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Sexta-feira, Janeiro 31, 2003
Vírus...
Entrou um no meu computador.
Talvez fique um tempo sem blogar.
No que eu penso agora, além do ódio? Nas centenas de músicas que ficaram bloqueadas e perdidas para todo o sempre.
The Charlie Haden Quartet West with Chet Baker - Everything Happens to Me
I make a date for golf and you can bet your life it rains I try to throw a party and the guy upstairs complains I guess I'll go through life just catching colds and missing trains Everything happens to me
I never miss a thing, I've had the measles and the mumps And every time I play an ace My partner always trumps I guess I'm just a fool who never looks before he jumps Everything happens to me
At first I thought that you could break this jinx for me That love would turn the trick to end despair Now I just can't fool this head that thinks for me I've mortgaged all my castles in the air
I've telegraphed and phoned and sent an airmail special too Your answer was goodbye and there was even postage due I fell in love just once - it had to be with you Everything happens to me. [piano]
[scat singing]
I've telegraphed and phoned and sent an airmail special too Your answer was goodbye and there was even postage due I fell in love just once and then it had to be with you Everything happens to me The verse to this tune is almost never sung..and quite pretty. Here it is..
Black cats creep across My path until I'm almost mad I must have 'roused the devils's wrath 'Cause all my luck is bad
Agora, estou ouvindo Rien ne s'arrête, da Patricia Kaas (César, se você ainda me lê, com certeza conhece e gosta!). Tomei um chá verde, sem açúcar e muito frio, porque esqueci a xícara lá na cozinha. Não tenho muito o que contar - até tenho, na verdade, mas esse "a se contar" seria apenas uma descrição do quanto eu tenho saído, do quanto a minha vida tem sido, aparentemente, intensa. E, na verdade, eu não tenho levado uma rotina modorrenta, muitíssimo pelo contrário, mal paro em casa. Mas (sempre essa conjunção!), ao mesmo tempo, não me tenho sentido pulsando e pensando em mil coisas ao mesmo tempo e vivendo como uma judia do Woody Allen que sempre se sai com suas frases brilhantes ou como a neurótica da Beatriz da fabulosa peça Duas mulheres e um cadáver, às voltas com suas epifanias de terapia, com as suas obsessões por perfeição, a eterna lista de afazeres. Não, nada disso. Repouso, quase morro ou quase vivo e, pior ou melhor, estou gostando disso. Estou tirando férias de mim mesmo, eu poderia arriscar esta frase que alguém já disse, eu tenho quase certeza, já que ela não é nem um pouco original e já que ela expressa o que todo mundo vive.
Ontem por exemplo, eu fui à matinê escaldante da SoGo (preguiça de procurar a página e sem certeza se eles têm uma), comi pizza na casa de M. E. e fui à Ultra. A matinê foi interessante. M. E., apesar de ou justamente por causa de nossas algumas diferenças, tem sido bom amigo. Só tenho conseguido suportar esses lugares ou com amigos animados ou fora da minha consciência normal - aliás, acho que sempre foi assim. Na Ultra, percebi que estou sem paciência com esse monte de queers amontoados, e que não tenho tido vontade de me tornar anônimo naquele bloco uno de suor e de perfume esvaído e de esqueletos que se chacoalham e de almas que se esvaziam. A encenação de um acasalamento que quase nunca se concretiza e que quando se concretiza, é sempre aquela velha novela de se estar indo pra cama não com a pessoa que você quer. Mal agüentei duas horas e duas doses lá dentro e fastio era a minha palavra de ordem quando cheguei em casa.
Não quero parecer chato, nem desanimado, nem amargo, nem nada disso, até porque os que convivem comigo só têm tecido elogios à minha saudável indiferença com as coisas. E, muito menos, não quero recriminar quem idolatra a intensidade de uma vida noturna, esta seria grande hipocrisia minha, eu que já vivi tanto tempo assim, migrando de boates para outras boates. Só que, creia-me, uma hora isto cansa. Cansa não, acho que o certo é dizer que não combina, que pára de combinar e de ser necessário - chega uma hora, aquela hora não identificada, em que você vê que é necessário ter coisas apenas suas e que lhe dêem uma identidade mais específica e mais autêntica do que o sexo entre as pernas que você aprecia. Porque o único denominador comum entre todos aqueles seres é a (homo?)sexualidade. Nada mais.
Já fiz esta minha afirmação me arrependendo, porque daqui a algum tempo eu posso me contradizer e fazer um discurso diametralmente oposto ao aí de cima. Então, por favor, não me cobrem coerência. Não defendo teses aqui, só falo sobre o de agora e neste agora é assim que eu penso. Posso mudar de opinião amanhã mesmo, porque ninguém é estático, caramba. Aprendemos o rearranjamento de átomos logo no começo e, muito antes disso, já nos damos conta. Então, por que esperar que as pessoas sejam retas e estáveis em tudo?
Aliás, não cobrem coerência nem de mim, nem dos outros e, acima de tudo, nem de vocês mesmos. Isso eu afirmo agora e, disso, eu dificilmente vou abrir mão.
Eu respondo os comentários, viu? Tirando um pequeno período da longa ausência - leia-se, a primeira quinzena deste mês - eu sempre deixo uma palavra de resposta à resposta de vocês. Sempre respondo, mesmo que seja um pequeno "obrigado" ou um singelo e lacônico emoticon.
Então, se você complementa o meu dito, vá lá e veja o que eu digo do seu redito.
Mas, por favor, não façam a tréplica, porque aí eu não leio mais e, ainda que lesse, iríiamos todos a um infinito de trocas de mensagens, que se alongaria mais do que a Questão Coimbrã. E também não comentem coisas muito antigas, porque, aí, eu também não vejo mais.
Lembram-se da novela do Gilberto Braga? Pois achei uma página dedicada exclusivamente ao autor, feita em terras lusitanas. Nela, imperdíveis momentos, em vídeo, da lendária Heleninha (um dos meus alter-egos). De tapas na cara de Maria de Fátima. De crueldades de Odete. A qualidade peca um pouco, mas eu nunca tinha achado essas quinquilharias em qualquer outro lugar.
De Clarice Lispector para Andréa Azulay, filha de seu psicanalista:
Rio, 7 de julho de 1974.
Andréa Azulay, que é minha filha espiritual:
Você sabe muita coisa, minha colega. Mas de qualquer jeito vou lhe dar umas dicas para a vida e outras para escrever.
Sugestões de vida:
-- Você sabe se espreguiçar? É tão bom. Quando você se sentir cansadinha (você nunca se sente cansada porque é uma borboleta alegre) ou quando quiser sentir uma coisa boa para o seu corpinho, então espreguice-se. É assim: espiche os braços e as pernas ao último máximo, tanto quanto puder. Fique assim um momento. Em seguida largue-se de repente, relaxe o corpo como se este fosse um trapo. Você vai ver como é gostoso. A gente ganha um corpo novo.
-- Você gosta de comer coisa boa? Então experimente fios de ovos com creme de leite Nestlé. A gente não tem vontade de acabar nunca.
-- Pergunte a seu pai e a sua mãe se eles deixam o seguinte: esquente uma colher de sobremesa de vinho tinto, esquente uma xícara de café com açúcar, misture tudo e beba devagarzinho. Dá um gosto bom no coração.
-- Experimente mocotó. Demora a cozinhar e leva tempero. Mande fazer um pirão com o caldo. É forte, é potente, dá força humana. É capaz de você odiar!!!
Sugestões para escrever:
-- Você não precisa de nada, já sabe quase tudo. Mas vou lhe dar umas idéias:
-- Não descuide da pontuação. Pontuação é a respiração da frase. Uma vírgula pode cortar o fôlego. É melhor não abusar das vírgulas. O ponto de interrogação e o de exclamação use-os quando precisar: são válidos. Cuidado com as reticências: só as empregue em caso raro. Como depois de um suspiro. Quanto ao ponto e vírgula, ele é um osso atravessado na garganta da frase. Uma minha amiga, com quem falei a respeito da pontuação, acrescentou que ponto e vírgula é o soluço da frase. O travessão é muito bom para a gente se apoiar nele. Agora esqueça tudo o que eu disse.
-- Cuidado com o "que, muitos ques numa mesma frase atropela a gente. Você pode tomar a liberdade que eu já tomei, isto é: começar a frase com "que". Mas esse meu recurso já foi por demais imitado; eu já não uso mais, só às vezes.
Quando você fizer sucesso fique contentinha mas não contentona. É preciso ter uma simples humildade tanto na vida quanto na literatura.
Afago os seus belos cabelos.
Clarice.
Quer me mandar o seu retrato? (Esta carta foi escrita antes de você me mandar o seu retrato)
*** *** ***
De Clarice Lispector a Elisa Lispector e a Tania Kaufmann, suas irmãs:
Lausanne, 13 de julho de 1946
Elisa, Tania,
escrevo de Lausanne, sentada no parapeito do lago Leman. Perto tem uma orquestra com uma mulher tocando violino, uma marcha meio valsa, meio militar. Junto tem um hotelzinho estreito chamado Hotel du Port. Há montanhas a pique na outra margem do lago. Há uma fontezinha dividida em três ramos sobre uma bacia de pedra. Há uma criança comendo um biscoito. Uma mulher de chapéu branco num barco. Vocês quase que podem adivinhar que é sábado de tarde. O lago é de água doce e tem um cheiro gostoso de água. O lago é enorme e transparente. Junto de mim é esverdeado. Mas do meio para o fim está da cor do céu e a montanha mesmo está da cor do céu. Hoje à noite vai ter uma festa noturna no lago, sobre um barco. No banco está sentada uma mulher com o chapéu preto e fita branca enterrado até os olhos como em 1920 e tanto, lendo jornal. Isso que eu estou sentindo pode-se chamar de felicidade. Só que a natureza se faz tão estranha que o próprio momento de felicidade é de temor, susto e apreensão. É pena que não possa dar o que se sente, porque eu gostaria de dar a vocês o que sinto como flor. Compreendo que ontem em Berna, quando recebi carta de vocês, ficasse tão aflita. Talvez fosse de alegria - e de não poder dar esta mesma alegria naquele mesmo instante. Um momento muito forte como o de ontem sempre arrasta tudo para ele: arrastou todos os meus pecados que Deus não precisa castigar porque neles mesmos vem o castigo. Pecado de egoísmo, de indecisão, pecado de deixar morrer gente de fome e comer, pecado de não entender o mundo, pecado de amar demais, pecado de não saber amar. Vi um filme idiota onde o rapaz dizia: eu gosto de você. E a moça dizia: eu sei, mas não gosto do jeito pelo qual você ama as pessoas. Eu sei, é preciso dar muito mais do que eu dou. É também de minha natureza carregar aos ombros a culpa do mundo. Se todos sentissem isso talvez saísse um novo mundo. Uma pessoa só pode apenas sucumbir. Foi isso que fiz chorando no cinema e aliviando uma mágoa confusa. O início disso tudo foi a carta de vocês que eu botei junto do coração para sentir o calor dela e dormi assim, e mesmo agora, sentada junto do lado, tenho a carta na mesma posição, com o envelope me arranhando um pouco. Não incomoda, é como um aperto de mão um pouco mais forte. Agora tem um passarinho se aproximando da fonte. E dois meninos passaram, me olharam e continuaram a falar em francês. Fomos há pouco ver uma exposição de pinturas holandesas, de Van Gogh para cá. Eu estava vendo pacificamente com a cabeça. De repente, vi um pequeno quadro Vers le Soir , de um pintor chamado Karsen. Entendi muito bem o que você disse, Tania, sobre a paisagem que se misturou com você. Esse quadrinho finalmente me dominou. É uma casa no cair da noite. Não posso descrever. Tem umas escadas, umas heras, o branco é azulado e tudo um pouco escuro; tem umas estacas - é um fim de caminho com mato. Gosto de muitas coisas; mas de repente uma coisa é o que a gente está vendo e acima dela não existe mais nada, pelo menos por um instante; não sei se estou explicando bem.
Toda esta carta foi uma tentativa malograda de tirar um retrato deste lugar junto ao lago Leman, porque esqueci de trazer a máquina. E aproveitei a ausência da máquina para tirar o retrato deste momento também. Que Deus abençoe vocês e lhes dê uma alma luminosa. A paz esteja com vocês, minhas queridas.
*** Aos meus queridos dois, e à terceira querida não me lê, uma boa prova amanhã para vocês. Na verdade, meu desejo nem é tão necessário assim. Mostrem aquele brilhantismo que eu sei que vocês têm aí dentro. Isso é uma ordem.
*** Blanda, precisamos marcar o nosso encontro com nossa banger friend. É urgente. Pela minha curiosidade e pela minha saudade.
*** Thais querida, por favor, me escreva um e-mail para resolver aqueles problemas na sua página, certo?
*** Menino Ivan, você também precisa me (re)escrever, porque, com o quase-óbito do meu computador, eu perdi o e-mail com os dados que você me mandou.
*** Menina Carol, obrigado pelo outro cartão. Adorei, claro. Aproveite muito esta viagem e me traga fotos e descobrimentos mil, certo? Em breve, publico na íntegra. No momento, a preguiça ainda reina, porque como eu estou sem scanner, tenho de garimpar uma foto da Piazza Navona e o meu velho de guerra Corbis está fora do ar.
Eu sou nuvem passageira que com o vento se vai, eu sou como um cristal bonito que se quebra quando cai Não adianta escrever meu nome numa pedra pois esta pedra em pó vai se transformar Você não vê que a vida corre contra o tempo sou um castelo de areia na beira do mar A lua cheia convida para um longo beijo mas o relógio te cobra o dia de amanhã Estou sozinho, perdido e louco no meu leito e a namorada analisada por sobre o divã Por isso agora o que eu quero é dançar na chuva Não quero nem saber do que fazer, vou me matar Eu vou deixar um dia a vida e a minha energia sou um castelo de areia na beira do mar...
Conhecem? É uma música velha e muito bonitinha. Eu tenho a versão do Hermes de Aquino, mas queria a da Perla (o Kazaa não tem colaborado com minhas buscas, apesar de eu ter o meu nível de participação altíssimo lá).
Eu gosto dessas coisas também. Gosto, sim. E daí, oras...?
Como bem disse ele, que, aliás e infelizmente, eu não encontrei, ontem foi meu dia de "soltar o carretel" neste lupanar aqui.
Comigo foram Criança Hype (adorei, adorei, adorei), M.E. (adorei, também, pena que você não tenha podido ficar muito, e nosso jantar na sala de espelhos foi ótimo!) e Dudu, com suas mágicas particulares em formas de neve que fazem a alegria da garotada. De pessoas "linkáveis", pude encontrar o Brian Kinney, pena que foi só um pouco e no limbo do banheiro.
E tocaram Safe From Harm, que eu amo de paixão e que trouxe, para a Criança, lembranças da paradisíaca Ibiza. Recuerdos que eu pude repartir com ele.
No mais, aquelas viagens ao túnel de mim mesmo, muitos chicletes, muitas águas, alguns abraços. O timão do barco foi mais e praticamente só meu ontem. Como tem sido ultimamente e como deve ser. Espero continuar mantendo meu controle desta forma.
Agora, com licença, que eu preciso aproveitar os meus restos de meiguice.
E, com esse friozinho, o sofá me convida, a Pipoca e a televisão também me chamam. Só espero que não caia um dilúvio que tire o sinal do ar.
Finalmente, depois de muito tempo adiando, vi La Pianiste ou A Professora de Piano. Não vou considerar o único local horrendo em que ele está passando, até porque posso considerar este um castigo mais-que apropriado por ter levado tanto tempo para ver esta obra-prima.
Sou péssimo para resenhar filmes, já falei disso antes, há gente muito mais especializada do que eu. Mas, copiando o jargão francês, eu acuso: Erika Kohut foi a personagem feminina dos últimos tempos. Créditos mil para a interpretação de Isabelle Huppert, que imprime todas as nuances da personagem pelo recurso mais significativo e mais difícil: o olhar. E o vagaroso e discreto movimentar de mãos, os dedos se retorcendo. Ela é a pura via crucis do corpo!
Foi uma das personagens que, sem dúvida, mais me marcaram há tempos - e, ultimamente, tenho ido bastante ao cinema, e, embora em sentido geral não possa reclamar dos filmes que tenho visto, este, seguramente, foi um dos melhores.
Na frente, o Coliseu. Ou melhor e em vernáculo local, o Colosseo. Uma vista aérea do Coliseu, ou veduta aerea, ou vue aérien du colisée, ou aerial view of the colosseum, ou, ainda luftansicht von das kolosseum, ufa!
Atrás e também lá dentro:
Mr Spleen (Menino XXX - meu nome),
Um postal do Coliseu pra você, para que tenha uma pequena noção do quanto é bonito este lugar e do porquê d'eu gostar tanto dessas bandas de cá.
Na sala de rattan, há pouco, foi mais ou menos isso: "terapia é aquela hora da semana dedicada à metodização dos seus pensamentos. Não importa o interlocutor, seu freudianismo, seu lacanismo ou o que seja. O que importa mesmo é a existência desta hora, sagrada e sistematicamente marcada para que você coloque ordem naqueles fragmentos de autoanálise que acontecem a todo instante, mas que nunca se concluem. Porque essas análises acontecem no recanto mudo da caixa craniana, quando muito são sibiladas para você mesmo e por isso mesmo não podem ser finalizadas. E porque elas são interrompidas por esta ou aquela outra coisa, as coisas que inevitavelmente acontecem - um telefone que toca, uma barba a fazer, um olho a se fechar, a lista vai ao infinito e, de novo, obstrui este fluxo. Meu pai sempre aconselha que o ideal é, ao dormir, antes e quase na hora da perigosa vigília, pensar em tudo o que você fez durante o dia, num balanço acusatório-organizador. Como nenhum ser humano consegue fazer isto, a menos que seja um monge ou um movido a anfetaminas, fica esta hora agendada para este encontro consigo mesmo. Se você marca hora para ir ao dentista, por que não marcar uma para ir a você? Já não temos tido tempo mesmo para Deus, então por que não fazer um esforço para ter um tempo para você mesmo? Afinal, Deus reside em nós, também e sobretudo.".
Pra uma tarde de pós-chuva, regada a cappuccino (grafia correta?), na janela que se abre para árvores molhadas, alguns passarinhos vindo bebericar nos jarros de plástico cheios de água com açúcar (eu tenho sorte de ter isso tudo em casa), fumando (mais) um cigarro. É pra alguém que eu ainda não conheço e pra uma situação com este alguém que eu, naturalmente, ainda não vivi.
Às vezes eu quero chorar Mas o dia nasce e eu esqueço Meus olhos se escondem Onde explodem paixões E tudo que eu posso te dar É solidão com vista pro mar Ou outra coisa pra lembrar Às vezes eu quero demais E eu nunca sei se eu mereço Os quartos escuros pulsam E pedem por nós E tudo que eu posso te dar É solidão com vista pro mar Ou outra coisa pra lembrar Se você quiser eu posso tentar mas Eu não sei dançar Tão devagar pra te acompanhar
Marina (na época sem o Lima, eu acho) - Eu não sei dançar
Aos poucos, eu vou voltando. Já estou escrevendo do meu velho e bom W.Bloggar, onde eu sei digitar os comandos de coeur (eu tenho uma aversão ao uso do mouse, ele me cansa, ele me corta o raciocínio) e onde tudo me obedece melhor.
Os comentários também estão respondidos, como já deveriam ter sido há um bom tempo. Afinal de contas, é para vocês, supletivamente, que eu escrevo. Como eu e tantos outros autores de páginas íntimas parecidas com esta já cansamos de afirmar, se não quiséssemos e se não dependêssemos de leitores, estaríamos recorrendo a caderninhos ou a arquivos ponto-doc fechados com senha. Enfim faríamos qualquer outra coisa, mas seguramente não escreveríamos neste formato aberto ao público. Obrigado a estes que acompanham meus devaneios particulares - particulares e sobretudo comuns e ordinários, porque eu vivo uma vida comum e ordinária - e que vêem nesse acompanhamento uma forma de prazer.
E é isso. Vou terminar de ler meus livros para procurar outros depois, vou agendar mais sessões no cinema, vou cuidar, antecipadamente, do meu programa do próximo final de semana, vou à terapia amanhã e vou continuar pensando bastante, especialmente na hora do banho (é de lá que vêm meus lampejos); enfim, vou continuar jogando aquele jogo de todos os dias, que às vezes toma forma de duelo, que às vezes se abranda.
Ler e sentir e refletir um pouco do abaixo, por gentileza...:
" (...) Muito se teria a dizer sobre esse contentamento e essa ausência de dor, sobre esses dias suportáveis e submissos, nos quais nem o sofrimento nem o prazer se manifestam, em que tudo apenas murmura e parece andar nas pontas dos pés. Mas o pior de tudo é que tal contentamento é exatamente o que não posso suportar. Após um curto instante parece-me odioso e repugnante. Então, desesperado, tenho de escapar a outras regiões, se possível a caminho do prazer, se não, a caminho da dor. Quando não encontro nem um nem outro e respiro a morna mediociridade dos dias chamados bons, sinto-me tão dolorido e miserável em minha alma infantil, que atiro a enferrujada lira do agradecimento à cara satisfeita do sonolento deus, preferindo sentir em mim uma verdadeira dor infernal do que essa saudável temperatura de um quarto aquecido. Arde então em mim um selvagem anseio de sensações fortes, um ardor pela vista desregrada, baixa, normal e estéril, bem como um desejo de destruir algo, seja um armazém ou uma catedral, ou a mim mesmo, de cometer loucuras temerárias, de arrancar a cabeleira de alguns ídolos venerandos, de entregar a um casal de estudantes rebeldes os ansiados bilhetes de passagem para Hamburgo, de violar uma jovem ou de torcer o pescoço a algum defensor da ordem e da lei. Pois o que eu odiava mais profundamente e maldizia mais era aquela satisfação, aquela saúde, aquela comodidade, esse otimismo bem-cuidado dos cidadãos, essa educação adiposa e saudável do medíocre, do normal, do acomodado. (...)".
Meu computador continua esquisito, meu W.Bloggar continua não entrando de modo algum e eu continuo sem paciência para arrumar isso. O pouco que eu tenho escrito – ou melhor, o pouco que eu tenho relatado apenas mecanicamente, quase por obrigação-dever-hábito-vício – tem vindo do Word mesmo, para posterior transferência no browser. Mas isso não interessa. E, ainda nesse quesito ‘o micro que voltou diferente e que está com tudo bagunçado’, meus favoritos continuam desorganizados (os escritos alheios, tenho lido de modo aleatório e irregular), eu continuo sem o Kazaa, e por aí vai. De novo, não interessa.
Não interessa muito porque só tenho usado o computador para as coisas mais banais – conversas na florzinha piscantee música ambiente no Winamp. Nada mais. Ainda assim, tenho passado muito tempo aqui, sei lá. Aquela paz de espírito que eu disse antes parece estar cedendo lugar a um tédio odioso e arrastado, este tédio que redunda numa retração criativa, esta retração contrastando com uma vontade louca de escrever coisas originais e interessantes ou pretensamente originais e interessantes que, ainda não sendo originais e interessantes, ainda têm uma boa máscara que disfarça a falta dos predicados que eu busco. Essa vontade é agravada e/ou estimulada pelos bons livros que eu tenho lido ultimamente e mesmo por alguns outros weblogs que a cada dia vão crescendo e crescendo. São alguns e eu dou o crédito para eles todos depois. Não vou ficar resenhando.
E reapareceram as traduções fisioterapêuticas para fazer e para dar algum dinheirinho para os meus pequenos excessos. Só que eu não tenho paciência para elas. Só fiz a mais urgente, que deu pouquíssimas páginas e que mal completou uma centeninha de reais. As outras, estão aqui, esperando, porque não têm urgência e eu não sinto a urgência delas.
Vi Separações ontem, porque o filme era de graça, eu tinha pego uns convitinhos no balcão, em um dos muitos dias que eu tenho ido ao cinema. O cinema ontem, aliás, estava bem cheio para uma simples segunda-feira. E tinha um cara tão bonitinho perto de mim – quer dizer, bonitinho e interessante para os meus padrões. Mas não quero falar sobre isso. Aliás, não quero mais falar.
Relanceando uma olhada no que eu disse, percebi que estou ficando, novamente, insosso e chato e reclamão e monotemático e arrastado e tudo aquilo mais.
Passou o brainstorm. Volto ao reino dos pontos e das maiúsculas. O computador voltou quase igual ao que era antes. Ficaram os arquivos, as músicas, os textos, os gigabytes de informações estão intactos.
Mas foram-se as contas do Outlook Express com todas as suas pastas, sumiram os favoritos. É quase como se voltar à casa de antes, só que levemente desarrumada, num nível suficiente para causar desconforto. E há pequenas mudanças que eu preciso fazer aqui neste jardinzinho, há os comentários para se responder, há outras configurações a ser feitas. E estou falando só do mundinho do meu computador, porque há muitas outras coisas por fazer. A-fazer-es.
E, por incrível que pareça, vivo um momento de calmaria profunda. Desta vez, não fui correndo montar este computador, desta vez não fiquei amaldiçoando os dias sem a torre aqui na escrivaninha, não fiquei avidamente deixando tudo como antes. Tudo pode esperar. Com tamanha fleuma, foi-se criatividade. Eu poderia chamar isso de morte, e pode até ser mesmo, mas a morte é o descanso, não é mesmo? Estou descansando. Em paz.
fluxograma da ausência não escrita - não recomendado a claustrofóbicos
são paulo, sábado, onze de janeiro de dois mil e três, saí da serra pra descer a este vale de ar poluído e de céu plúmbeo, tudo deixando o meu pulmão e o meu resto pesando como o chumbo – gasolina tão cara, oitenta reais no posto mais barato e confiável aqui perto de casa, nove quilômetros por litro é tão pouco, mesmo com o ar condicionado ligado, daqui a pouco vou virar igual aos da periferia tão distante e tão próxima e vou começar a usar meu carro só aos finais de semana – missa de não sei quantos anos de morte na casa de uma das damas de honra do casamento da minha avó, chá verde sem açúcar e outras iguarias que os de lá estão aprendendo a degustar, esta mulher, a tomiko, foi castigada a galope, ela teve dois filhos defeituosos porque ela tirava sarro de uma velha que tinha o mesmo problema e esta velha até chorava de raiva e de tristeza das chacotas, ficava tão ofendida e exposta que acabou jogando essa praga que pegou na tomiko, que ainda teve de tirar os dois seios, isso tudo foi minha tia que me contou, depois que fomos embora de lá, o mundo está doente – as minhas costas estão vermelhas e ardendo e a ultralounge com suas paredes também vermelhas e aquelas pessoas todas encostando em mim, não consigo ficar aqui mais aqui, o vermelho é a cor da paixão e a paixão é patológica, assim me ensinou a terapeuta, e eu não quero mais patologias pra mim, isso eu mesmo ensinei pra mim mesmo – descendo a frei caneca, vem a cor azul d’a loca, o azul é a piscina que alivia e que contrasta com o queimado daquele outro vermelho e aqui a vodka é tão barata, eu sou amigo da ritinha que é a barwoman mais legal desta cidade e ela me dá a smirnoff e cobra o mesmo preço da outra marca vagabunda que vem na garrafa de plástico, e eu ainda estou conversando com a maria de los angeles que é um amor de pessoa e agora estão acontecendo aquelas coisas sobre as quais eu não falo e muito menos eu escrevo, porque eu não sou apelativo, ou talvez porque eu seja apenas mais um carola que não gosta de falar sobre sexo, na verdade uma criatura que nem gosta tanto assim de sexo, eu prefiro os falos artificiais de um cartão de crédito tilintando, de um bom carro que desliza suavemente e dos outros substitutos artificiais que acusam de ser pobres mas que são mais controláveis...
...são paulo, de novo, e já é domingo, e já é de manhã, esta mesma manhã cinza igual à tarde anterior, este céu parece um quadro parado, esta cidade é parada, esse frenesi todo só engana, é tudo a mesma coisa, e nem é tão no fundo assim, eu estou um pouco bêbado e muito verdadeiro, eu tenho andado muito verdadeiro ultimamente, e eu conto pro meu pai que a minha irmã andou passando a mão nas garrafas do whisky caro que ele guardava aqui - eu só preciso estar acordado como já estou agora pra já estar odiando tudo o que eu disse e tudo o que fiz antes, ah! a culpa, maldita, no fundo eu só quero que vejam que eu sou mais transparente e que eu chego bêbado em casa sim, mas não bato mais o carro porque eu me controlo bem agora, eu sou vigoroso, nunca roubei bebidas – visita de ano novo, sou eu quem dirige agora pra levar minhas tias pra esses eventos, porque o meu tio não tem mais paciência e eu estou apenas seguindo o ciclo que deve ser seguido, e tem esta minha prima de segundo grau que também faz terapia e que também sofre de transtorno bipolar, este nome bonitinho e politicamente correto que deram pra psicose maníaco-depressiva, só que a minha forma é branda e agora está mais branda ainda porque eu tomei sol e o sol é vida, então eu me enchi de vida e fiquei mais vigoroso, eu fiquei sete anos sem tomar sol porque eu comecei a ter medo da vida quando os meus hormônios começaram a explodir, esta não é uma metáfora barata, é apenas a verdade – e o computador quebrou, vai ter de ir pra técnica, eu nem estou ligando muito, nem tenho postado e a net está aí com as mesmas coisas de sempre...
... são paulo, são paulo, são paulo, eu já gostei mais de você, e hoje é segunda e eu só quero dormir e tomar chá verde bem quente e sem açúcar, preciso retomar esse hábito que me diminui a vontade de fumar e que parece que limpa todas essas porcarias que eu fumo e que eu respiro e que eu vivo aqui...
... são paulo, terça-feira, dezoito de janeiro de dois mil e três do ano do nosso senhor que às vezes parece que anda é se esquecendo muito das gentes, eu vou sair de casa, vou ao cinema sozinho, porque este é um programa ainda não tão extorsivo e aqui no frei caneca eu posso estacionar com o manobrista ganhando um belo desconto por causa deste meu cartão verdinho – esperando o messias, eu também estou esperando, todo mundo está, e o cinema argentino está cada vez melhor mesmo, se o efeito orloff vier pro brasil, estamos perdidos – a nobel é uma livraria muito da podre, eles não têm quase nada aqui, mas eu achei o lobo da estepe do hesse que eu já queria ler há tanto tempo e ainda vou levar mais o estrangeiro do camus que eu também preciso ler, a leitura ainda é minha tábua, os livros parecem poças de lama que eu vou esgravatando igual um cachorro enfia o focinho na terra à cata de alguma coisa, no meu caso eu só tento encontrar a mim mesmo – a radial leste está muito parada, eu não soube calcular o horário, antes das oito é impossível andar no sentido do bairro – a minha casa é aconchegante às vezes, apesar deste ar quente de muita proteção maternal e feminina, as minhas tias estão envelhecendo e o passar dos anos não torna ninguém melhor, só vai acentuando as características, inclusive os defeitos, e chega uma hora do cansaço ou da maturidade ou da resignação, não sei, só sei que chega uma hora em que a pessoa vai ficando estática e impassível, igual a minha avó ficou, se bem que me disseram que ela sempre foi serena, é isso, serena é a palavra, mas isso só vem depois de muito tempo, quando vem, eu conheço velhos que são pura maldade como esta minha vizinha espanhola que vive aprontando das suas por aqui, mas ao menos ela gosta de animais, isto deve significar alguma coisa – eu quero dormir, já, mas antes eu vou ver charmed, eu tenho uma alma pop e adolescente também...
... são paulo, quarta-feira, o meio da semana, dia de ir à terapia no meio da tarde, na hora de almoço, a ibirapuera é sempre esta coisa, estes motoqueiros ainda vão arrancar o meu espelho, a minha paciência já arrancaram, ai, meu cigarro caiu embaixo do banco e eu ainda estou no comecinho da avenida, vai demorar pra eu chegar na pavão, eu preciso daquele pacotinho vermelho, o farol está fechado, eu vou enfiar a minha mão embaixo do banco e acabo ficando com a mão presa embaixo desse banco maldito, estou parecendo um contorcionista desajeitado, ainda bem que tem insufilm e ninguém que está lá trás vai me ver, quem está na frente vai me ver nessa situação vergonhosa, mas é menos pior do que a avenida inteira – a íris é muito forte, e ela sempre me serve este café forte nesta xícara engraçada, o meu contorcionismo me deixou duas marcas na mão, parece uma mordida de vampiro, igual às duas pintinhas que eu tenho num dos lados do meu queixo que quem sabe um dia eu tire – a sessão foi de um jeito que eu não me lembro, eu só vou falando igual eu estou escrevendo aqui agora, se alguém já chegou até aqui, parabéns, eu vou continuar, o shift é uma tecla chata que interrompe o seu fluxo, é bom esquecê-la de vez em quando, acho que eu deveria experimentar escrever sem acentos um dia, deve ser bem libertário – eu quero sair de novo, a minha irmã já voltou da viagem dela, ela que ficou sete dias sem quase ligar aqui pra casa, não entendo porque ela faz isso, o povo aqui é neurótico mesmo, eles ficam contentinhos com telefonemas, nem ligam de dar o que seja, só pedem o mínimo em retorno – água quente sob ponte vermelha é um filme esquisito e esta sala está congelando, eu não entendi o final deste filme, eu sou um japonês falsificado, só ficaram algumas feições e algumas outras coisas, mas o japão mudou tanto depois daquela guerra que nem mesmo as minhas tias entendem aquela nhk direito, mas ao menos eu vi esse filme comendo aqueles biscoitinhos de amareto que são muito bons, o pacote é meio caro, mas vale a pena, acho o fim ser sovina, ainda mais com alimentação, é bem compreensível que a avareza seja um pecado capital – ando comendo demais ultimamente, mas eu não engordo mesmo então vou comer um crepe aqui, de queijo, o atendimento é lento e desatento, não tenho mais paciência, estou é com sono, tenho dormido e acordado cedo...
...hoje é dia de feira, tem pastel aqui em casa, o pastel em troca de eu não poder sair de carro até umas três da tarde, a menos que eu deixe uma nota da arara no estacionamento aqui perto – me ligam agora à tarde, vou almoçar amanhã no america lá no morumbi, o caminho ao menos é bem reto – estou lendo o lobo da estepe bem devagar, a minha vontade é de grifar esse livro inteiro, tem várias frases e parágrafos irretocáveis – o telefone toca de novo, vamos todos amanhã comer no memê, é como eu chamo o america, carinhosamente...
... sexta-feira, thanks god it’s friday, mas qual tem sido a diferença dos meus dias, afinal? vou levar chá verde pro meu amigo, todo mundo quer ficar saudável, janeiro é o mês das boas resoluções, espero que elas continuem – aqui no memê todo mundo parece sério, engravatado e saído dos seus escritórios, dos seus afazeres, todos devoramos tudo rápido, não se come, não se degusta, só é o processo biológico e mecânico do deglutir – neste apartamento taurino-virginiano tem muitos tantos livros bons e interessantes, eu gosto do cheiro dos livros, eu gosto de cheiros, o olfato é onírico, as palavras até se parecem e eu vivo mais de sonhos e de devaneios de cinderela, eu tenho este complexo, eu acho, nem sei do que se trata mas acho que o nome tem tudo a ver comigo - o que elas querem? eu quero um amante com sotaque britânico, são as três amigas, é tudo trio mesmo, as pirâmides, as tríades, os três filmes que eu vi nesta semana, mas eu já falei disso antes, não quero me alongar, gostei do filme, o ewald filho é um chato que não percebe a que cada coisa se propõe e fim – piola da lorena com gim tônica, sou muito influenciável, é o que as brits bebem lá no filme e eu quero viver cinematograficamente em alguma coisa, e vamos às tríades, então eu tomo três doses em homenagem secreta e de coincidência – quero dormir de novo...
... são paulo, sábado... é, são paulo. infelizmente.
Cheguei há pouco, literalmente recarregado. Dos muitos raios solares que eu tomei lá, trago uma recordação na pele, que está avermelhada e quase sem olheiras, até. Da água límpida da mina que abastecia o chuveiro, também trago uma lembrança na pele, que está muito mais lisa.
É, eu estou, literalmente, solar.
Foi tudo muito bom, é só o que eu posso dizer.
E qual não foi a minha surpresa ao chegar aqui e encontrar essas dez mensagens de bon voyage?
Crianças, obrigado. Muito mesmo. Tenham certeza de que esses votos também ajudaram a que eu tivesse boas quarenta-e-pouco-horas, longe dessa poluição, longe desse trânsito, longe dessas luzes artificiais. Eu adoro tudo isso, o cenário urbano é praticamente meu habitat. Mas sabe que eu percebi que, no fundo, somos todos bons selvagens? E trocar o cheiro de asfalto pelo de mato queimado e molhado, dentre tantas outras trocas, é sempre muito necessário.
E, agora, se me dão licença, eu não quero escrever. Assim quero ficar por um tempo, me lembrando de tudo que eu vivi lá. Do tanto que eu dormi, sem pesadelos, sem sobressaltos. Do pouco que eu fumei - sim, eram, no máximo, quinze cigarros por dia, o que, para mim, é quase um nada...!!!
Acabei de decidir que eu vou ao encontro da natureza. Um (re?)encontro muito rápido: parto amanhã de manhã e volto logo no dia seguinte, sexta-feira, em horário ainda ignorado.
A oportunidade surgiu de repente, ou melhor, foi decidida de repente, porque o sítio da minha tia esteve lá, à minha disposição, com sua piscina e tudo, há tempos. E assim estou indo: sem plano pré-estabelecido, sem consulta a agendas, sem cálculos. Enfim, foi do melhor jeito, é o que dizem por aí.
E é isso, querido diário. Fico dois dias sem escrever uma linha aqui; já fiz isso antes, digo, ficar sem escrever, só que não foi pela falta do computador.
Estou precisando mesmo de um tempo desta selva que se tornou São Paulo. Percebi isso hoje, na Ibirapuera, a caminho do meu terapeutizar-se. O trânsito livre, a avenida parecia um tapete, as férias escolares, os pirralhos e as suas mães enfiadas nos Tatus (aqueles carros tipo Scénic e Picasso, que eu já quis ter, desatino freado pelo meu prudente pai). E lá estava eu, me sentindo o próprio Aladin voando no tapete, os faróis todos abertos quando, de repente, levei uma fechada. Uma fechada leve, daquelas que se levam sempre e que todos nós fazemos os outros levar, mas que foi suficiente pra me tirar do sério e me tornar uma judia histérica de Woody Allen. Não cacarejei feito uma galinha, a própria buzina do carro fez isso por mim. Neuroses urbanas, que continuam neuroses do mesmo jeito.
Vou-me. E volto logo.
Comigo, levo alguns cigarros, alguns outros livros, uma máquina fotográfica e todos aqueles outros badulaques. Talvez, eu ainda leve um laptop, para registrar meus momentos. Mas isso é bem talvez. Porque a minha meta é deixar até mesmo o celular desligado.
Lá, dá pra ver a linha completa da comida de astronauta (que me lembrou os Jetsons e a minha nave espacial do Playmobil).
São os tais Pratos Prediletos. Nas próprias palavras deles: "A fabricação de PRATO PREDILETO™ utiliza-se do processo retort - avançada tecnologia de esterilização com o uso de embalagens hermeticamente fechadas - que permite a conservação do produto por longos períodos à temperatura ambiente, sem a necessidade de conservantes ou refrigeração."
Acordei às quatro e meia da manhã hoje, depois de ter ido pra cama um pouco depois da meia-noite. Menos de cinco horas de sono são insuficientes pra mim; aliás, menos de dez já são. Por que dormi tão pouco e por que eu acordei num horário tão estapafúrdio? Por causa da Pipoca - não a de microondas, mas a Pipoca-cão - que estava latindo na grade, querendo vir pro andar de cima.
E lá se vão (mais) cigarros e (mais) um pacote de Miojo e de outras porcarias de supermercado. Ainda bem que, dentre as minhas pouquíssimas resoluções de Ano Novo (que eu não conto, pra não dar azar), não incluí o famoso melhorar a alimentação.
Falando de comidas saudabilíssimas, o futuro concunhado (é assim mesmo?) do meu pai trabalha na Aji-no-moto e o presenteou com uma caixa enorme daqueles venenos. No meio dos predizíveis temperos, veio um strognoff de astronauta, que fica pronto no microondas em menos de dois minutos. Tomei coragem e experimentei ontem. Funciona assim - um saquinho laminado, como um tempero-gigante do Miojo, que você despeja no prato e joga no microondas. Claro, não é muito saudável, mas nem tão ruim quanto se poderia supor. Fica aí o conselho àqueles que moram sozinhos, pra um dos muitos dias em que se sente fome e preguiça desesperadoras.
Junto, veio também outro pacote dessa comida de astronauta, sabor feijoada. Mas, essa, eu ainda não experimentei, e nem sei se vou. Acho feijão preto, em geral, uma coisa muito esquisita. Aliás, acho feijão, no muito geral, uma comida esquisita. Esquisitices minhas. Mais delas.
Agora, vamos ver se, ou melhor, vamos esperar que, com esse horário absurdo, eu consiga regularizar meu sono. E cumprir, pelo menos, a pendência da tradução que a moça fisioterapeuta me mandou. Sim, eu preciso de algum argent, todos sempre precisamos, não é?
E eu tenho lido todos os comentários, meus poucos leitores. O problema é que eu continuo com o mal da preguiça, mas, um dia, prometo respondê-los. A preguiça é o meu pecado capital da ordem de agora.
Sobre pecados, beber demais também poderia estar enquadrado em algum pecado capital?
Como eu pude ficar tanto tempo sem ter lido uma única coisa do Caio Fernando Abreu? Ah, sim, literatura, estou falando sobre isso de novo. Mas aqui eu posso - aliás, em nome de uma obrigação que eu tenho comigo mesmo, eu devo - falar sobre o que eu quero, não é mesmo?
Se bem que, ultimamente, o que eu tenho - por preguiça e por um medo-impossibilidade de me expor de verdade e por um batalhão de outras coisas - é justamente o contrário. Não tenho falado tudo. Tenho falado menos. Quando falo algumas coisas que, depois, eu acho que eu não deveria ter falado, eu vou lá, e edito a-coisa-que-depois-eu-acho-que-não-deveria-ter-publicado, me desculpando e me escorando no direito de arrependimento que eu aprendi que todo autor tem. "Sou só autor de um diário de mim mesmo, mas, ainda assim, sou autor e, então, eu posso ter esse direito de arrependimento e mudar de idéia e até destruir algumas dessas idéias", é mais ou menos esse o raciocínio que eu me imponho. E até ouso a me comparar à Lygia Fagundes Telles - sim, estamos num humor (mais) literário aqui - que proibiu a venda dos seus primeiros livros, os coitadinhos escritos no impulso da imaturidade, ou, numa expressão mais usada, no arroubo da juventude.
Pois bem. Caio Fernando Abreu. Sabia do tal Morangos Mofados, sabia que ele tinha morrido de AIDS, que era um homossexual assumidíssimo, que era amicíssimo (tudo no superlativo-redudante, já que estamos nesse campo tão afrescalhado) da Lygia Fagundes Telles. Sabia de um punhadinho de coisas a seu respeito e a seu favor, mas, mesmo assim, nunca quis lê-lo, nunca quis sequer aprofundar mais o pouco sobre ele que eu ficava sabendo pelos comentários esparsos do por aí.
Quando me vinha a oportunidade de ter um livro dele, eu me dizia, lá no fundo, que os seus escritos eram, certamente, uma literaturazinha escarrada e de temática queer, aquela coisa feita pra chamar a atenção, para alardear, muito ativista. No fundo, acho que eu estava-me desculpando e me prevenindo. É, me prevenindo pra não tomar contato com o que eu devia conhecer. Aquelas coisas que todos nós vivemos fazendo, não é?
Então. Ontem, eu estava organizando uma lista imensa no Submarino dos livros que eu quero comprar. Porque o meu pai, este mês, já me liberou aquela certa verba, que eu batizei de verba-submarino, destinada a tapar um pouco a minha boca e a segurar um pouco o meu desespero com mais alguns livros. Porque assim, com livros, eu tenho material pra ficar em casa, quietinho, fumando meus cigarros e tomando meus venenos, todos legalizados por não serem tão nocivos assim. Aquilo que eu já contei pra você, Kitty, das minhas fases extremas que eu vou alternando. Um muito do que se chama de libertinagem que é substituído, logo em seguida, por um outro muito do que se convencionou chamar de calmaria.
E, uma hora, eu estava escolhendo um livro para adicionar à minha lista pessoal de presentes - que, aliás, é pública, quem quiser me dar um presente, é só falar comigo que eu passo o endereço que eu cadastrei. Naturalmente, é impossível que eu me lembre qual livro era esse, mas vi que aqueles que compraram esse tal livro também tinham comprado o Morangos Mofados. Aquela coisa nefanda de quase-venda-casada e que acaba tornando maior o nosso espírito consumista. Mas que deixou um pouco da minha má vontade de lado.
E, ainda impulsionado pelo ócio que tem sido característico nesses dias (depois, quem sabe, eu fale disso, aliás, preciso falar disso, mas depois) eu fui pro Google, pesquisar sobre o autor. Entrei na página oficial dele, e lá vi que havia uns contos disponíveis. E uma luz se acendeu, tão logo eu escolhi o primeiro conto da lista, Dama da Noite. E outras luzes foram-se acendendo em mim, quando fui descobrindo mais coisas, que ele tinha-se probido de ler Clarice, que ele tinha parado de se vestir com roupas escuras, que ele tinha conseguido, à certa altura, cumprir uma série de promessas que eu venho me fazendo há tempos e que não saem do plano ideal das minhas resoluções de Ano Novo.
Ele conseguiu-me deixar com mais da minha fome-sede. Vontade irresistível de ler o tal Triângulo das Águas, de ler mais d'Os Dragões Não Conhecem O Paraíso. De ler tudo que ele escreveu. De ler tudo que se escreveu sobre ele. Não sei se eu precisava disso, de mais dessa fome-sede, justamente agora, mas o fato é que eu gostei.
E vou dormir, agora, porque tá tarde. E, como o próprio disse: "As damas da noite recolhem seu perfume com a luz do dia".
Fui-me deitar às mais de oito horas da manhã. Fiquei lendo o tão aguardado Correspondências, que eu já vinha querendo há tempos e que a minha irmã surrupiou da estante do namorado dela.
Li do começo ao fim, sem parar, naquele frenesi que quem já me conhece um só pouquinho pode calcular. O mesmo frenesi que os que me lêem só aqui desconhecem e que, muito provavelmente, nem imaginam. Porque eu sou um coelho, não sou, senhor Gente?
O tão esperado livro - que eu não comprava por preguiça e por conta dessa minha fase extrema de saídas e de bebedeiras - chegou às minhas mãos lá pela uma da manhã. Minha irmã, chegando em casa e sabendo da minha vontade, me avisou que tinha uma coisinha no carro dela esperando por mim.
A coisinha tem muitas páginas, tem um acabamento relativamente primoroso, tem aquela gravura que eu já tinha visto. E fiquei com ele, o livro, aqui do lado da escrivaninha, perto dos muitos maços de cigarro que o meu pai traz pra mim todos os dias. Deixei o livro aqui, repousando, abrindo algumas páginas aleatoriamente, só olhando as poucas figuras, examinando aquela letra desgarrada que eu também já tinha visto antes. Algumas coisas que lá de dentro eu já tinha visto e lido antes, como aquela pessoa da qual você conhece uma série de coisas mas que, numa hora mágica, você passa a desvendar melhor.
Enfim, fiquei um tempinho não querendo começar de verdade, porque, se eu começasse de verdade, eu ia terminar logo, minha síndrome de antecipação. Na síndrome da antecipação - que alguns resumem em sofrimento por antecipação - eu englobo o medo, a saudade e todas aquelas outras coisas tão fortes e tão boas.
E, uma hora, não deu. Comecei a ler, cronologicamente, as páginas do começo, os olhos percorrendo rápido, os números crescendo lá embaixo, um monte de folhas aumentando à esquerda e o outro monte diminuindo à direita. Tudo isso terminou muito rapidamente, esse sobe-esquerda-abaixa-direita. Me lembrou até aquele brinquedo da infância, a MolaMania, alguém se lembra? Foi rápida a leitura, mas feita na certeza de que eu estava absorvendo toda ela direitinho pra digerir tudo também muito direitinho depois.
Porque eu sou assim - tudo rápido. E muito. Já fui mais rápido e mais muito em tudo - no comer e no falar, por exemplo (tanto que muitos nem entendiam uma única palavra do que eu dizia, mesmo estando "formalmente" em estado de sobriedade). Acho que hoje não sou mais tanto assim, e, pra dizer a verdade, nem quero mais saber o que eu fui e o que eu sou agora. Andei descobrindo e percebendo - e já sabendo que um dia me esqueço dessas descobertas e dessas percepções - que gente não é bolo pra ser dividido em fatias de fases e de períodos.
E fiquem sossegados, hoje eu vou poupá-los da minha claricite crônica e que eu quase cronico aqui, às vezes.
Sem inspiração. As coisas têm acontecido, as festas têm vindo, os copos têm sido enchidos e esvaziados, as músicas têm entrado nos ouvidos. Roda, roda, roda. A vida tem sido vivida, enfim.
E eu continuo com fome-sede sabe-se lá de que(m?).
Sobre todos aqueles que continuam tentando, Deus, derrama teu Sol mais luminoso.
O Sol entrou ontem em Libra. E porque tudo é ritual, porque fé, quando não se tem, se inventa, porque Libra é a regência máxima de Vênus, o afeto, porque Libra é o outro (quando se olha e se vê o outro, e de alguma forma tenta-se entrar em alguma espécie de harmonia com ele), e principalmente porque Deus, se é que existe, anda destraído demais, resolvi chamar a atenção dele para algumas coisas. Não que isso possa acordá-lo de seu imenso sono divino, enfastiado de humanos, mas para exercitar o ritual e a fé - e para pedir, mesmo em vão, porque pedir não só é bom, mas às vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal. Nesse zero grau de Libra, queria pedir a isso que chamamos de Deus um olho bom sobre o planeta terra, e especialmente sobre a cidade de são Paulo. Um olho quente sobre aquele mendigo gelado que acabei de ver sob a marquise do cine Majestic; um olho generoso para a noiva radiosa mais acima. Eu queria o olho bom de Deus derramado sobre as loiras oxigenadas, falsíssimas, o olho cúmplice de Deus sobre as jóias douradas, as cores vibrantes. O olho piedoso de Deus para esses casais que, aos fins de semana, comem pizza com fanta e guaraná pelos restaurantes, e mal se olham enquanto falam coisas como: "você acha que eu devia ter dado o telefone da Catarina à Eliete? ? e outro grunhe em resposta. Deus, põe teu olho amoroso sobre todos que já tiveram um amor, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se verem ? nesses lugares onde um outro ser humano vai-se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa. Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, Deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o CVV. Olha bem o rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete Moon Over Bourbon Street, na voz de Sting, e chora. Coloca um spot bem brilhante no caminho das garotas performáticas que para pagar o aluguel tão duro como garçonetes pelos bares. Olha também pela multidão sob a marquise do Mappin, enquanto cai a chuva de granizo, pelo motorista de taxi que confessa não Ter mais esperança alguma. Cuida do pintor que queria pintar, mas gasta seu talento pelas redações, pelas agências publicitárias, e joga tua luz no caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto- olha por todos aqueles que queria ser outra coisa qualquer a que não a que são, e viver outra vida se não a que vivem. Não esquece do rapaz viajando ônibus com seus teclados para fazer show na Capital, deita teu perdão sobre os grupos de terapia e suas elaborações da vida, sobre as moças desempregadas em seus pequenos apartamentos na Bela Vista, sobre os homossexuais tontos de amor não dado, sobre as prostitutas seminuas, sobre os travestis da República do Líbano, sobre os porteiros de prédios comendo sua comida fria nas ruas dos Jardins. Sobre o descaramento, a sede e a humildade, sobre todos que de alguma forma não deram certo (porque, nesse esquema, é sujo dar certo), sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma ? sobre esse que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões. Sobre as antas poderosas, ávidas de matar o sonho alheio- Não. Derrama sobre elas teu olhar mais impiedoso, Deus, e afia tua espada. Que no zero grau de Libra, a balança pese exata na medida do aço frio da espada da justiça. Mas para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo dia sem desistir, envia teu Sol mais luminosos, esse zero grau de Libra. Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada.
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Réveillon. Acho que isso vem, provavelmente, do francês réveillez-vous, que significa desperte! Posso estar errado - caso esteja, ou o Maurice ou o Cesar, muito mais versados do que eu, podem-me corrigir agora.
Pois bem. Despertar. É o que eu acabo de fazer. Não no sentido figurado da palavra, o sentido místico e transcedental que se quis dar à data de hoje. Acordei mesmo. Só abri os olhos, ardidos, quando já era tarde e com um pouco de ressaca. Eu agüento beber bastante, mais do que quase todo mundo que eu conheço, só que isso não me isenta do mal, dentre outros males, do gosto de guarda-chuva do dia seguinte. E o gosto do meu guarda-chuva particular, agora, é quase ou tão ruim quanto o gosto de cera daqueles guarda-chuvinhas de parafina da Evelyn, quem se lembra deles?
Minhas passagens de ano quase nunca foram em outro lugar que não no retiro do meu lar. Para o estranhamento dos meus amigos, que não têm olhos puxados como o meu, ou, quando os têm, não viveram sob as asas protetoras da família ainda atrelada a certos niponismos como eu vivi e como eu ainda vivo. É que a minha família - a paterna e a única que eu considero como família - é budista praticante. Na verdade, é sincrética, acho que nos abrasileiramos antes que pudéssemos perceber. Pois temos aqui em casa um butsu-dan, um templo que se divide na dedicação a uma das linhagens do budismo (não me perguntem se é mahayana ou o que seja, só sei que a página oficial é esta) e ao culto aos antepassados. Não sei até onde essas duas linhas de crença se tocam, só sei que o altar é nitidamente dividido em duas partes bem distintas - duas folhas de porta separam essas duas partes.
À esquerda, para quem olha, fica a imagem negra e antiqüíssima sobre as almofadas que a minha própria avó fez, as almofadas que ainda ficam sobre um pequeno tablado de madeira preta, cheio de símbolos misteriosos, um círculo cheio de passagens que lembram um labirinto de jardim, com uma interrogação no meio, este mesmo círculo que está na frente de uma medalha que eu carregava comigo e dei para um grande amigo meu e que dá pra ver aqui. Esta imagem é o deus-kamisama, que está coberto por um dos manto em tira que a minha avó também fez na sua velha máquina de costura Singer, de manivela e de pedal, e que em breve vai servir de mesinha de telefone na sala. Esta imagem que eu sempre acho que muda de expressão, parece que sempre que eu apronto uma das minhas e vou lá, acender o meu incenso, os olhos dela estão mais apertados e sua boca está enrigecida num rictus de "eu-sei-o-que-você-anda-fazendo".
Para kamisama, existem dois castiçais, também com os símbolos misteriosos, que servem de receptáculos para velas brancas e que só podem ser apagadas por um abafador, não se pode soprá-las. E tem mais uma tigela d'água, que é usada para os nossos benzimentos pessoais. E mais um porta-incesos, de novo o mesmo símbolo misterioso. E existe um incensário especial, pequeno, do mesmo material de madeira marrom-escura do porta-incensos e com o mesmo símbolo; neste incensário, deve-se acender tão-somente um único incenso. Um pouco à direita, está a pequena tigela de metal dourado e já agastado, uma tigela-sino que deve ser batida com uma pequena baqueta de pedra, também antiga.
À direita, fica a parte do culto dos antepassados. As fotos dos que já foram - meus avós e meus bisavós. Um pequenino móvel de laca preta com pontas douradas guarda uma série de pequenas tábuas vermelhas, a linhas de cima para os homens e a linha de baixo para as mulheres. Essas tábuas vermelhas guardam a inscrição com os nomes desses que já foram. Atrás dessas placas, estão escritas a datas de nascimento e de morte. Um incensário, bem maior, para que se acendam três incensos - alguma coisa a ver com tríades, que a minha avó nunca precisou explicar pra mim o porquê, jamais questionei essas diferenças, apenas fui obedecendo, na certeza de estar obedecendo ao certo.
Essa parte, a dos antepassados, fica quase sempre coberta pela folha da porta do móvel de madeira clara e feita de treliças protegidas pelo vidro. E essa porta só deve ser aberta no dia primeiro e no dia quinze de cada mês e, claro, nas ocasiões solenes - as missas de morte, que ocorrem incessantemente até o quadragésimo-nono dia da morte. E depois de um ano, de três anos, de sete anos e de outros anos de cuja numeração não me lembro, só sei que se encerram aos trinta e três anos - algo a ver com o cristianismo, talvez? Só sei que essas coincidências me levam mais e mais a crer no que fui ensinado desde muito pequeno - no caminho único que todas as religiões trilham e no mesmo destino a que todas elas levam.
Hoje, ano novo, o Shogatsu, o mês de janeiro inteiro na verdade, é uma dessas ocasiões solenes em que se abre essa segunda parte. O cheiro de incenso queima as narinas, e reaviva certas memórias, no momento em que se entra naquele quarto, esse cheiro que me lembra a morte. O grande moti, uma massa de arroz branco achatada e polvilhada, é oferecido nos dois lados do altar. Mais as frutas. E mais as comidas. E mais as flores, me lembrei agora, há flores também, geralmente as que são cultivadas aqui em casa mesmo e que ficam nuns vasos que estão lá desde que eu me lembro de me lembrar das coisas.
Eu sempre achei tudo isso muito normal, a casa cheia no dia primeiro de janeiro, todos os tios reunidos, com meus primos, o altar aberto e soltando o cheiro do incenso verde. Ganhar, até quando eu fui criança fisicamente (aqui dentro, acho que nunca vou deixar de ser), o dinheiro no envelope branco e com as notas abertas, daquele jeito que eu já contei antes aqui.
Achei normal comer o meu bolinho cozido no vapor e com pasta de feijão dentro - é muito gostoso, acreditem! - achei normais, todas essas coisas que eu faço até quando eu comecei a ir à escola, num bairro em que a nossa família era a única japonesa num raio de uns bons quilômetros. Me relembrei do início da minha percepção de uma das minhas muitas coisas diferentes quando vi aquela cena de Casamento Grego em que a menina sente-se uma alienígena por levar mussaka como lanche de escola.
Muita gente olha estranho para essas minhas ritualísticas familiares. E eu me olhei estranho por muito tempo, também, imerso na fase da negação, não é ela o período inaugural do nosso tortuoso caminho de autocrescimento? Pois bem, eu me neguei por muito tempo - escondia as minhas superstições, o meu medo do número quatro, a minha aversão a arroz temperado, o meu modo de ver os casais como sendo muito mais interessantes na configuração menininho-com-menininho.
Fui-me livrando disso aos poucos, os penduricalhos. Mas, claro, ainda tenho mais pedras que eu fui adquirindo e jogando meus bolsos, sem contar as outras que tem estado aqui desde o sempre e que precisam ir embora. Não era bem disso que eu queria acabar falando, ultimamente eu tenho adquirido esse hábito de me sentar aqui e só ir escrevendo como uma mocinha escreve para o seu interlocutor imaginário. Para a a minha Kitty, que, diferente da Kitty de Anne Frank, não fica escondida no seu Anexo do Holocausto.
Como eu já me perdi de tudo mesmo, só desejo um ano novo bom. E, aproveitando o meu raciocínio das pedrinhas, desejo que todas as inutilias que adoramos catar e reter vão embora. Leveza, é isso. Porque quando sinto um pouco dela, parece que já ganhei um pedaço do Paraíso...