. De quem eu gosto muito, mas muito mesmo. E de quem quase nunca falei aqui e uma das poucas do meu mundo real que desconhecem este espaço. Não sei o porquê de eu relutar tanto em abrir certos nichos da minha vida pra ela, uma relutância que, como tudo, foi aparecendo aos poucos, e que, como tudo, só sendo percebida tão depois... Já fomos muito mais próximos, os telefonemas praticamente diários, ela tendo sido a primeira a tomar ciência do meu outing medroso, há quase quatro anos, na cervejaria apinhada do Shopping Paulista. Com o tempo, fui-me tornando notívago, um tanto quanto beberrão e inconformado e incompatível com o sisudo mundo das ciências jurídicas, contrastando em tantas coisas com ela... Ainda somos muito parecidos em outros muitos aspectos, os dois carregando uma metade do Japão e outra metade da miscelânea indecifrável brasileira, os dois tendo estudando em colégios de mesma linha, os dois sendo confundidos por irmãos em diversos lugares, os dois com gostos parecidos em termos de música, de roupas... A cola que une dois seres humanos derrete com o calor da ação do tempo; e, às vezes, essa mesma cola é reativada, do nada.