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Não é sopro de vida. É vômito de desespero.
"Entrer dans la lumière Comme un insecte fou Respirer la poussière (...)"
Patricia Kaas, Entrer dans la lumière
Aqui é Brasil e, então, agora, finalmente, Inês é morta, né? O Carnaval terminou, os ossos foram enterrados há pouco no galpão da Barra Funda (cerimônia fúnebre à qual eu, deliberadamente, não compareci), estamos no meio de março, o que computa mais de um quarto deste ano, e eu permaneço aqui, estático, passeando, de quarto em quarto de hora, de um quarto para o outro, cegando meus olhos com o leite branco (obrigado, Saramago!) desta e de outras telas, esquentando minha orelha no telefone fixo (o celular precisa ser reprovidenciado), tapando minha boca com algumas guloseimas, com as fumaças que vêm do ar e do cilindro, que tenta fazer as vezes do falo, cheio de fumo dentro e com outras tantas coisas, redondas, retangulares, pequenas, grandes, crocantes ou não, desviando minha fixação oral, enfim. E, claro, tentando brincar, muitas vezes sem nenhum sucesso, de transpor as tantas coisas que eu penso para este quase-papel (que, ao menos, também é branco, o branco, o que tem essa cor absoluta, alguém me explica?). Metodizar a loucura e o caos.
Cego, surdo, mudo, insano, como a moça da Colômbia que virou uma quase Elba Ramalho cantou há tempos, naturalmente que eu estou invertendo o gênero e a língua. E, logo agora, ou talvez, propositadamente agora, me vem esse medo de sair de casa, essa fobia de ver gentes e de conversar com elas, de ouvi-las e de ouvir o que vai-me dilatar a alma e me rasgar o peito de tal forma que eu possa receber e sentir de modo mais definitivo, com a dor que vem de qualquer sentimento, a grandeza do mundo? Esse medo vem do fato de eu eu morar numa cidade grande e cheia de gente e, então, cheia de diferenças, onde ninguém está seguro? Não, é muito raso e é muito confortante pensar assim, a insegurança não vem da falta de ação da prefeita, nem de nada disso, vem da fragilidade e da imprevisibilidade daquilo tudo que conecta uma forma de vida à outra. E me vem não só esse medo, ou melhor, esse medo aumenta com a volta de coisas e de pessoas e de sentimentos ruins e desconexos e daquelas coisas que eu não consigo domar e eu tenho de acreditar que é justamente nessa impossibilidade de controle que reside a grande graça da vida, não?
Inspiro. Expiro. Lentamente, é como eu tento respirar, é como eu ouvi dizer que tem de ser. Relaxar o corpo de verdade, o relaxamento, literalmente, significa não retesar o músculo, então por que, mesmo para dormir, estou sempre com os punhos cerrados? Para e por que tanta defesa, meu menino?
A quentura espontânea dos abraços sinceros em vez do engolfamento físico, provocado artificialmente, de meros braços?
Enfim, o espontâneo em vez do artificial?
Enfim e fim, o que eu não tenho em vez do que eu tenho?
Sim, por favor. Sou humano. Naturalmente, e para sempre, insatisfeito e desesperado.
Pronto, você já pode freqüentar qualquer festa nas coberturas da Lagoa.
Helena, a lobotomizada - Cena 71
Águas de Março como trilha incidental. Helena está fazendo cooper no Arpoador quando acidentalmente se encontra com Diana. Na mesma hora ela pára e olha com ódio para a rival. O embate é inevitável.
Helena:
- Vagabunda! Você ainda tem coragem de morar aqui no Rio depois que foi pêga cantando o Carlos numa vernissage barata?
Diana:
- Alto lá! Ele é quem estava me cantando. Aliás, até me convidou pra ir pra Praga com ele. Isso depois que me disse que "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã....".
Helena (aos prantos):
- Mentira! Agora só falta você inventar que existe violência, estupro, matança e Rosinha Garotinho no Rio. Pensa que eu sou boba?
Diana:
- Que mentira? Mentira é o seu casamento. O pobre do Carlos precisa encher a cara de marguerita para te agüentar.
Helena (aos prantos):
- Escuta aqui: eu não investi em um antiquário, em um lifting e em toda espécie de futilidade para perder meu homem para você. Você acha que é fácil ser protagonista do Manoel Carlos?
Helena tira uma granada do meio do decote que generosamente mostra seu novo implante de silicone e aponta a arma para Diana. Ao fundo, sol se põe no Arpoador. Sobe Águas de Março.
Pra minha mãe, pro meu pai, pra você, pros meu pets, pra minha terapeuta, pra minha cabeleireira, pro meu maquiador, pro meu dealer...
Como já venho reclamando há tempos, o sistema de comentários -- ou, ainda, a caixinha de óbolos virtuais -- está em vias de falência. A queixa é a de sempre: consigo ler todos, após longo período de aguardo; respondê-los, contudo, demanda uma paciência e uma sorte num nível muito acima do que aquele que me foi dado pela natureza.
Então, ficamos assim, por enquanto -- meus obrigados e desculpas, mil e sinceros, a todos os meus comentaristas-leitores que me escreveram ultimamente e a quem eu não pude dar uma resposta (em ordem alfabética, para não cometer injustiças):Ana-Brava-Camburão-Lacraia (você já assinou aqui em mil formas possíveis) Arcanjo, Blanda, Calucha (quem é você, criança?), Carol, Criança Hype, Drinks, Garota Marota, Gil-Golsen, Insane Girl, Misses P., Reichstag, Santarello, Smile Amarelo, Speculum, Super Star, Survivor.
Há também os que não comentam, mas sei que lêem isso aqui direto e a quem não posso deixar de mandar lembranças (novamente, de "a" a "Z"):Azolan, Eiki, Fumal, Giu (sim, eu sei que você me lê!), Leandro, M.E...
Ufa, acho que não me esqueci de ninguém. Caso o tenha feito, podem-me mandar puxões de orelhas, preferencialmente por e-mail, já que o YACCS não anda exatamente um primor. E não me acusem de má-vontade por não responder os comentários, porque arrumar, organizar e me lembrar desses nomes todos me deu um trabalho dos infernos.
Ah, sim. Me senti um baixinho respondendo à clássica pergunta da Xuxa: "vai mandar beijo pra quem?".
"Mistress Dalloway gives so many parties, to cover the silence!"
(citação registrada por mim, com quem me identifiquei muito, escrita de cabeça e, então, provavelmente torta e inexata, extraída d'As Horas)
Um tríptico de mulheres que se entrelaçam, que se reconhecem e que, às vezes, se reclamam. Cada uma dessas personagens, por sua vez, se desdobra em mais três ecos contemporâneos -- maridos, amigas, filhos, amantes, todos são extensões e expressões de uma mesma realidade. São as tríades. Ou melhor, é um ressoar constante de uma mesma música. Da mesma dor, que desconhece o tempo, e que, em resumo, significa a tentativa de se manter na fina linha do equilíbrio que separa dois abismos. A luta pela vida é uma linha tênue que separa os extremos da apatia e da autodestruição declarada, e seguir este caminho estreito e tortuoso exige habilidades de um trapezista -- cada dia é um perigo, é uma armadilha, é a tentativa de uma vitória. Assim é As Horas, um presente que ele me deu -- sim, pois quem me indica um livro, um filme ou me aponta uma paisagem inesperada e gratificante está sempre me dando um presente.
É para (re)ver e para guardar. Como ele arrematou muito bem (favor ler o post inteiro): "(...) É uma viagem amarga e dolorosa, mas de um valor inestimável."
Saí de São Paulo em petição de miséria. O corpo doendo, o nariz escorrendo, a garganta arranhando e a cabeça quase explodindo. Quase desisti, ou melhor, eu até teria desistido se, ao menos, estivesse em condições de pensar em alguma coisa. É, porque pensar era tudo o que eu não conseguia fazer, eu estava inerte -- não estava naquela inércia da vida a que somos empurrador por força do desânimo e/ou da depressão; não era a dita morte em vida, esta que vem acometendo e neutralizando tantas pessoas. Era o nada mesmo. Na estrada acarpetada e cheia de pedágios -- a privatização tem um lado muito perverso -- minha cabeça era o branco, que só pensava em alcançar um descanso para o corpo.
O sítio dos meus tios fica na área da cidade de Pardinho. Que, na verdade, pode ser chamada de aldeia ou de vilela; uma verdadeira village com cinco mil habitantes, uma manchinha de casas antigas, encravada na Serra de Botucatu, uma serra alta, alta, alta. De um lado, a Castello Branco, com os então poucos carros parecendo aquelas miniaturas de maquete, inocentes e inofensivas, tanto por seu tamanho pequeno, quanto por seu silêncio que não perturba. Do outro lado, o resto da serra, cheia de árvores ainda intocadas e supostamente protegidas pelo status de Área de Proteção Ambiental -- pode-se dizer que é uma proteção decorativa, de fachada (ah, que novidade), já que a ignorância, a necessidade e a ganância e todas aquelas coisas ainda fazem com que as pessoas derrubem essa floresta virgem para convertê-la na monotonia dos pastos. E, em cima, coroando essa paz toda, vem um céu amplo e completo, que, aqui, só pode ser visto no Planetário.
A simples subida pela pequena estrada de terra que conduz ao sítio já foi desobstruindo, ainda que muito pouco, minhas vias nasais. Era um ar forte, que queimava de um jeito bom e impiedoso, a força da Natureza. Meus pulmões, castigados também pelo cigarro, ressentiram-se do contato com o ar puro; do mesmo jeito que meu priminho estranhou o leite de verdade e diretamente ordenhado das vacas. De qualquer forma, eu ainda tossia bastante, a coriza era muito e incômida. Mas como não tinha computador, nem barulho, nem trânsito, enfim, como não tinha uma única daquelas coisas que me fazem fumar, já me foi mais fácil cortar este hábito que só pioraria meu quadro.
Ainda assim, passei o começo da viagem muito ansioso para que a gripe cedesse, afinal de contas eu precisava aproveitar a piscina, o Sol -- qual a graça de passar o feriado inteiro fora daqui se você não pode estampar essa viagem na sua pele? Por essa ansiedade, passei o sábado inteiro e a manhã do domingo desejando "estar bem", então a toda hora eu estava apalpando a garganta, fazendo gargarejos, tomando remédios religiosamente.
No domingo após o almoço, eu abruptamente decidi parar de tomar as pílulas, e de passar todas as horas me medindo. E, assim, eu pude-me estender à beira da piscina, sentindo o chão me queimar a barriga e as costas sendo lambidas pela língua de fogo. Sem me preocupar se aquilo me deixaria pior, se a alta temperatura faria mal para o meu organismo.
A gripe, então, começou a ceder. E, então, eu finalmente consegui ler O lobo da estepe inteirinho, e sentir cada parágrafo -- ai, que vontade de grifar tudo aquilo. E eu terminei de ler, também, O Estrangeiro. E encontrei um livro antiqüíssimo, da década de sessenta, que continha uma biografia apaixonada e apaixonante de Espinoza.
E foi numa noite, sentado à varanda -- tomando chá verde, fumando um dos poucos cigarros que eu fumei lá, ouvindo o vento que uivava, livre e sem barreiras -- que eu percebi que não era só da gripe que eu queria me curar. Eu estava -- e ainda estou -- procurando pela salvação da minha vida.